Tudo por um pop star - Thalita Rebouas



Contracapa:

Galera, fiquei muito feliz por estar participando desse livro. Eu e minha irm (Sandy) temos um grande carinho pelos nossos fs. E um grande respeito por todos que 
dedicam parte do seu tempo acompanhando a carreara daqueles que escolheram como dolos. Acho que a Thalita acertou em cheio. Tanto no clima da histria, quanto na 
idia de fazer essa homenagem superjusta a essa galera.                                                   
Mas, voltando ao livro... Uma das coisas mais deliciosas  a forma divertida de retratar as aventuras das meninas Manu, Gabi e Ritinha. Sou suspeito, mas acho que 
Tudo por em pop star saca com sensibilidade o bom humor o clima dos megashows e os percalos a que os fs esto sujeitos.
No incio, como numa verdadeira mgica, tudo parece caminhar para um final feliz... Todos os problemas parecem ter soluo, desde o transporte para a cidade at 
o acompanhante adulto para lev-las ao show Mas, de repente, as coisas comeam a mudar de rumo. E a a historia envolve o leitor e se torna surpreendente.
Tudo por um pop star  uma aventura da melhor qualidade. Quem sabe um dia encontro com Manu, Gabi e Ritinha em um dos nossos shows? Como os nossos outros fs, ser 
um prazer receb-las.

"(Junior  msico e produtor musical. Comeou a cantar com sua irm, Sandy, aos cinco anos de idade. Hoje, com 19, pode ser considerado um veterano do show business.
Em 13 anos de estrada, a dupla j vendeu 13 milhes de cpias de seus lbuns.)"

Informaes:

Direitos desta edio reservados 
EDITORA ROCCO LTDA
Av. Presidente Wilson, 231 - 8 andar
20030-021 - Rio de Janeiro - RJ
Tel: (21) 3525-2000
WWW.rocco.com.br
Impresso no Brasil
2003
Preparaes de originais
LAURA VAN BOEKEL CHEOLA
Rebouas, Thalita, 1974
Tudo por um pop star/thalita Rebouas - Rio de Janeiro
Rocco, 2003, Primeira edio
"Jovens leitores"
ISBN 85-325-1643-2


A notcia
Manuela estava to, mas to eufrica, que no conseguia nem falar direito. Respirao ofegante, corao nas alturas, mos suando, estmago revirando. Tudo por conta
de uma notcia que ela acreditava ser a mais importante da sua vida. Talvez no a mais importante, v l, porm a mais empolgante, com certeza. J tinha ido  Disney 
duas vezes, mas nada se comparava ao que sentia naquele momento. Nem a primeira bicicleta. E olha que bicicleta em Resende, onde morava desde sempre, numa casa ampla 
com os pais e os empregados,  muito mais que diverso sobre rodas.  o meio de transporte de nove entre dez adolescentes e, mais ainda, a primeira sensao de independncia, 
de liberdade.
Apressou-se em ligar para Gabi e Ritinha. No para fofocar, mas para convocar uma reunio de emergncia. Precisava confabular com suas melhores amigas sobre o que 
acabara de descobrir.
Quando as duas chegaram  casa de Manu, como ela era carinhosamente chamada pelos ntimos, ouviram logo de cara:
- Vocs leram o jornal hoje?
- Jornal? Nem sabia que voc lia jornal, Manu.
Natural de Belm, Gabi, ou melhor, Gabriela, tinha 13 anos, pele morena e cabelos longos, bem escuros. Os olhos, grandes e pretssimos, pareciam duas bolas de gude, 
de tanto que brilhavam. Mstica ao extremo, do tipo que acredita em duendes, foras ocultas e fantasmas, foi morar em Resende, no estado do Rio de Janeiro, aos trs 
anos, depois que seu pai foi promovido a gerente de uma das maiores revendedoras de carros da cidade. Suas curvas e simpatia na medida certa deixavam os meninos 
do colgio enlouquecidos. Babando. . Era linda. E ainda tinha o narizinho arrebitado a danada.
Gostava de inventar sua prpria moda. Costurava (a mquina de costura era seu objeto preferido desde os sete anos) bordava, rasgava, transformava, pintava. Tinha 
um guarda-roupa para l de originai, com peas criadas e confeccionadas por ela mesma, com muito orgulho. Craque em combinar acessrios, nunca errava na escolha 
das cores. Do grupo de amigas, era de longe a que melhor se dava com os pais - separados havia pouco mais de dois anos. Conversava com eles sobre tudo. Tinham uma 
relao saudvel, descomplicada, madura e cheia de companheirismo.
- Eu s leio o horscopo, e olhe l! A gente vai ler jornal durante toda a nossa vida adulta, por isso eu prometi para mim mesma que aquelas letrinhas e manchetes 
todas s vo entrar na minha cabea por livre e espontnea vontade depois que eu completar dezoito - manifestou-se a caula do trio, Ritinha.
Rita de Cssia, ou Ritinha, seu apelido desde pequena, era aquele tipo de menina que toda sala de aula tem. Estudava pra caramba, mas quando tirava nota dez fazia 
tipo e falava "Geeente! Como eu tirei essa nota? No estudei nada!...", com um sorrisinho todo satisfeito no canto da boca. A filha que todo pai gostaria de ter: 
obediente, inteligente e comportada. Baixinha, vivia tentando domar os cabelos cacheados. Queria que fossem lisos e escorridos como os de Manu - que era loirinha 
dos olhos azuis. descendente de alemes. Sabe como  menina, sempre implica com as madeixas. Se Ritinha tivesse cabelo liso, certamente sonharia com cachos e mais 
cachos.
Fera no skate e craque em esportes com bola, era sempre a primeira a ser escalada para os times de queimado e handebol. Tempor, acabou sendo criada como filha nica. 
Morria de medo do pai, seu Onofre, um senhor alto de pele morena, magro, austero e impaciente, nada chegado a uma conversa. Seu irmo mais velho, o Fred, morava 
fora do Brasil, mas o carinho que nutriam um pelo outro era mantido pelo telefone (em ocasies especiais como aniversrio e Natal!) e e-mail.
- Pois , mas, graas ao meu pai, eu tenho o hbito de ler jornal todos os dias. Alis, acho um mico vocs no fazerem muito isso tambm. E se no colgio rolar uma 
redao sobre um tema atual? O que vocs fazem? Sentam e choram, n? - Discursou Manu.
- Minha me me conta as novidades, u - explicou-se Ritinha.
- E eu tenho preguia.  tanta coisa pra ler...
- Preguia?! De ler? Pois eu leio, ainda bem! Exatamente por isso, s eu soube da notcia que vai mudar nossas vidas - bronqueou Manu.
- Nossas vidas? - perguntou Gabi.
- Voc disse "mudar nossas vidas"? - duvidou Ritinha.
- Claro. Afinal, nos trs estamos juntas nesse sonho!
- Que sonho, Manu? Deixe de suspense! No gosto disso - declarou Gabi.
Manu deu um sorrisinho maroto e fez a grande revelao:
- Sabem quem est vindo ao Brasil, com direito a uns dias de frias em Bzios entre um show e outro? Os Slavabody Disco-Disco Boys!
Olhos arregalados, gritinhos do tipo montanha-russa e um comeo de choror tomaram conta do quarto. Mas calma, meninas, no era s isso. A matria dizia mais.
- Eles chegam daqui a vinte dias. Vinte dias! E vo se apresentar no Rio e em So Paulo! - completou Manuela.
Um sorriso meio desacreditado a estampar os rostos de Gabi e Ritinha. Parecia mentira. Como assim?! Finalmente teriam a oportunidade de ver bem de perto os caras 
mais gatos, mais famosos, mais maravilhosos, mais apaixonantes, mais tudo de bom e mais vitaminados da musica pop internacional. Eles estariam no Brasil respirando 
o mesmo ar que elas!
Aps mais alguns pouqussimos segundos de estupefao, as trs se entreolharam, suspiraram e estouraram num grito histrico, infindvel, para logo depois traduzir 
em palavras tudo o que estavam sentindo, numa s voz, num s corao, numa s alma, como se tivessem ensaiado.
-  um,  dois,  trs!  quatro,  cinco mil Os Slavabody  Disco-Disco Boys esto vindo ao Brasil! - Seguido do no menos pavoroso. -  o Slavabody, o-ba!  o Slavabody, 
o-ba!
Tudo bem, tudo bem... elas so fofas e coisa e tal, mas ningum  perfeito.
- A gente  brega, hein? - atestou Gabi, rindo.
- Mas quem no  brega numa hora dessas? Nossas paixes, nossos gringuinhos preferidos esto vindo para perto da gente! - retrucou Manu.
- Ai, ai, eu j perdi a conta de quantas caixas com fotos e recortes com o maravilhoso Julius Tiger eu tenho no meu armrio... - suspirou Ritinha.
- E a quantidade de coisa que eu tenho sobre o Stack Tom Tompson! Mas isso no importa agora! A questo  como vamos fazer para ir ao show - cortou Manu.
- Eu vi num filme que, nos anos 70, vrias meninas conseguiam, no sei como, viajar dentro de um nibus com as melhores bandas durante suas turns. No sei do lado 
do Slack Tom Tompson, do Alexander Ray Boff, do Julius Tiger e do Michael Laztakion?  s a gente descobrir como elas faziam e fazer igual. Deve ter como na internet. 
Nos Estados Unidos essas fs so chamadas de groupies. Sabia que no tempo das nossas avs, ns seriamos chamadas de macacas-de-auditrio! Horrvel, n? - tagarelou 
Gabi.
- Que timo, Gabriela tambm  cultura, vejam vocs! - debochou Ritinha. - Mas vamos voltar  vaca-fria. Como  que a gente faz para ver o show! Minha me nunca 
vai me deixar ir para o Rio de Janeiro sem ela! Nunca! E ficar tietando pelo Rio com me a tiracolo no tem nada a ver. Sem contar que ela acha essa coisa de ser 
f completamente idiota e vai me botar para baixo, tenho certeza. Conheo a pea. Se for para viajar com ela, prefiro nem ir.
- Com a minha me e o meu pai, nem pensar tambm. Meu pai trabalha todos os sbados desde que eu me entendo por gente. E minha me, agora que virou voluntria, nem 
cogita faltar s aulas de pintura que ela e umas amigas do, nos fins de semana em comunidades carentes. S sobraram seus pais, Gabi.
- Pode esquecer! Meu pai odeia multido. No vejo a menor possibilidade de ele topar levar a gente. E minha me, vocs conhecem. Agora que a Kika teve sete filhotes, 
s pensa em cuidar deles. No sai de casa para nada. Acha que os bichinhos so frgeis e precisam dela: est se sentindo a prpria veterinria.
- Que timo! Perdemos o show - ironizou Ritinha.
- L vem voc! Que mania de sofrer por antecipao! - contestou Manu. - Deve haver uma maneira de convencer nossos pais a nos deixar ver o show. No pode ser to 
difcil. Vamos botar a cabea para trabalhar.
As trs viviam esperando os meninos do Slavabody Disco-Disco Boys anunciarem sua vinda ao Brasil. Rezavam por isso. S pensavam nisso. Choravam e esgoelavam-se por 
isso. E esse dia finalmente havia chegado. Merecia um esforo.
- Que tal fazermos uma campanha? Podemos insistir exaustivamente e vencer pelo cansao - sugeriu Manu.
- Boa idia. Eu fao a camiseta da nossa campanha, que pode ser chamar "Slavabody j"
- E eu posso implorar e fazer drama todos os dias, vrias vezes por dia, durante uma semana. Quando eu precisei trocar meu skate velhinho por um novo, usei a ttica 
e deu certo - lembrou-se Ritinha.
- Abrir o berreiro e usar a camiseta da campanha vinte e quatro horas por dia. Ser que s isso basta? - ponderou Gabi.
Talvez sim. Talvez no. Vamos nos botar no lugar dos nossos pais e tentar prever a reao deles - palpitou Manu.
- Xi, no acho bom... sabe como me vejo no lugar deles? "Rita de Cssia Simio da Silva, voc percebeu o juzo de vez? Show do Slavabody no Rio, era s o que faltava! 
Nossa resposta  CLARO QUE NO! V estudar para ser algum na vida e esquea esses meninos sem graa. E j para o quarto!" - estourou Ritinha imitando a voz meio 
gasguita de sua me.
Uui! Que balde de gua fria!
- Ai, Ritinha, seu pessimismo me irrita! -disse Manu.
- Acho que o melhor a fazer  chegar para eles com uma soluo, no com um problema. Para isso, precisamos resolver muita coisa antes de botar a campanha e nossas 
mais sinceras lgrimas em ao. Um: os outros custos da viagem sero pagos com a nossa mesada ou com um extra que eles dariam? Dois: e os ingressos? Trs: como vamos 
para o Rio? Quatro: onde a gente vai se hospedar? Melhor ter todas essas respostas na ponto da lngua na hora de falar com eles - Observou Gabi.
- Ai, tudo bem! Tudo bem! Rita de Cssia e Gabriela, vocs so to chatas. Eu ainda no pensei nesses detalhes!  s parar e pensar, ento. Se o problema  s 
esse, vamos pensar.  pensando que a gente resolve as coisas. A gente tem de pensar, pensar, pensar.
Aos poucos os rostos se fecharam num expresso desolada, triste, de desapontamento. No fundo, no fundo, sabiam que nenhum pai encararia com sorrisos e naturalidade 
a idia de ter a filha adolescente andando pela Cidade Maravilhosa por conta de um show internacional. E ainda tinha uma agravante: Gabi e Manu eram filhas nicas 
e, portanto, superprotegidas.
Mesmo assim, pesaram em diversas "tcnicas de insistncia". Gabi cogitou comprar, ou alugar, um berrante para toc-lo uma hora por dia, depois do jantar, mas as 
trs concluram que isso s irritaria as mes, e a inteno era amaciar os pais, agrad-los. Atos como bajular, dar mais beijos que o normal, limpar o prato em todas 
as refeies, comportar-se melhor e coisas do gnero tambm foram descartados. Eles se sentiriam enganados e no deixariam. Para piorar, faltava muito para o perodo 
das provas. Logo, notas boas no poderiam ser usadas como argumento. Hummm...
Manuela ficou desapontada, achou que seria bem mais fcil. O Rio e o Slavabody, antes mesmo de se aproximarem delas, comearam a ficar looonge.
Mas... espera a!
Claro! Manu lembrou-se da prima, Babete, tambm conhecida como Babete Labareda. Ela era dolo de dez entre dez meninas de Resende desde que foi pega ficando com 
o primeiro dos quatro atores lindos e famosos que beijou no perodo recorde de dois meses.
- J sei! Vamos agora para a casa de Babete! - Gritou Manu.
- Aquela sua prima doidinha?- quis saber Ritinha.
- Ela pode at ser doidinha, mas  uma tima resolvedora de problemas. Vamos logo?
Pegaram suas bicicletas e partiram.
Babete precisava fazer algo. Era a ltima esperana do trio de macacas-de-auditrio, ops! De fs ardorosas. Babete era experiente em relao a "assuntos da vida", 
como ela mesma dizia. Era tudo o que elas queriam ser: esperta, poderosa, charmosa e independente - j tinha at morado sozinha em Nova York e Paris. Uau!
Quando chegaram l, Labareda meditava, compenetradssima ao som de "Os melhores mantras de todos os tempos, volume 7". Ao abrir a porta, olhou por dois segundos 
para as meninas e disparou:
- Que caras de enterro so essas? Vocs no vo entrar aqui em casa com essa energia pesada, no! Vamos respirar, todo mundo respirando, respirando... pensem no 
nirvana, mas no aquele grupo de rock, pelo amor de Deus!... rio azul, na casca do pssego, no mar, na gua da chuva, na cachoeira. Visualizem uma luz intensa numa 
floresta cheia de pssaros com o bico grande e asas vermelhas, isso... Por fim, imaginem a aura de vocs se purificando, melhor, imaginem um espanador astral que 
bote para fora toda a poeirinha ruim e estragada, timo... - disse Labareda, de olhos fechados e mexendo as mos suavemente como se estivesse limpando mesmo s 
trs, embora no tenha sequer encostado o dedo nelas.
Manu, Ritinha e Gabi ficaram paralisadas. No sabiam se riam ou choravam. No esperavam um recepo assim, to esotrica.
- No saiam da! - completou Babete antes de bater a porta com toda fora na cara das meninas, que continuavam se entreolhando sem entender nada.
- Essa doida tinha de ser da sua famlia, n, Manu? No pode ser um prima normalzinha, que estuda para ser mdica, malha trs vezes por semana e sonha com o casamento 
desde o dia em que se vestiu de noiva na festa junina da escola? - resmungou Ritinha.
- Deixa de ser antiptica, Rita de Cssia! - berrou Manu. Era assim que as amigas e os pais chamavam Ritinha quando estavam enfezados com ela.
 -No v que ela s est querendo ajudar? Minha av sempre diz para eu cuidar muito bem da minha aura. J tomei banho de sal grosso e tudo. No vejo nada de doido 
nisso, t? - bradou Gabi.
- Pois quer saber? A nica urea que eu conheo  a prima da manicure da mulher do meu vizinho! - esbravejou Ritinha, demonstrando total desconhecimento do assunto.
A porta se abriu. Era Babete de novo. Dessa vez vestia uma tnica branca meio amassada e segurava alguns galhos de arruda numa mo e um defumador na outra. Comeou 
a bater forte com os galhos em cada uma das trs, dizendo palavras ininteligveis. Batia de verdade. Pancado mesmo. Para "espantar as foras do mal", segundo ela. 
Depois de purific-las, deixou-as finalmente entrar
- Agora sim! Tirem os sapatos, por favor, meninas, e faam sua a minha casa, o meu espao terrestre. E no se preocupem com chul! Meu defumador  poderoso e capaz 
de eliminar qualquer fedor: Entrem!
- Gente no sei mais se eu quero tanto ir a esse show, viu? Est dando muito trabalho... - sussurrou Ritinha s amigas antes de entrar.
- Shhhh! - censuraram, em coro, as outras duas.
- Cad seus pais, Babete? - puxou assunto Manu.
- Foram procurar um substituto para o Douglas, que j est muito rodado. Ele anda dando problema direto, o cano de descarga soltou pela nona vez. Agora no tem mais 
jeito, os velhos vo ter de vender o Douglinhas. Mas meu Maneco est firme e forte. Tem at direo hidrulica! Sabe l o que  isso? Voc j andou no Maneco, n, 
Manu? Vocs querem beber alguma coisa? Coca, guaran, cerveja, vodca... estou brincando, bvio! S tem gua. Gelada e sem ser gelada.  que mame anda desleixada 
e ainda no fez supermercado este ms. Pera que eu vou pegar. Querem biscoito? Acho que tem biscoito. Biscoito de aveia, vocs gostam? Tem um pacote, se no me 
engano, vou pegar tambm. Fica  vontade, gente!
Babete falava sem parar. Falava, falava, falava demais. Pelos cotovelos. Sequer respirava. E era toda zen, imagina se no fosse. Ah, sim. Dava nome aos carros e 
no era raro v-la trocando dedos de prosa com eles. Era muito alto-astral. E beeeeem maluca  primeira vista.
Aquela alegria infindvel tirou as meninas do srio. E quem disse que elas queriam gua com biscoito de aveia? "Argh! Que doida!", pensaram as trs. Quando ela chegou, 
em vez de biscoitos, tinha bolo de cenoura e em vez de gua, suco de laranja com beterraba.
- Olha o que eu troooouxe! Hora do lanche, que hora to feliz! O suco de laranja ta vermelho por causa da beterraba. Faz um bem danado misturar os dois! D fora, 
vigor, energia, vocs nem imaginam!
- A gente imagina, sim, Babete. E como! - ironizou Manu.
- Mas digam: a que devo a honra desta tripla visita?  
-  que... bem, a histria  a seguinte: os Slavabody Disco-Disco Boys esto vindo para c e...
- Para Resende?! Gente, que legal! Olhem Resende crescendo no cenrio pop mundial! Iu-huu! - interveio Babete, cheia de felicidade.
- Claro que no, Babete! Quis dizer que eles esto vindo para o Brasil e que...
Manu contou a histria toda. Tintim por tintim. Desde a hora em que acordou e leu o jornal.
-  claro que eu ajudo vocs, meninas! Fui f fantica por muitos e muitos anos, sei bem o que  isso. J invadi o palco no show do U2 em Paris e quando dei por 
mim estava beijando o Bono na boca. Tambm j entrei na rea VIP de um concerto do Elton John em Nova York e rompi a grade de proteo num show da Madonna em Londres.
- Voc beijou o Bono Vox? - quis saber Manu, levantando as sobrancelhas.
- Do U2? - perguntou Ritinha, os olhos arregalados.
- Na boca? - completou Gabi, de queixo cado.
- Bom, no foi exatamente n boca. Foi, assim, bem perto do cantinho da boca, mas eu considero boca, obviamente. E no foi assim um beeijo, beeijo... foi um meio-beijo, 
praticamente uma lambida, porque em dois segundos eu fui obrigada a trocar o brao musculoso do Bono pelo ombro de um segurana nada educado, que me tirou  fora 
do palco - explicou Babete.
- E seus pais no fizeram nada com voc depois disso? - indagou Ritinha.
- Que nada! Eu morava em Paris, sozinha, o que significa dizer que eu era meu pai e minha me. Como eu me entendi completamente, perdoei esse meu ato de, digamos, 
tietagem explcita, e nem precisei me deixar de castigo.
- Ai, que inveja! Como deve ser bom cuidar do prprio nariz - empolgou-se Gabi.
- , e o mais legal  perceber que a gente consegue andar com as nossas prprias pernas, sabe? Por isso, por estar aprendendo tanto, achava um absurdo me punir, 
me deixar de castigo ou me dar bronca durante minhas andanas de mochila nas costas! Eu me dava um desconto, n, gente? Afinal, estava sozinha, mudando de pas a 
cada dois meses, tendo de me virar com roupas, comida, sapato, tintura de cabelo, incenso... isso sem contar que cabia s a mim descobrir onde tinha carne de soja, 
que loja vendia o melhor abajur azul com estrelinhas giratrias, pelo menor preo, em qual farmcia eu achava remdios  base de hamamlis e outras coisas essenciais 
para a vida. No era nada fcil, eu ralava pra caramba! Fiz de tudo um pouco: fui ajudante de pedreiro, manobrista de boate badalada, assistente de mgico decadente, 
e por a vai.
Os olhos das trs faiscavam. Babete tinha morado bastante tempo sozinha, fora do pas. Para elas, meninas de Resende, isso era moderno demais, independente demais, 
maravilhoso demais, fora do normal demais, encantador demais. Invejvel demais, portanto. 
Tudo bem, Babete era doidinha. Est bem, est bem... completamente doida. Mas quem no ?
- Podem contar comigo para o que vocs precisarem.
- Esse  o problema. A gente precisa de tudo - desabafou Gabi.
- Vejamos, vejamos. Qual a melhor ttica para convencer seus pais a deixar vocs verem o show dos bofes do Rio? E se vocs falarem em casa que vo deixar de comer 
batata frita por um ano? Tudo o que os pais mais querem  ver os filhos com sade, acho que pode colar. Se ele no deixarem, digam que vo pintar os cabelos de verde. 
Aposto que a eles deixam. Que tal?
Vamos combinar que a famosa resolvedora de problemas no estava se saindo to bem. No resolveu nada, s complicou.
- Acho difcil. Minha me no vai dar a mnima bola para esse tipo de argumento. Vai falar que parar de comer fritura  timo e que isso no tem nada a ver com o 
Slavabody - soltou Gabi.
- E a minha me sabe que eu jamais pintaria o cabelo de verde - avisou Manu.
- Hum... ento deixa eu pensar mais... por que vocs no dizem que vo ao Rio para cuidar, como voluntrias, da nova safra de filhotes do zoolgico e vo aproveitar, 
j que esto l mesmo, para ver o show dos Slavabody? Assim vocs deixam o show em segundo plano, minimizando, eles podem nem perceber.
Voluntrios do zoolgico? Que papo mais sem p nem cabea! No que elas no gostassem de bichinhos, pelo contrario, mas nunca tinham ouvido falar que o zoolgico 
aceita voluntrios da idade delas para "cuidar de filhotes". Filhotes precisam de cuidados especiais! Babete, Babete, cad sua famosa facilidade para descascar pepinos? 
Ser que foi para o ar junto com a fumacinha dos incensos?
- Como assim, no perceber?! Nossos pais no so burros, Babete! E j foram crianas, notariam na hora que a tem coisa - estrilou Ritinha, com total apoio das amigas.
Xi... aquela visita no estava rendendo os frutos desejados. E Babete era a ltima esperana do trio de tietes.
- No est fluindo, meninas, a energia no est fluindo. Pera que eu j volto.
Em um minuto, reapareceu. Agora vestindo uma roupa azul-turquesa que a ajudaria a pensar melhor e a clarear as idias. Sentou-se em postura de meditao, fechou 
os olhos para se concentrar e, em questo de segundos, chegou a uma concluso.
- Tive uma idia! - gritou Babete, enquanto se levantava num pulo e corria para pegar o telefone.
Ai, ai, ai, ai, ai. A palavra "idia", vinda dessa maluquete, no gerava todas as expectativas. Labareda era esforada e cheia de boas intenes, mas suas ltimas 
idias foram desastrosas. As meninas se perguntaram "o que esta doida vai aprontar?". Logo tiveram a resposta.
- Eu gostaria de falar com a tia Macl, por favor... - pediu, enquanto dava uma piscadela marota para as meninas, que quela altura sacudiam as mos, com os olhos 
arregalados e cara de "sua maluca, pra com isso!".
- Tia, sou eu, Babete.  o seguinte: Manu e duas amigas dela, a Babi e a Vidinha...               
- Gabi e Ritinha, Babete! - corrigiu-lhe a tia.
- Ah, . Desculpe, tia. Bom, elas vieram aqui em casa me pedir ajuda. Queriam que eu bolasse uma forma de convencer voc e os pais das outras a deix-las ir ao show 
dos Slavabody Disco-Disco Boys, que vm se apresentar no Rio.               
H? Como? O qu? O que foi que ela disse? No  possvel! E pensar que Gabi, Manu e Ritinha foram at Babete na esperana de resolver um problema, mas, ao contrrio, 
criaram um. Agora a me de Manu sabia do show, o que quer dizer que em pouco tempo todas as mes saberiam do show, e elas no tinham nada preparado. Nada! Babete 
ignorou a aflio do trio e prosseguiu:
- Lembrei de uma coisa que certamente vai convenc-la a deixar sua filha ir para o Rio ver o show. Sabe o Davi, aquele meu melhor amigo, que  diretor de fotografia? 
Ento, ele mora num ap gigante em Copacabana. Elas podiam ficar hospedadas l sem pagar nada. E eu me comprometo, com voc e com os pais da Gabi e da Ritinha, a 
tomar conta das meninas e acompanh-las ao show. O que voc acha, tia?  
At que no era m idia. Vamos e venhamos, ir para o Rio com uma pessoa mais velha, e da famlia de Manu, podia ser a soluo para os pais permitirem que suas filhas 
realizassem o sonho de ver os atlticos meninos do Slavabody ao vivo e em cores.      
- E quem disse que eu vou deixar a Manu ir para o Rio com voc! S se eu estivesse louca.
Ops! Pela cara de Babete, as meninas perceberam que Maria Clara no gostara muito da proposta.
- Ah, tia... deixe! Por favor. Eu sou responsvel, pode no parecer, mas sou. Eu sei... eu sei... entendo tia, arr, arr...
Enquanto falava, ou melhor, ouvia. Babete ps o polegar para baixo, para mostrar para as trs que o bate-papo no ia nada bem. A desiluso voltou a tomar forma no 
rosto do trio. E no da prpria maluquete, que parecia inconformada.
Mas nem tudo estava perdido. Num piscar de olhos, a prima de Manu lembrou-se de um detalhe que podia fazer toda a diferena naquela conversa. Antes de continuar 
com a tia, porm, afastou o telefone da boca e confirmou:
- O show cai em um fim de semana, no  meninas? Ai, que bom! - comemorou, observada por Gabi, Manu e Ritinha, todas com cara de interrogao. Apressou-se em explicar. 
- Seguinte, tia: Todo fim de semana a me do Davi, dona Eullia, que eu chamo de Lal, viaja de Ub, onde mora, para o Rio. Vai matar a saudade do filho, passear 
pela Cidade Maravilhosa e dar um jeitinho no apartamento.  dona e professora de um dos colgios mais tradicionais de Ub, a-do-ra crianas e aposto que vai amar 
a idia de ir ao show com elas. S preciso telefonar para checar. O que voc acha?
 At que enfim, Babete acertou uma! J no era sem tempo. Aquilo, sim, tinha pinta de idia boa, coerente, pertinente, feita sob medida para agradar os pais e suas 
filhas, claro. Aps um longo e inquietante silncio, Maria Clara manifestou-se.
- No sei, Babete, no sei... preciso pensar nisso com calma, discutir essa possibilidade com o Afonso, no d para lhe dar uma resposta agora. E eu sei l se essa 
mulher vai querer aturar trs aborrescentes durante todo o fim de semana.
- Ah tia, pense com carinho, fale com o tio Afonso. Elas querem tanto ir a esse show. E merecem. So boas meninas, boas alunas... e quanto a Lal, tenho certeza 
que vai adorar. Conheo a pea. Ela  animadssima. Se bobear  mais f do Slavabody do que a sua filha.
- Menos, Babete, menos. Est bem, sua garota chata e insistente, vou pensar, prometo.
- Com carinho! - enfatizou Babete, agora com o polegar para cima, para deleite das amigas mais novas.
- Est bem, com carinho. Agora preciso malhar. Beijo. Tchau. - desligou Maria Clara, com o humor bem melhor e uma voz que dava sinais de trgua.
As trs no esperaram para voar em Babete e dar nela um abrao coletivo. Eufricas, sabiam que agora tinham chances reais de conseguir convencer os pais. O show, 
a viagem ao Rio, o Slavabody... tudo comeava a se aproximar delas de novo, como num passe de mgica.
A tesa franzida de Ritinha, entretanto, denotava uma certa preocupao.
- Mas... essa dona Eullia  legal, n? Porque ningum merece ir ao show e passar o fim de semana inteiro com uma chatonilda.
- Legal?! Ela  tima, Ritoca! Modernssima, divertidssima, bem informadssima, cultssima; s usa sapatos divertidos, ama picol de limo e toca contrabaixo acstico 
como ningum. Vocs vo pirar com a Lal - descreveu Babete.
Ouvir isso foi um alivio para Ritinha. Ela j no era a personificao do bom humor, se encontrasse pela frente uma senhora mala, implicante e com pinta de general 
seria o fim, sabia que ficaria mal-humorada e resmungona durante todo o tempo.
- E o apartamento do Davi?  bacana? - animou-se Gabi.
- Vocs no tm noo de como  maneiro. E o ap mais maravilhoso, translcido e transcendental de Copacabana. Um mundo de portas e paredes. A vista  to linda 
que ele, em vez de cortina, botou uma moldura em volta da janela. A ficou parecendo um quadro, s que com movimento. No  o mximo. 
- Nossa, que idia boa! Muito criativo o seu amigo. Mas a gente no vai incomodar?
 - Incomodar? De jeito nenhum! E tem lugar de sobra para vocs e mais vinte amigas, se quiserem. Com direito a barracas no meio da saia e tudo. Vocs vo comigo 
e o Maneco, meu carrinho. J fui dirigindo vrias vezes para o Rio; estou craque na estrada, vocs no precisam se preocupar. Uma vez l  s a gente aproveitar 
o restinho de sexta e esperar pelo sbado, quando a Lal costuma chegar ao Rio - tranqilizou Babete.
Em seguida, passou a mo no telefone e ligou para a me de Davi, que conhecia h mais de dez anos. Conversa vai, conversa vem, anda para um lado, anda para o outro 
(ela nunca conseguia ficar parada ou sentada com o telefone sem fio na mo), Babete abriu um sorriso, Sorriso. Bingo! Dona Eullia estava cheia de disposio (e 
empolgao) para voltar no tempo e virar criana em solo carioca ao lado das trs resendenses.
A prima de Manu pediu que ela ligasse  noite para as casas das tietes, a fim de interceder por elas e acalmar os pais.
- Combinado. Depois ligo para dizer-lhe o resultado da minha conversa com eles. Mas fique sossegada, vai dar tudo certo, lido bem com pais. Voc sabe, fao isso 
h mais de 30 anos.
- A, que bom! Ento ta. A gente volta a se falar mais tarde. Obrigadssima, Lal. E pode deixar que, como agradecimento, eu levo de presente pra voc um ba cheinho 
de incenso!
- Valeu dona Eullia! - berrou Manu.
-  dona Eullia, o-ba!  dona Eullia, o-ba! - puxou Ritinha.
Babete desligou, virou para as meninas e decretou:
- Beleza, galera! Tudo nos trinques. Agora  s cruzar os vinte dedos e rezar. Mas estou sentindo que essa histria vai ter um final feliz. Toram bastante, com 
todas as suas foras.
 - Pode deixar! Torcida  o que no vai faltar! - Empolgou-se Manu.
Em xtase com a possibilidade de realizarem um baita sonho, as trs comearam a pular, gritar, gargalhar e chorar feito loucas, uma cafonice s. Agora era s esperar 
e fazer pensamentos positivos, como sugeriu a maluquete mais gente boa de Resende.
Ao se despedir de Babete, no resistiram e deram nela um abrao apertado, demorado, cheio de gratido. Saram do apartamento sem conseguir parar de sorrir, com as 
pernas bobas, o corpo leve, o corao molenga. Que tarde! Quantas emoes!
Deixaram suas bicicletas na garagem da prima de Manu e fizeram o caminho de volta de mos dadas, caminhando devagar, sem pressa nenhuma. Em total silncio - coisa 
que s deve ter acontecido essa nica vez, j que estamos falando desse trio de meninas fofas e falantes.
Dona Eullia cara do cu! At Ritinha parecia mais tranqila. Seu pai jamais seria duto com uma professora, ouviria pacientemente cada argumento - o que nunca faria 
com a filha.
Em menos de cinco minutos de caminhada, o silncio foi quebrado e deu lugar a uma srie de sons histricos e indescritveis, gritados enquanto pulavam em crculo 
abraadas, s lgrimas como se tivessem acabado de ver o Slavabody em carne e osso. No, no era comemorao antes da vitria. Comemoravam apenas o fato de correrem 
o srio risco de assistir ao show do grupo no Rio. Isso, por si s, j era um motivo e tanto para vibrar, berrar, chorar! 
Depois, aquietaram-se novamente. Sossegaram o facho como costumava dizer a me de Gabi quando via as trs mocinhas comportando-se como tal. Podiam chamar de ftil, 
ridculo, sem nexo, do que fosse. Mas aquele amor de f era to incondicional, to verdadeiro, que s mesmo fs fanticos conseguem entender. Um amor misturado com 
admirao, respeito, idolatria
Estavam vivendo intensamente a vida; e a vida, naquele momento, s tinha uma razo de ser: Slavabody Disco-Disco Boys - nome doido e comprido que elas amavam repetir 
embora desconhecessem o significado (como se tivesse um significado!).
Para elas, os quatro meninos saltitantes, sarados, acrobticos e com roupas esquisitas formavam simplesmente a melhor banda de todos os tempos. E ai de quem discordasse 
ou falasse que eram do tipo caa-nqueis, sem um pingo de talento. Os caras eram tudo de bom e ponto final.
 noite, como combinado, dona Eullia telefonou para a casa das meninas. Passou cerca de uma hora com cada um dos pais, falando do seu jeito com crianas, do seu 
amor pela profisso de mestre, respondendo a todas as perguntas maternas, entendendo as preocupaes e os medos dos pais em deixar as filhas irem para uma cidade 
grande como o Rio, comentando a novela, o preo da gasolina e ouvindo, ouvindo, ouvindo  bea. 
Ritinha, Gabi e Manu aguardavam ansiosas o parecer dos pais sobre a me de Davi ao fim dos telefonemas. Todos, sem exceo pareceram gostar muito dela, mas, para 
desiluso do trio, nenhum deu o aval para a viagem. Ficaram de pensar.  
- Pensar em qu, me? O que  que voc e o papai tanto pensam? No vejo motivo para vocs no deixarem a gente ir. Temos onde ficar e com quem ir. Ai, pelo amor 
de Deus! - implorou Manu.
A resposta no veio. Nem em uma hora, muito menos em um dia. Os seis pais em questo achavam o assunto importantssimo, e assuntos importantssimos no so resolvidos 
de uma hora para outra. No dia seguinte ao telefonema, reuniram-se, as portas fechadas, na casa de Manu. Em pauta: deixar ou no deixar as filhas irem ao show (cruel 
questo). Preocupavam-se com a idade delas, o tamanho, a fragilidade, o fato de nunca terem viajado sem eles... coisas de pais. Mas nessa reunio nada foi decidido.
Passou outro dia. 
Ai, meu Deus!
Mais outro.
A ansiedade imperava.
Mais um.
E elas gritavam por dentro: "Decidam logo!"
Um suspense danado, e tome de pensar.
- Nada ainda, me? - perguntavam vrias vezes por dia.                 
- No, querida, ainda estamos pensando. - Era a frase que ouviam de resposta.
Ao fim do quinto dia de espera, uma nova reunio na casa de Manu. Dessa vez com a promessa de uma resposta definitiva ao apelo das filhas.
- Ns pensamos bem... - comeou Afonso, pai de Manu, como se elas no soubessem.
- Vocs pensaram para caramba, tio! Demais da conta, esto matando a gente de curiosidade - reclamou Gabi.
- O assunto exigia, querida. Um dia voc ser me e vai entender o que estou dizendo. Bom, sei que vocs esto ansiosas e no farei mistrio. Vocs...
Nesse momento, quando os coraes das trs batiam mais rpido que bateria de escola de samba, Afonso teve um acesso de tosse. Acesso daqueles em que o povo em volta 
precisa ajudar, dar tapinhas nas costas, dar conselhos. Seu Onofre, pai de Ritinha, logo gritou:
- Bote os braos para cima, Afonso, bote os braos para cima!
Iara, me de Gabi, acrescentou:
- Agora balance, balance forte, para frente e para trs, isso!
Maria Clara seguiu outra linha:                             
-Tussa com fora, amor. Mais. Assim!                                              
Enquanto isso. Ritinha era o retrato da ansiedade e soltou em voz alta o pensamento que ocupava sua cabea;                               
-Ai,tio Afonso, deixe disso, v logo tomar um xarope! Quer que eu pegue?                                                                                         
Puxa vida, que tosse mais fora de hora! Tosse chata que no passava. S o tempo passava e elas continuavam indceis, sem saber a deciso de seus progenitores. A 
tosse, enfim, cessou, depois de mais alguns longos e interminveis minutos, e Afonso pde continuar:
- Bem, meninas... vocs podem ir ao show do Slavabody! - determinou o pai de Manu, com um sorriso no rosto ainda vermelho.
Diante de tamanha revelao, as trs no se contiveram. Entreolharam-se, prepararam-se, respiraram fundo e soltaram, aos pulos, aos berros e aos soluos a originalssima 
musiquinha (se  que podemos chamar isso de msica);                                  
- r, ri, ri, vamos ver o Slavabody! ri, ri, ri, vamos ver
Slavabody U-huuuuuu!
Ai, ai...
- Trs vivas para a dona Eullia! - puxou Gabi               
-Viva! Viva! Viva!- responderam as outras duas em coro.   
Agora era s contar nos dedos para o grande dia. E tentar no enlouquecer com a queima de fogos que acontecia dentro de suas barrigas. A viagem finalmente tomava 
forma, ganhava vida, cores. Aos poucos, o trio comeava a dar asas  imaginao e a voar para bem longe de casa. Traduzindo: para pertinho do cultuado Slavabody 
Disco-Disco Boys.
Meninas de sorte...

Na estrada
O ponto de encontro foi a casa de Babete, claro. O show aconteceria no sbado e elas saram de Resende no comeo da tarde de sesta-feira rumo ao Rio. Cada uma ganhou 
dinheiro dos pais para alimentao e ingressos, que custavam umas cinqenta pratas.
Na bagagem: biqunis, o binculo do pai de Manu, gloss, glitter, rmel, protetor solar, cangas, shorts, tnis, band-aid, camisetas, livros, gibis, meias e um casaquinho 
caso esfriasse. Gabi levou um perfume para cada dia, alm de uma maleta natureba de primeiros socorros, cheia de remdios alternativos e cheirosos, uns feitos de 
ervas naturais, outros a base de flores. Ritinha ps na mala os livros de exerccios de matemtica, geografia, portugus e histria. Manu, por sua vez, resolveu 
acrescentar s roupas umas fotos bacanas. Tinha esperana de esbarrar com o "olheiro" de uma agncia de modelos disposta a investir nela e a pagar o book que seu 
pai vinha se negando a patrocinar h anos - s por achar que a filha tinha de seguir seus passos de empresrio de sucesso.
No mais, foram munidas de Cds variados e de um bom humor fora do normal. Tudo para enfrentar numa boa o trajeto Resende-Rio, de duas horas.
- Oi, meniiiiinaaaaaassss! Mandei dar um banho gostoso no Maneco para ele ficar cheirosinho para vocs! Alis, vocs j deram bom-dia para o Maneco? - perguntou 
Babete, enquanto acomodava a bagagem no porta-malas.
- Bom-dia, Maneco! - disseram as trs em unssono.
- As mes de vocs esto enlouquecidas. Preocupadas que s elas - puxou papo Babete.
- E a gente no sabe? Antes de sair, eu ouvi umas 576 recomendaes - comentou Gabi.
- A minha, ento?! Se eu contar o que ela fez, vocs no acreditam. Disse que eu estava to agitada por causa da viagem, do show, de tudo, que resolveu me dar por 
escrito sua lista imensa de recomendao. Aqui, , vou ler pra vocs:

"Coisas para fazer na viagem: obedecer  dona Eullia, escovar os dentes, no comer bobagens, no comer entre as refeies, no comer massa antes de deitar, no 
comer muito, beber leite no caf da manh, obedecer  dona Eullia, tomar banho diariamente (uma vez, pelo menos), botar o casaco quando estiver frio, no dormir 
tarde, no fazer baguna no apartamento, no dar trabalho para a dona Eullia, no entrar no mar sozinha, no ficar sozinha, no fazer nada sozinha (o Rio  uma 
cidade perigosa, isso vale para as trs), no se perder da dona Eullia, no conversar com a Babete enquanto ela estiver dirigindo, no repetir coisas que a Babete 
fez, faz e/ou falou, no beber nada que um estranho oferea no Maracan, obedecer  dona Eullia, no falar com estranhos, no fazer besteiras, no tietar em excesso 
e no chorar durante o show (muito cafona). Por ltimo... obedecer  dona Eullia, essa pobre doida varrida que aceitou vocs trs por um fim de semana inteirinho. 
Coitada, no sabe onde se meteu. Te amo. Se cuida! Beijos, mame.

PS: OBEDEA  DONA EULLIA!"

As meninas rolaram de rir. Me  me, tudo igual mesmo.
- S a Ceclia, Ritoca, me ligou seis vezes. Pediu para eu ir bem devagar e disse que voc enjoa em estrada. Eu trouxe at esses cristais coloridos e esses incensos 
 base de limo, so timos para enjo. Se o estmago embrulhar, bota os cristais colados na barriga e cheira com fora o incenso limo, apagado, claro.  tiro e 
queda. Se mesmo assim voc continuar enjoada, o que  difcil, mas pode acontecer, trouxe esses saquinhos plsticos de avio que comprei num leilo na internet. 
No so fofos?
Os tais saquinhos eram da dcada de 60, de companhias areas de todo o mundo. A maluquete no batia bem, mas era adorvel. Apesar de mais velha, conversava com as 
meninas de igual para igual, falava a lngua delas naturalmente. As trs, por sua vez, estavam para l de agradecidas, sabiam que a viagem s sara por obra e esforo 
de Babete. 
 - O que seria de ns sem voc, hein, prima? Ns s vamos ver o show porque voc apareceu na nossa vida como uma luz. Estamos prestes a realizar nosso sonho por 
sua causa. Voc  o nosso anjo. Obrigada por tudo, em nome de todas - agradeceu Manu. 
-  a Babete, o-ba!  a Babete, o-ba! - puxou o coro Ritinha, seguida imediatamente pelas outras. 
- Obrigada pelas palavras, mas no, gente! PeloamordeDeus, corinho no, n? Fico superfeliz por vocs estarem realizando um sonho, viajando para a Cidade Maravilhosa, 
e coisa e tal, mas no precisam transformar o que esto sentindo em msica com coreografia, t? - implorou Babete.                             
Dava para perceber que seria uma viagem engraada. E com a menina mais velha mais legal que elas conheciam. S com ela, sem pai, sem me.
Quanto  sempre-empolgada-Labareda, estava visivelmente feliz, revivendo seus bons tempos, ficando com treze, catorze anos de novo, lembrando o tempo em que foi 
tiete profissional. Mas sem nostalgia ou saudosismo. Isso no combinava nada com ela.                           
- O que vocs querem ouvir? - perguntou Maneco, que s havia imposto uma condio: nada de Slavabody na viagem, seno elas no conseguiriam conversar.
- Sandy e Jnior! Sandy e Jnior! - berrou Ritinha
- Sandy e Jnior? Eu tambm adoro eles, mas ia sugerir Beatles, s para variar um pouco - cortou Gabi.
- Beatles? Por que  que a gente ia querer ouvir Beatles? No acredito que voc trouxe um CD dos Beatles! Beatles? Eu, hein! - manifestou-se Manu.
 - Talvez porque suas msicas sejam geniais e eles sejam at hoje um dos grupos mais criativos e populares de todos os tempos! - rebateu Gabi.
- Desculpe, mas o que  que deu em voc, hein?  fome, Gabi? Eu tenho biscoito recheado, quer? - debochou Ritinha.
- Desculpe decepcionar a beatlemanaca, mas o quarteto de Liverpool no  para sempre. O tal do John Lennon no morreu tempo? - espetou Manu, cruel, perdendo uma 
excelente oportunidade de ficar calada. 
- Nossa, Manu, como voc consegue falar assim daquele gnio?  alienao, falta do que fazer ou o qu? Que absurdo! Fiquei preocupada com a senhora agora! Ontem, 
antes de dormir, pensei o seguinte: na juventude, nossas mes eram fs do Chico, do Caetano, do Roberto Carlos. E eles continuam a, com fora total, vendendo disco 
 bea e com a popularidade intacta, at maior do que a de tempos atrs, mantendo um sucesso que no vai acabar nunca. Nossas filhas vo dizer o que da gente? Ser 
que elas vo saber quem foram e o que cantavam os Slavabody Disco-Disco Boys? - discursou Gabi, para total irritao das outras duas.
O silncio desconfortvel no durou muito tempo
- Iiihh! Eu s queria causar uma pequena polmica! Vocs tm idia de quanto tempo a gente vai ficar trancada neste carro quer dizer, no Maneco? Resolvi criar uma 
pequena discusso. Mas vocs so chatas, no sabem nem brigar direito! Sem contar que, me desculpem, so duas antas em matria de msica boa. Francamente! - disse 
Gabi.                                                      
- Gente, gente! Acho bom vocs tratarem de ficar mais amigas do que nunca. Se ficar pintando climinha ruim entre vocs, essa viagem vai ser uma porcaria. Imagina 
que coisa chata vocs trs sem aproveitar direito o Rio, que  ma-ra-vi-lho-so, s porque esto emburradas uma com a outra? No sejam crianas! No agora, que vocs 
esto prestes a conhecer os caras que so considerados os mais famosos do planeta - discursou Babete, para logo entrar em outro assunto: - Vocs vo bater ponto 
no hotel deles? Pergunto isso porque estratgias de aproximao so importantssimas. Uma vez, por exemplo, num hotel em Roma, eu me disfarcei de copeira s para 
entrar no quarto do Eric Clapton - contou, com a cara sapeca, como quem passa adiante uma fofoca daquelas.
- Eric quem? - sussurrou Ritinha.
 - Clpito, eu acho. Foi isso que eu escutei, pelo menos - respondeu Manu, tambm baixinho, para no atrapalhar o desenrolar do episdio que seria narrado a seguir.
Fingindo no ouvir a ignorncia musical das amigas mais novas, Babete pigarreou e continuou a contar sua histria para l de peculiar, cheia de recordaes de tiete:
- Lembro como se fosse hoje. Da janela do quarto dava para ver aquela piscina enorme, aquele cu cheio de estrelinhas italianas e aquele jardim, com as flores mais 
cheirosas do mundo. Era assim o cenrio da minha conversa com deus. O deus da guitarra. Parecia um conto de fadas. Ele de jeans e camiseta branca, super simples 
e superchique, eu vestida com uma rplica idntica aos uniformes das copeiras do hotel, feito por uma amiga belga, tima costureira e que tambm fazia uma massagem 
espiritual simplesmente maravilhosa.
- No acredito, Babete! Voc era fantica por ele? - embasbacou-se Gabi.
- Era louca por ele. Sou at hoje, admiro demais o cara.
- E o que vocs conversaram? Ele deu um autgrafo para voc? - interessou-se completamente Manu.
- Muito melhor do que conversa e autgrafo, ele tocou Tears in Heaven e Layla s pra mim. Podem morrem de inveja. Precisei insistir muito,  verdade, mas como eu 
tinha ensaiado tudo antes, acabei me saindo muitssimo bem. Depois do concerto eu j era praticamente amiga do , como eu o chamo at hoje. Fiquei to a vontade 
que at pedi para apertar a bochecha dele. Sou louca por bochechas. Imagina a do , fofa at dizer chega. Foi um dos dias mais lindos da minha vida. Sa de l com 
um autgrafo divino. "Ba, beijo do E." - concluiu com um suspiro. - E vocs? O que vo fazer quando chegar o grande momento com o Slavabody?
Babete tinha tanta certeza de que o encontro entre os Disco Boys e o trio chegaria que assustou as meninas. Ainda mais depois dessa histria. "E se acontecer algo 
parecido?", pensaram. Engoliram em seco. Nenhuma havia cogitado isso. Cada uma tinha, sim, viajado alto, se imaginando com pulseirinhas de livre acesso ao camarim 
e aos bastidores, assistindo ao show de camarote e demais coisas fantsticas do gnero, tpico sonho de f. Mas contar a idia de realmente encontr-los, de um "grande 
momento", no, isso no. era uma coisa que preferiam nem pensar. No queriam se machucar, sabe como  menina, n? Preparavam-se apenas para assistir o show e berrar 
- as msicas e "Slavabody, eu te amo!" - o mximo que suas gargantas permitissem. Nada mais.
- Vices no vo me dizer que simplesmente no sabem o que fazer quando forem apresentadas para eles! Meninas do Brasil, isso VAI acontecer! Mais cedo ou mais tarde! 
E j era para estar tudo pronto na cabea de vocs, como uma dessas musiquinhas irritantes que vocs cantarolam todo o tempo, com dilogos inteiros decorados, movimentos 
exaustivamente ensaiados, olhares praticados at altas horas da madrugada...
- Mas... - tentou defender-se Manu.
- Pera, gente! Vocs gostam ou no dos caras? So fs mesmo ou dizem que "amam de paixo" esses garotos s porque eles esto na mdia o tempo todo? No me digam 
que vocs adoram os Slavabody s porque todas as meninas do mundo so apaixonadas por eles! Achei que o amor de vocs pelo grupo era coisa de f de verdade, sabe? 
F na essncia... - discursou Babete.
Minuto de silncio. Era a primeira bronca que levavam de Babete. Uma bronca disfarada de bronquinha, v l. Mas foi um pito de primeira categoria. Para ela, ser 
f era coisa sria, no podia ser levado na brincadeira. Mas, afinal de contas, como era realmente esse amor do trio pela banda mais famosa dos ltimos anos?
- Eu sou f de verdade deles! - levantou o dedo Ritinha.
- Eu tambm! - exclamou Manu e Gabi.
- Ento comecem a pensar seriamente em o que fazer para conhec-los quando chegarmos ao Rio, porque ainda d tempo de inventar pelo menos umas sete ou oito estratgias 
de aproximao. Mas, como ainda falta muita estrada, por que no falamos sobre coisas mais, assim, femininas? Todas j deram bitoquinhas e selinhos nos bofes de 
Resende, lgico! Estou errada? - indagou Babete. -  para a viagem ficar mais animada, meninas! Conte a, galera! - disse, na maior empolgao.
Ritinha quase teve um treco. "No acredito que ainda falta mais de uma hora de viagem e ela vai comear a fazer esse tipo de pergunta, a puxar esse papo ntimo! 
Estou ficando vermelha - droga! -, lils, roxa, laranja, verde de vergonha! Algum precisa impedir essa maluca de sair perguntando coisas que me deixam sem graa!" 
Na cabea de Manu, a preocupao era parecida "Se este banco de trs tivesse um buraco que desse na China, eu me enfiaria nele. No acredito que a Babete fez esse 
tipo de pergunta para as minhas amigas! E eu ainda no quero dizer que j dei selinho porque todos s rolaram quando eu brinquei de 'Verdade ou Conseqncia'. No 
quero que meu primeiro beijo 'divulgvel' tenha sido dado por um garoto bobo, numa situao esdrxula, por causa de uma brincadeira estpida. Alis, no entendo 
os meninos! Dizem que me acham linda, mas quando se aproximam de mim ficam todos bobes, querendo se mostrar, chutando uns aos outros. Sempre precisam de um joguinho 
desses para tomar coragem. Ser que eles um dia crescem? Ai, algum pode fazer o favor de mudar de assunto?"
 - Claro que j - anunciou Gabi, sem nenhum sinal de constrangimento.
 - Eu tambm, mas foi muito sem gosto - respondeu Manu, meio sem graa. 
- E beijo de lngua? J deram? Contem tudo, contem tudo! 
Babete parecia interessada mesmo no tema.
- Eu j: no Tito, no Kleiton, no Machadinho, no Dagoberto, no Vina, no Kevin, no Careca e no Jonatan, com quem eu namorei mais tempo, uns trs, quatro dias - enumerou 
Gabi, para desespero das outras duas, que seriam as prximas a abrir a boca em questo de segundos.
-  voc treinou na mo ou no espelho?
Babete demonstrava interesse em debater o assunto, s que com Gabi, para alivio de Ritinha e Manu. Ambas eram mais reservadas do que a amiga no quesito "meninos", 
portanto no estavam nem um pouco a fim de conversar sobre isso.
- Treinei, claro. Mas no adiantou muito, no. O meu primeiro beijo de lngua foi um desastre, muito babado. Meio gosmento, sabe?
O comentrio nojento foi devidamente ignorado por Gabi e Babete, que se deram bem de cara. A prima maluquete de Manu era uma espcie de deusa, de musa inspiradora 
para Gabi, j que seu sonho sempre fora morar por um perodo em outro pas antes de completar dezoito anos. Para isso. economizava ao mximo a mesada e s ia ao 
cinema com a me, para no ter de pagar o ingresso. Mas Iara no ficava nada zangada com o desejo da filha de patrocinar seu prprio sonho. Gabi lhe dava orgulho 
agindo assim, com maturidade, em prol de um nico objetivo: sua viagem a Londres, na Inglaterra, cidade  qual nunca tinha ido, mas que adorava incondicionalmente 
- mesmo sem saber o porqu.
 Ritinha parecia em estado de graa com essa afinidade toda entre as duas, torcendo para que as beijoqueiras esquecessem que ela estava ali. Comeou, ento, a pensar 
no plano que as levava ao "grande momento" quando uma questo a tirou do srio.
- E uma boa fungada no cangote, gente? Daquela no capricho que arrepia todos os plos da nuca? Ui, ui, ui... j rolou?
- Ei, ei! Alto l! Eu sou muito nova, Babete! P, tenho s treze anos! Acho um absurdo voc fazer essas perguntas para uma menina da minha idade! At o ano passado 
eu brincava de Barbie, fique voc sabendo,  sua moderninha! - desabafou a caula do trio.
- E vai me dizer que suas Barbies nunca beijaram o Ken, namoraram bastante com ele e acabaram casando com aquele pedao de mau caminho? E tem mais, aposto que eles 
tiveram vrios filhos e foram felizes para sempre - instigou Babete.
 - Como voc sabe que minhas Barbies tm filhos? Ou melhor, tinham. Eu no brinco mais de boneca. Quer dizer, s vezes eu brinco, quando me d saudade delas. Mas 
as duas so mes solteiras, porque eu s brinco com o Ken quando a minha vizinha vai l em casa, ela  que tem um. Ento sempre que ele aparece na brincadeira, eles 
discutem  beca, porque ele vive atrasando a penso das crianas, no d a devida ateno a elas, no aparece nunca...  muito relapso esse rapaz, quer dizer boneco, 
como pai. De vez em quando eles se beijam e fazem as pazes. No quando eu estou mal-humorada. A sai de baixo, o coitado ouve pra caramba.
- Barbie me solteira... t boba. Essa eu nunca vi. Mas e a? 0 Ken atrasa a penso, mas pelo menos acompanha a educao dos filhos? - brincou Babete.
- Mas voc  insistente mesmo. Eu no gosto de falar sobre esses assuntos. Deixa a gente ter um pouquinho mais de intimidade que a eu converso sobre tudo com voc, 
t? - estrilou Ritinha, num acesso de sinceridade.
- Ai, que coisa mais fofa! Olhe, Ritoca, eu entendo totalmente o seu incmodo porque sou igualzinha a voc. Falo, falo, mas no sei se voc percebeu que eu no respondo 
nada, fico na minha o tempo todo. Desculpe se fiz voc se sentir desconfortvel, no era mesmo a minha inteno... voc precisa de quanto tempo para se abrir com 
uma pessoa? - contemporizou a prima maluquete de Malu.
- Uns oito, dez anos, n, Ritinha? - implicou Gabi.
 - Tudo isso? Pois eu s preciso de sete meses, tem p que pode ser imediatamente encurtado se os meus anjinhos aparecerem e me jogarem um p dourado, o que quer 
dizer que eu posso confiar naquela pessoa de olhos fechados - explicou Babete, como se aquela declarao fosse a coisa mais natural do mundo.
- Anjinhos? Puxa vida, meus anjos da guarda no devem gostar de mim, ento. Nunca vi nenhum... como eles esto? - perguntou Manu.
- Eu no os vejo, no! eu fecho os olhos e penso neles, que sempre aparecem quando eu mais preciso. Como, por exemplo, no dia em que eu, num acampamento no Mato 
grosso, tive de fazer acrobacias em cima de uma cadeira. E no era qualquer cadeira, era uma pregada no teto de um avio a dez mil ps de altura.
H?!
- Ah Babete! T cheirando a mentira. Fala srio! - duvidou Manu.
- Estou falando, u. Tenho fotos, vrias. Quando voltarmos para Resende me peam que eu mostro - rebateu. E continuou: - Pedi fora e coragem para conseguir fazer 
o mortal triplo e eles me deram. Moral da histria: ganhei a aposta.
- Aposta?! - chocou-se Ritinha.
- , afinal, no  todo dia que me oferecem dois jacars para hipnotizar. Dois! E isso era tudo o que eu mais queria na vida quando tinha quatorze anos. Sempre tive 
paixo por jacar. Esses admirveis rpteis eram, para mim, o que os Disco-Disco Boys so pra vocs. Vencendo essa apostinha, tive a chance de provar para o mundo 
que tudo o que os jacars precisam  de amor, de canto, de energia legal... no dos piores predadores do mundo: os homens, que s esto interessados no couro deles, 
mais nada.
A hipnose durou poucos minutos, mas eles ficaram to relaxados que pude at botar a minha mo dentro da boca do mais marrom, que apelidei de Samba. Sei que daqui 
a uns trinta anos vai me dar o maior orgulho pregar nas roupas um broche com os dizeres "Eu ajudei o Pantanal. E voc?"
- Uau! E como foi essa acrobacia em cima de um avio? Voc no morreu de medo? - perguntou Gabi.                         
- Foi faclimo. Medo nenhum,  s se concentrar. E rezar mais do que se concentrar, viu?
- Voc hipnotizou mesmo os jacars? Eles no partiram para cima de voc? - continuava Gabi, curiosa.
- Hipnotizei, claro. Jacars so super-hipnotizveis. O propsito da hipnose era, alm de acalm-los, instalar neles, com o poder da mente e da energia terrestre, 
uma espcie de radar metafsico. Atravs dele, os jacars passariam a perceber a presena do homem a quilmetros de distncia e no morreriam mais para virar bolsa, 
cinto e sapato - respondeu Babete, com a naturalidade de sempre.
As trs amigas emudeceram. Por completo. O silncio foi quebrado apenas pela pergunta de Ritinha, feita ao p do ouvido de Manu:
- Voc tem certeza de que  seguro ir para o Rio com essa... essa hipnotizadora de rpteis com um parafuso a menos?

Apesar das briguinhas, a viagem transcorria bem. No era a toa: a alegre Labareda exercia uma espcie de fascnio sobre as elas. E j que ela estava to falante 
e serelepe, Gabi teve coragem de fazer a pequena pergunta que no queria calar:
- Babete, conte para gente como foi?
- Como foi o qu?
- A noite em que voc beijou o Tefilo Bruno, o louro mais louro, o gato mais gato da televiso brasileira. E na frente de todo mundo! A cidade inteira viu. O que 
ns achamos,  que voc simplesmente tem o dom espetacular de conquistar atores famosos e lindos em festas de debutantes, ou pensa que no percebemos?! - provocou 
Gabi.                                                 
- Ah, conte a, Babete! Com detalhinhos! - implorou Manu.                              
A prima de Manu tinha ficado com quatro atores (Quatro! Nem dois, nem trs, mas quatro!), desses que fazem novelas, partidas de futebol beneficentes, bailes de debutantes 
e presena VIP em eventos. Quando ela era convidada para festas de quinze anos, todo mundo sabia que, depois de danar com duzentas meninas, o cobiado estaria atracado 
com a enigmtica e magntica Babete em questo de segundos. No demorou muito para ela parar de receber convites.
Mas Babete no ligava nada para os beijos dos mooilos televisivos, fez um discurso que dava zero importncia aos astros e  fama, principalmente  passageira,  
fama pela fama que rola solta atualmente. Eram apenas jovens de carne e osso, absolutamente iguais a todos os outros, que "fazem 'nmero 2' fedorento e soltam pum 
que nem a gente!", para usar suas doces, meigas e sutis palavras.
Tudo correu bem at o Rio, com direito a soneca para Manu e Ritinha e bate-papo animado sobre o mundo e seus ltimos acontecimentos pop-rock realmente relevantes 
entre Gabi e Babete, que decidiu acordar as outras duas bem no meio do Tnel Rebouas. Fazia questo de que vissem a Lagoa ao cair da noite. As duas abriram os olhos 
num susto, meio atordoadas com o barulho dos carros, sem entender por que cargas d'gua Babete as acordara se estavam dentro de um tnel.
- Meninas, j, j vamos dar de cara com a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartes-postais mais lindos dessa cidade. Preparem-se... agora! - anunciou Babete.    
Ao avistarem a bela paisagem, as trs, encantadas, soltaram um "Caraa!" embasbacado. Era de babar aquele espelho d'gua que refletia a luz dos prdios em volta 
e mais parecia uma enorme pintura ao ar livre.
- Olhe a gente no Rio - comentou Gabi, entrelaando as mos com as melhores amigas, boba com tanta beleza.
Estavam todas boquiabertas. At Manu, que j tinha ido ao Rio de Janeiro - um colrio mesmo para os olhos de quem vive l - algumas poucas vezes, mas no era nenhuma 
grande conhecedora da cidade. As trs concluram que tudo ali era muito mais bonito do que pela tev, definitivamente. O queixo caiu e cado permaneceu por um bom 
tempo. O cu arroxeado deixava ainda mais majestoso o Corcovado j iluminado, o Jquei, o pessoal do remo, a silhueta dos morros. Alis, ser que daria tempo de 
visitar o Cristo?
- Deve ser ainda mais bonito l de cima - pensou em voz alta Gabi.
- Carioca tinha mesmo de viver rindo, n no? Eta cidade mais linda! - suspirou Ritinha, ainda babando.
Quando chegaram a Copacabana, seus olhos soltaram fasca. Aquela praia em forma de arco merecia mesmo ser famosa no mundo inteiro. Era especial, como o mais belo 
carto-postal nunca conseguira retratar. As pessoas se exercitando no calado, os quiosques vendendo gua-de-coco, o mar calmo, as luzes dos prdios antigos da 
avenida Atlntica... 
Chegando ao Posto 6, Manu avistou o hotel Sofitel, endereo quase certo de nove entre dez celebridades quando viajam para o Rio. Sofitel, Sofitel... espera a! Era 
o lugar onde os Slavabody Disco-Disco Boys estavam hospedados!
Quando ela percebeu que passavam em frente ao hotel e posicionou-se para dividir a descoberta com as amigas, Babete diminuiu a marcha do carro e embicou na garagem 
de um prdio na esquina da Joaquim Nabuco com a avenida Atlntica. No! No era possvel! Ser que o apartamento do Davi era naquele edifcio? Praticamente dentro 
do Sofitel? Era sorte demais! Era irado demais!
- O Davi mora aqui, Babete? - perguntou Manu, ansiosa.
- Mora. Pertinho da praia, n? 
Ah, ainda tinha isso: era a alguns passos de uma das praias mais conhecidas do mundo, embora elas no estivesses to interessadas nas ondas quanto no Slack Tom Tompson, 
Alexandre Ray Bolf, Michael Lazdakson e Julius Tiger.
- Babete, o nome desse hotel aqui  Sofitel, n? - perguntou Manu, s para confirmar, o corao palpitante.
- No sei, deixa eu ver.  sim! Olha l: Sofitel! No sabe ler no, , Manuela?
- No  isso!  que... meu Deus, meninas, no  onde os meninos do Slavabody esto hospedados? A, acho que vou desmaiar... - gaguejou Manu, repleta de alegria.
Antes que ela terminasse a frase, as outras duas j davam sinais de um ataque histrico. Em dois tempos, Manu esqueceu o "desmaio" (frescura desnecessria, vamos 
combinar) e se uniu s amigas na histeria. As trs comearam a pular feito pipocas no banco de trs, o carro todo sacudia. Berravam, choravam, sorriam... quase perderam 
o controle.
- Voc no sabia, Babete? Os Slavabody Disco-Disco Boys esto no Sofitel! Co assim voc no nos avisou?  emoo demais da conta - deslumbrou-se Manu.
- Eu? E voc acha que eu me ligo nisso? Meus dias de f fantica ficaram no passado. Hoje esto s na minha memria. Mas, olha, eu acho que isso  um sinal, sabia? 
Percebam comigo: o meu melhor amigo mora em frente ao hotel do Slavabody! Sei no... esquisito... - opinou Babete, pensativa.
- Sinal? Voc acha que isso  um sinal de que ns vamos conhecer o Michael? Tocar nele? Sentir o cheiro do couro na jaqueta dele? Trocar olhares com ele? - gritou 
Gabi, referindo-se ao menos popular do grupo de danarinos, acrobatas e, ah, sim, cantores.
- No, no  nada disso. Acho que o sinal  para vocs no comerem carne vermelha de jeito nenhum durante o tempo em que ficarem aqui no Rio. De hoje a domingo, 
s peixe meninas. No mximo, um franguinho bsico - completou Babete, enquanto saa do carro para pegar a bagagem na mala, j dentro da garagem.
- Por que isso? - interessou-se Manu.
- Porque alm de a banda estar hospedada em um hotel de frente para o mar, esta rea vive lotada de pescadores, n, gente? Mar, pescadores que pescam peixinhos, 
os peixes grados do Slavabody... no entenderam a conexo?! - tentou explicar Babete.
- Claro que no, sua doidinha - respondeu Ritinha. - Mas peixe? Argh! Por que essa maldade com a gente? - estrilou. 
- Que maldade? Peixe  uma delcia e supersaudvel - meteu-se Gabi.
- No sou chegada a coisas do mar, no. Gosto mesmo  de feijo, arroz, bife e batata frita. Ou de qualquer sanduche - disse Ritinha, emburrada.
Pegaram o elevador e, quando chegaram ao nono andar Babete, que tinha a chave, abriu a porta e convidou as amigas entrar. As trs viram que o ap era muito mais 
que enorme. Era quatro vezes maior que o campo de futebol onde os meninos do colgio jogavam pelada. Com aquela vista toda nem precisava de mveis, mas o moderninho 
soube decorar muito bem o espao, que, alis, tinha cinco sutes e era incrivelmente ocupado por uma pessoa s.
Um sof laranja com almofadas de pelcia dava o tom do humor do dono. Uma poltrona molenga e aconchegante tambm compunha o ambiente. Elas no sabiam exatamente 
o que diabos fazia um diretor de fotografia, mas que dava dinheiro, ah, isso dava!
Um apartamento de frente para a praia de Copa era um dos metros quadrados mais caros do Brasil. E elas estavam ali, muito perto dos Slavabody Disco-Disco Boys, o 
que  melhor! Para tentar ganhar um aceno dos dolos, bastava pegar o elevador e atravessar a rua. Inacreditvel que as coisas estivessem dando certo nesse nvel, 
parecia at desenho animado, tudo sempre terminando bem.
Se a sorte continuasse dando esse mole para elas, no seria surpresa se o quarto do Slack fosse exatamente em frente  janela do Davi. Enquanto Babete foi l dentro 
chamar o amigo, Manu rapidamente pegou o binculo, ajustou o foco, mirou as janelas do hotel e comeou a procurar. Localizou apenas gringos que mais pareciam camares. 
Alguns rosas, outros roxos, nada de especial. Tudo bem. Na verdade, tudo timo! Reclamar nem pensar, fora de questo. Mais tarde tentaria novamente.
No conseguiu ver os dolos de pijaminha (ou de cueca), mas estava a poucos metros de distncia, bem perto deles. Se esticasse os ouvidos  noite, poderia at captar 
o ronco do Slack (tinham lido numa revista que o lder da banda roncava alto. Muito alto), seu preferido. Era um tal de "Ai, ai..." pra c, "Ai, ai..." pra l, as 
trs no cansavam de suspirar.
Davi finalmente apareceu na sala. Era moderno e descolado, vestia um jeans largos, bem escuros, tnis vermelho e uma camiseta branca. Babete apresentou as meninas.
- Esta aqui  a minha prima Manuela, est  a Gabi e est  a Ritinha. Elas vieram para o show do Slavabody Disco-Disco Boys e vo ficar aqui com a gente e com a 
sua me neste fim de semana, voc lembra, no ?
- Claro que lembro! Muito prazer. Tudo bem? Bem-vindas ao Rio. Vou direto ao assunto: Babete, talvez tenhamos um pequeno problema. A Rebecca ligou ainda h pouco 
e convidou a gente para uma festa-surpresa que ela resolveu aprontar para o Rubo na ilha da Sita em Angra.
- Ih, ele  rico mesmo. S ouvi falar em Angra na novela das oito - murmurou Ritinha, sem entender direito o que estava acontecendo.
- Shhh! - fizeram Gabi e Manu, preocupadas,  fim de escutar a conversa dos amigos.
As duas congelaram. Ser que Davi falara para o tal Rubo que elas iam  festa com eles? E ignorar o compromisso que tinham com os meninos do Slavabody? Imagine! 
Alm disso, no estavam com um pingo de vontade de ir a Angra na vspera do show mais importante de suas vidas! Davi continuou, empolgadssimo com a tal festa e 
decidido a convencer Babete a ir com ele.
- Vai uma galera boa: Magabi, Daniel, Aninha, Pedro Arthur, Amandita, Duda, Rafa, Bia, Edmarzinho, Marina e Maria Julia. E o rango vai estar timo; cachorro-quente 
de criana e as empadas da Renata, que vm fazendo tanto sucesso que ela at abriu uma empresa para vend-las para festas e eventos em todo o Brasil - disse. - estava 
s esperando por voc; A Rebecca disse que no comea a festa sem a nossa presena. Pensei em sair daqui assim que voc chegasse para no ter de dirigir muito tarde. 
Aquela estrada pra l no  das melhores, voc sabe...
Ele ignorou a presena das meninas. Descrevia a festa como um evento nico, imperdvel, Labareda transformou a dvida do trio de Resende em palavras:
- E as minhas amigas, Davi?!
- Sinceramente! Nunca imaginei que suas amigas eram trs... trs crianas! Achei que elas tivessem 16, 17 anos.
Gabi se enfezou com o comentrio e defendeu o grupo.
- Sem querer atrapalhar, quem  criana aqui? Eu no estou vendo criana nenhuma! No mesmo. Cad as crianas?
Babete tambm estava pronta para interceder por elas.
- ! Eu tambm no vejo nenhuma criana aqui! Nenhuminha. Cad? Cad? Elas so adolescentes, t? Eu no te falei que sua me vinha ao Rio para ir ao show com elas?
- Falou, mas minha me VIVE vindo ao Rio e indo a shows. No sabia que estava vez ela viria para tomar conta delas.
- V para Angra, ento Davi. Eu encontro voc l amanh, depois que a sua me chegar - sugeriu Babete.
O clima estava tenso. Davi coou o queixo, abriu um chiclete e comeou a mastig-lo, fazendo um barulho insuportvel. Parecia nervoso, agitado. Mesmo assim, tentou 
aliviar o clima.
- Trs meninas lindas, de p na sala at agora? Babete, voc no convidou nenhuma delas para se sentar? - disse tentando ser agradvel, fazendo as honras da casa 
e puxando a amiga para o corredor.
- Vocs querem alguma coisa para beber? Devem estar com sede. Querem...
- Elas esto bem, Babete, tenho certeza. Por que vocs no vo ver a vista? Olhem que linda  Copacabana  noitinha! - ele cortou a amiga para conversar com ela 
a ss. - E no cheguem muito perto da janela, hein?! No tem grade...
- Ns somos adolescentes, no idiotas. Da prxima vez no precisa falar com a gente com voz de professor de jardim de infncia, t?
Depois de ouvir o enfezadissimo fora de Gabi, Davi sorriu amarelo, entrou com Babete pelo corredor e sumiu. As trs no sabiam o que fazer, como agir, o que pensar. 
Sabiam, sim, que alguma coisa no cheirava bem. Estavam to preocupadas que nem se encantaram com a vista particular.
- No falei que no achava seguro vir para o Rio com essa doida? O amigo dela  doido tambm.  no que deu! - resmungou Ritinha.
- No fale assim ela! A Babete pode ser doidinha mas  do bem, e  isso que importa - manifestou-se Gabi. - Vem c, por que a gente no tenta escutar o que eles 
tanto conversam? Eu daria uma boa espi, tenho ouvido tmi. Deixa que eu vou, fiquem a. E no chore, Ritinha. Vai dar tudo certo, prometo! - tentou reanim-las 
determinada.
Chegou perto do corredor e, em pouco tempo notou que dava mesmo para escutar tudo encostada na parede.
- Voc est louco! No posso deix-las sozinhas, as mes vo fazer picadinho de Babete se descobrirem. Claro que eu acho que elas podem ficar sozinhas, so espertas, 
safas e tudo o mais, mas tenho certeza de que os pais delas no vo gostar nada dessa histria. E vai sobrar pra mim.
Babete no estava exatamente calma com a situao.
- Que louco, que nada! Voc mesma me falou que elas no so crianas, so adolescentes. Ento, que mal pode ter em deixar trs adolescentes uma noite e uma manh 
sozinhas? Elas no vo sair, vo ficar aqui no apartamento.e minha me deve chegar amanh por volta do meio-dia, como sempre. Vo ser poucas horas sem nenhum responsvel 
por perto.
Babete quedou-se pensativa, a mo no queixo e os olhinhos piscando incessantemente. Festas-surpresa so sempre importantes, ainda mais as da Rebecca. Quanto s meninas... 
nada de errado poderia acontecer com elas naquele apartamento, estava fazendo uma tempestade num copo d'gua.                           
- Voc tem razo, Davi. No pode haver nenhum mal em deixar trs adolescentes passarem a noite sem adultos por perto. Depois eu me acerto com os pais delas. Alm 
disso, a Rebecca  minha melhor amiga. No posso faltar a uma festa dela. Ainda mais uma festa assim, decidida s pressas, na ltima hora. Ela certamente precisa 
da minha ajuda para organizar tudo.       - Ai, que coisa boa, Babete! Vamos falar com as meninas, ento. Mas vamos dar uma sondada, agir como se no tivssemos 
decidido, para ver a reao delas. Se reagirem mal, ficarem com medo, ou coisa assim, a gente v o que faz. 
- Certo. Vamos l, ento.
 Ao perceber que o papo tinha acabado, a f de ouvido timo... saiu correndo para onde estavam Manu e Ritinha, sentadas perto da janela. Afoita e ofegante, olhou 
para as amigas e ordenou baixinho, falando rpido:
-  s concordar!  s concordar! 
- Qu? - perguntou Manu, assustada. - Concordar com o qu?
Gabi no teve tempo de explicar. Babete e Davi reapareceram do apartamento foi logo dizendo:
- Antes de tudo, desculpem a minha recepo, eu no sou sempre antiptico assim. Eu s fiquei um pouco nervos...
- Pode deixar que eu falo! Manu, voc v algum problema em ficar aqui sozinha, s por esta noite e amanh pela manh, com a Gabi e a Ritinha? Eu no vejo problema 
nenhum obviamente... Confio plenamente em vocs e sei que podem passar tranquilamente algumas horas sem adultos por perto, o problema...
- O problema so os seus pais... ser que eles vo odiar a Babete para o resto da vida? - completou Davi.
- Vocs decidem. Se quiserem, eu posso ficar aqui com vocs e me encontrar com o Davi amanh em Angra, depois que a Lal chegar.
bvio que elas adoraram a idia de passar a noite e a manh sozinhas. Que adolescentes no adoraria? Mas os pais... o que dizer a eles? Ser que eles ligavam para 
casa para dizer o que estava acontecendo? Ou ser que omitiam dos pais esse "pequeno detalhe" at domingo, para que eles no se preocupassem e arruinassem seu fim 
de semana? Afinal, uma noite  s uma noite, e uma manh passa voando.
- No sei, precisamos conversar. Vamos meninas - chamou Manu, enquanto levava as amigas para um Tet--tte na cozinha.
Entre panelas, geladeira e fogo, foi um tal de cochicha daqui, cochicha dali, e pensa daqui, pensa dali... o que fazer?
- Se ligarmos para casa, minha me me manda voltar agora- sussurrou Ritinha.
- Pois , tambm acho. O melhor a fazer  no ligar. Odeio isso, mas j estamos aqui, o show  amanh e a dona Eullia est vindo ficar com a gente. Vamos apenas 
omitir isso dos nossos pais - sugeriu Manu.
- Concordo - disse Gabi.
- Mas vamos contar para eles assim que chegarmos em casa, no ? - quis saber Ritinha.
- Claro. A j vai ter acontecido, ns vamos estar felizes por conta do show e eles vo estar to interessados em saber do nosso fim de semana quem nem vo querer 
brigar com a gente - respondeu Manu.
- Sem contar que vai ser super divertido ficar aqui sozinha com vocs. Este apartamento s para a gente? Fala srio! - exclamou Gabi.
- No sei, tenho medo... - entregou Ritinha.
- Medo de qu? A gente est aqui, boba, nada de errado vai acontecer - disse Manu, tentando tranqilizar a amiga.
Depois de mais alguns minutos de confabulao intensa, voltaram para a sala para anunciar sua deciso.
- Babete, ns podemos ficar aqui esta noite sozinhas, sim, no tem problema. S pedimos a voc para no contar para os nossos pais. No agora. Ns mesmas queremos 
contar, mas quando chegarmos em casa, no domingo - revelou Manu. - Combinado?
Sem pestanejar, Labareda respondeu:
- Beleza, combinado. Mas no deixem meu filme queimado com os seus pais. Melhor dizer que foi o Davi que insistiu para vocs ficarem sozinhas, t?
- Ah, que timo. Isso porque ela  minha amiga, hein? Imagina se no fosse! - descontraiu Davi. - Ento est decidido. Vamos?
- No saiam de casa hein? S depois que a Lal chegar, ok? - pediu Babete.
- Claro que no vamos sair, no conhecemos nada por aqui. Pode ficar tranqila - respondeu Gabi.
- Vocs prometem? - insistiu Babete.
- Prometemos - respondeu Manu pelo trio.
- Maravilha, show de bola! Olhem, a geladeira est cheia de bobagens gostosas e os ingressos j esto comprados, no , Davi? - avisou Babete.
- Claro, esto aqui comigo. E so por conta da casa.
H? O qu? Como? D pra repetir?!
Os ingressos aterrissariam em suas mos muito em breve. Gratuitamente, vale frisar isso, sim, era emoo? Quando as trs iam comear a cantarolar, bater palmas e 
saltitar pela casa, lembravam-se de que no podiam, em hiptese alguma, comemorar como de costume, porque pareciam crianas para o anfitrio copacabanense.
Quando Davi deus os ingressos para cada uma, nem percebeu que um vulco dentro delas j estava em plena erupo. Era mais novidade junta! Tentando no parecer infantis, 
quiseram agradecer o mimo - e que mimo! -  altura da alegria que sentiam, com palavras que realmente expressassem o que passava pelas suas cabeas maravilhadas.
- Caraca, Davi, caraca! Tipo assim... voc  i-ra-do! Mais irado mesmo, tipo assim, iradsimo, sabe? - desabafou Manu, sem desgrudar do ingresso, que chegou a 
ficar amassado de tanto que ela pegou, mexeu, beijou, dobrou,, cheirou, leu e releu.
-  isso a! O Davi  a cara mais manis da parada! - acrescentou Ritinha, que no resistiu e deu um beijo na barriga do anfitrio.
Barriga, sim. Fazer o qu? Ela cismou que barriga era menos infantil do que bochecha. Explica-se: Davi era alto e seria difcil alcanar seu rosto sem ficar na ponta 
dos ps, n no? Como criana era tudo o que ela no queria ser naquele momento, tascou-lhe uma bitoca no umbigo.
, faz sentido. Algum sentindo, pelo menos.
Dada a fisionomia de ponto de interrogao do melhor amigo de Babete, em relao ao beijo na barriga e tambm  nova gria. Gabi tratou de explicar:
- Manis  mineirssimo.  que mineirssimo  uma palavra muito grande, cansativa de falar, Manis  muito mais prtico - disse com os olhinhos faiscando, louca para 
voar no Davi e tascar nele um abrao, que elas chamavam de upa, pra l de apertado. - Quanto ao beijo na barriga... cara,  tudo de bom, pode acreditar. D sorte 
e atra energia positiva - inventou, j se revelando uma discpula de Babete.
Davi era mesmo a encarnao do cara bacana. Em seu apartamento de frente para a praia, as meninas brincaram de "gente grande" por uma noite e uma manh, longe de 
casa e sem adultos por perto.
- Quero que voc saiba que eu no podia estar mais arrependida por ter sido grosseira com voc - desculpou-se Gabi.
- Que  isso, linda? Acho que todo mundo ficou nervoso. Fico feliz por vocs terem entendido essa viagem de ltima hora. O Rubo  como um irmo para mim e a Rebecca 
e a Babete so grudadas.
- Ah, Davi, que eu saiba, pelo menos uns dez caras so como irmos pra voc - implicou Babete.
- Era para voc ficar do meu lado, mas tudo bem - brincou o anfitrio. - Como eu ia dizendo? Ah, o cara  meu amigo desde quando eu nem lembro que existo, sabem? 
As nossas mes eram vizinhas havia mais de uma dcada quando engravidaram. O pai dele  piloto. Quando ns ramos pirralhos, ele nos levava para passear de...
Certamente saia algum som da boca do anfitrio, mas as trs simplesmente no conseguiam ouvir. As palavras no faziam mais sentido. Estavam meio que em xtase com 
a avalanche de coisas boas que haviam acabado de ser ditas. O que ecoava nas mentes do trio de Resende era trechos como "ingressos por conta da casa" e "bobagens 
gostosas", isso sim.
Para elas, o fato de ficarem sozinhas por uma noite e uma manh em Copacabana era uma espcie de aventura. Como assim duas pessoas maiores e vacinadas estavam prestes 
a deix-las sem nenhum responsvel num lugar que no conheciam? Como assim elas ganharam os ingressos? Como assim elas estavam a alguns metros os Slavabody? E no 
Rio de Janeiro, uma das cidades mais lindas e conhecidas do mundo!
 Como assim?!
Aos poucos, as palavras voltaram a fazer sentido.
- Beijos, meninas, foi um prazer, vocs so todas muito bo-ni-ti-nhas... - despediu-se Davi, enquanto apertava com fora a bochecha de Ritinha, to feliz que at 
fingia gostar daquele afago um tanto dolorido.
Babete no queria sair sem antes instru-las.
- Vocs prometem que no vo falar com estranhos, nem aceitar coisa de estranhos? E, por favor, prometam por tudo o que  mais sagrado que no vo comer salada no 
bar aqui da esquina! Eu j achei uma mosca morta no meio da alface. A nica coisa boa que consegui pensar foi "pelo menos a coitada morreu feliz, achando que passeava 
num lindo gramado verde". No suporto estabelecimentos que matam indiscriminadamente insetos do bem com verduras e legumes apetitosos. No suporto.
Insetos do bem? Arr, vamos deixar essa parte pra l.
 - Esta aqui  a chave de casa e est e a da portaria. Por favor, no percam. A outra chave do ap est em Ub com a minha me, mas ela sempre se esquece de trazer. 
Olha, eu costumo pr o chaveiro em cima do mvel azul ao lado da porta. Faam isso tambm, ta? Vai ser mais prtico, vocs nunca vo esquecer onde ele est.
- E no comam s bobagens! Atravessem a rua depois de olhar o sinal e para os lados. Por favor, no deixem de ceder lugar aos idosos nos transportes pblicos, como 
metr e nibus e peam informaes apenas para pessoas que paream legais e engraadas, isso  muito importante. E se algum homem atacar vocs, basta chutar, com 
a maior fora, aquela parte do corpo masculino, que , digamos, mais... sensvel que as outras. Vocs sabem o que eu quero dizer.  tiro e queda, ou melhor, chute 
e queda.
- Babete! Por favor! Elas no vo precisar fazer nada disso! Minha me vai estar com elas! Vamos? - cortou Davi.
- Caramba! Ainda bem que voc falou em me. Preciso ligar para as mes das gurias para dizer que chegamos bem. Todas me pediram para telefonar assim que chegssemos 
- lembrou-se Babete.
Iara, Maria Clara e Ceclia conversaram com Babete e com suas filhotas - Gabi, Manu e Ritinha, respectivamente -, de quem j estavam "mortas de saudades" (normal, 
draminha de me). Perguntaram como foi a viagem, se estava frio, se elas tinham se alimentado, aquelas boas e velhas questes maternas. E fizeram as filhas prometerem 
que ligariam no dia seguinte. Antes de ir para o show e quando chegassem em casa, para contar como foi. Promessa feita, "omisso" cumprida, ligaes terminadas. 
Babete estava livre para partir.
- Beijos, meninas! Cuidem-se! E no se esqueam: tornem-se as melhores amigas dos seguranas do hotel e do pessoal brasileiro da equipe do Slavabody, eles podem 
ser uma boa fonte. Dica: sempre chamem todos pelos nomes. Eles adoram. Se no tiverem sucesso partam para o plano B, o de armar um desmaio na porta do Hotel, que 
 praticamente infalvel. Se continuar no dando certo, desmaiem no show, como eu fiz no concerto dos Rolling Stones em Amsterd. Se vocs estiverem perto do palco, 
ento  batata!  s fingir que a multido est espremendo e sufocando vocs. Eles vo botar as trs na rea reservada dos seguranas, a poucos passos dos msicos.
- Pertinho do Michael, jura? - pensou em voz alta Gabi.
- Deixa eu ver se tenho mais alguma coisa para alertar vocs... ah, sim! Por favor, se forem saltar de asa-delta ou pra-quedas escolham instrutores de cabelo escuro, 
que so bem mais compenetrados no trabalho e costumam ser os melhores fotgrafos dos ares.
- Vamos, Babete! Elas entenderam tudo direitinho, no , meninas?
- Claro. S gostaria de um minuto de sua ateno. Ns trs somos bem maduras, apesar da pouca idade. Gostaria de agradecer-lhe em nome de todas, Davi. Pelo apartamento, 
pelos ingressos, por confiar em ns. E no percam tempo se preocupando. Divirtam-se - agradeceu Manu, tentando engrossar a voz e falar difcil.
- Que linda! Fiquem tranqilas, estou indo para Angra convencido de que a nica criana aqui sou eu, por ter achado que vocs eram crianas. Tchau e at domingo, 
ento! Juzo, hein?
- Antes de ir, preciso dividir com vocs uma ltima coisa, que aprendi num workshop na ndia. Quando brigarem ou discutirem, em vez de irem cada uma para um canto, 
emburradas, se abracem forte. Mesmo que sem vontade. Mesmo que vocs queiram voar no pescoo uma da outra e sair dando tabefes. Mesmo que estejam com aquele dio 
de ranger os dentes. A fiquem abraadas em silncio at a raiva se dissipar e o amor voltar. D sempre certo. Pode demorar um pouquinho, mas d.
- Que fofo! - exclamou Gabi.
O conselho foi bonitinho mesmo, mas  bom que fique claro: nenhuma das trs achava que poderiam acontecer brigas srias. Eram amigas h muito tempo. Muito amigas.
-  maravilhosa essa Babete, no , gente? Mas fala pelos cotovelos! Caramba! Vamos, tagarela?
- Vamos. Mas olhem, se nadinha do que eu fale der certo, j sabem  s apelas para os anjinhos e gnominhos da guarda que eles ajudam vocs. Boa sorte! Beijo! 
- despediu-se Babete, enquanto era carinhosamente puxada para fora do apartamento por Davi.
Gnominhos? Arr.
Seria preciso um batalho de gnomos e anjinhos para conter tanta alegria quente que subia pelo peito delas. Depois que a porta bateu, as trs se entreolharam com 
um sorriso enorme no rosto e, antes mesmo de correrem para o quarto do Davi para se jogar na imensa cama de casal com um pote de sorvete na mo e o controle da TV 
na outra, no resistiram e explodiram em gestos, pulos e poses vitoriosas.
A empolgao,  claro, terminou em msica, ou melhor, com os grito:
- Ei, ei, ei, o Davi  o nosso rei! E variaes no menos chatas: - Esso, Esso, Esso, o Davi comprou ingresso!; lgo, igo, igo, o Davi  nosso amigo!; Ara, ara, ara. 
Ele foi com a nossa cara!; Or, or, or, o Davi  o melhor!; Ana, Ana, Ana, estamos sozinhas em Copacabana!
Ouviram uma batida na porta. Gelaram. Pararam na hora a cantoria para a Gabi ir ver quem era. Nem precisou olhar no olho mgico, pois as trs logo reconheceram a 
voz que vinha do outro lado e dizia algo mais ou menos assim:
- Meniiinas! Ih, ih, ih, ns ainda estamos aqui!, porque , , , no chegou o elevador! - E ainda: - Orta, orta, orta, d pra ouvir tudo atravs da porta!
... ico, ico, ico, as trs pagaram mico.
Logo elas, que queriam tanto se fingir de adultas, maduras e independentes. Inacreditvel. Mas sabiam que o pior j havia passado, e que aquele sonho bom estava 
s comeando.
Acabaram rolando de rir das musiquinhas de Babete e, quando perceberam, estavam grudadas, unidas por um abrao apertado daqueles. Abrao, no, um upa. Upa de melhor 
amiga para melhor amiga, de irm para irm, de menina feliz para menina feliz.
Depois de baixar a poeira de tanta satisfao, Ritinha correu para a geladeira para checar as tais "bobagens gostosas", Manu voou para a janela para ver a movimentao 
na estrada principal do Sofitel e Gabi foi logo procurar onde metera o CD do Slavabody, para que elas pudessem dar a ltima treinada nas coreografias, ver se as 
letras estavam todas devidamente na ponta da lngua, essas coisas. Ouviram at de madrugada, s alturas. Cantando, danando, rindo, fazendo baguna. Sonhando acordadas 
naquele apartamento que era s delas at o dia seguinte.
Acabaram a comemorao por volta das duas da manh, exaustas, na cama king size de Davi. Dormiram de roupa mesmo, com pipoca espalhada por todo canto. Continuaram 
a sorrir enquanto dormiam. Vai ver sonhavam com o show. Ou com os tais gnominhos, quem sabe? Ou com Slack Tom Tompson, Alexander Ray Bolf, Julius Tiger e Michael 
Lazdakson, o que  bem mais provvel.
E pensar que aquele era apenas o comecinho do fim de semana mais aguardado de suas vidas.

A cidade maravilhosa
Ao nascer do sol, Manu, que tinha o sono mais leve das trs, acordou com a claridade que entrava pela janela - na empolgao da noite anterior, as meninas esqueceram 
a cortina aberta. Quando levantou-se para fech-la, Gabi acordou.
- Que foi?
- Vou fechar a cortina para dormir mais um pouco. Ainda so seis da manh.
- Que fechar o qu! Deixa eu ver o sol nascer! - disse Gabi enquanto se levantava correndo.
- Rpido, ento, para no acordar a Ritinha! Ela  um doce, mas vira a pessoa mais grossa e chata do mundo quando  acordada, voc sabe.
Gabi ignorou solenemente o que Manu acabara de dizer e soltou, boquiaberta:
- Ai, que coisa linda! Vamos abrir a janela s um pouquinho para eu sentir o cheiro do mar? Por favor! 
- Depois voc sente, cuidado com a Ritinha!
- Depois no tem graa, o dia no vai estar amanhecendo como agora. Deixa de ser mala, Manu, se a Ritinha acordar, a gente canta para ela dormir. Alm disso, amanh 
eu provavelmente dormirei at tarde, j que estarei cansada por causa do show e no vou ter outra oportunidade dessas to cedo. Ande, deixe eu abrir.
- T bom, t bom - cedeu Manu, para logo mudar de assunto - Gabi, voc tem noo de que o show  hoje? Hoje...
Ritinha comeou a se mexer na cama.                               
- Eu sei, foi isso o que eu acabei de dizer. Com licena, vou abrir, quero sentir a maresia - irritou-se Gabi, enquanto fazia fora para abrir a janela.         
- Ai, sua chata, ande logo, ento, antes que ela acorde comece a dar patada na gente.            
 - Meu Deus, muito obrigada por esse momento! Manu.  sente esse cheiro delicioso de mar! Que maravilha viver! Decidi: vou  praia.                               
Praia? Como assim? No ficou combinado que elas no sairiam de casa at a chegada da me de Davi?                                
- Enlouqueceu? Lembra o que prometemos para a Babete? A gente s sai depois que a dona Eullia estiver aqui para ir com a gente.
- Deixe de ser desmancha-prazeres, Manu! Que mal tem eu pegar o elevador, descer e atravessar a rua? A preocupao da Babete era que a gente sasse para longe e 
no para a praia, que  quase dentro do apartamento - rebateu Gabi.                                  
Ritinha mexeu-se mais uma vez na cama. E aquele comeo de discusso matinal no ia nada bem. Desce, no desce, desce, no desce...     
- Eu se fosse voc no iria. Vai que acontece alguma coisa.          
- Que coisa? Deixe de ser cricri! Vou botar meu biquni.             
- Sabe o que eu acho? Que  uma grande burrice. Mais tarde voc vai estar cansada por ter madrugado e no vai aproveitar o show. 
- Que cansada que nada! At parece que no me conhece. Minha pilha no acaba nunca! E voc acha que tem alguma chance de eu no aproveitar o show? 
- Quem  que est berrando desse jeito, hein? - resmungou Ritinha da cama.
- Ningum no  s a Gabi, que est se trocando para ir  praia - Manu tirou o corpo fora.
- Eu sou quero ver o nascer do sol. A Manu que est implicando - revidou Gabi na lata. 
- No acredito que vocs acordaram para ver o nascer do sol! Isso tem todo dia l em Resende!     
- No bonito como aqui, lesada! - alfinetou Gabi.        
- Lesada  quem me chama! D para vocs fecharem a janela agora antes que eu perca o sono? Que meninas chatas! Por que vocs no vo ver o dia amanhecer l na sala? 
Me deixem dormir! - reclamou Ritinha mais uma vez.
- Manu, voc trouxe aquela sua canga cor-de-rosa?  que quero improvisar um vestido juntando a minha canga amarela com a sua rosinha. Vai ficar show - quis saber 
Gabi, ignorando solenemente o comentrio mal-humorado da amiga.                          I
- Shhhhhhhhh! - fez Ritinha.
- E voc vai  praia de vestido improvisado? Acho que as carioca no vo  praia assim, no. Acho que a moda agora  um shortinho e uma camiseta, tudo muito discreto. 
No viu na novela?
- Ssssshhhhhhhhh! Cala a boca a! Poxa, gente! - resmunga Ritinha novamente.
- Eu no ligo a mnima para o que diz a moda e para o que os outros pensam ou deixam de pensar de mim. No estou nem ai se elas vo de shortinho. Eu fao a minha 
moda e na minha moda vestido improvisado  tudo de bom. Mas se voc no quer me emprestar a canga, no precisa. Eu pego a da Ritinha.
- A minha no, eu s trouxe uma. Que folga! Pega da Manu, que trouxe sete no sei por que cargas d'gua, j que ns viemos para ficar s trs dias. Trs dias!   
 - A! No falei que a Ritinha ia virar bicho? Voc  muito amiga mesmo, Gabi! Vai para a praia e me deixa sozinha aqui com essa verso do mal da Bela Adormecida. 
Pode deixar que me lembrarei disso quando voc precisar de mim.                            
- A Ritinha  brava, mas no morde. No , Ritinha? Vou tomar caf.                                                                             
- Por que vocs continuam falando alto? Por qu? - reclamou a caula do grupo, enquanto pegava, sonolenta, o relgio para ver a hora - So seis e dez da matina e 
vocs j esto infernizando meus ouvidos! Eu quero dormir para poder aproveitar o show! D para ter um pouquinho de respeito? Era s o que faltava, acordar cedo 
no dia do show! Que burrice!
- Burrice, no! Eu gosto de acordar cedo,  diferente -       I defendeu-se Gabi.
- Num sbado, no dia do show que voc tanto espera? No acredito que eu, a mais nova, sou a mais inteligente do grupo.
- A Bela, quer dizer, A Mala Adormecida chamou a gente de burra, olhe a, Manu!
- Posso ser mal-humorada de manh, mas pelo menos meus pais no so separados.                                                       
- O que voc est querendo dizer? Ns somos uma famlia muito feliz, t?
- , claro. E o Super-Homem est sobrevoando o nosso prdio agorinha, olhe!
- Ritinha, pega leve. J fechei a cortina; volte a dormir, seno daqui a pouco sou eu quem vai perder o sono... - implorou Manu.
- E voc acha que eu estou pegando pesado? Ela me chamou de Mala Adormecida! 
- Arr. Gente, no estou nem um pouco a fim de brigar. Vamos parar com isso? Desculpe se eu acordei voc, Ritinha. Vou para a cozinha tomar caf - cortou Gabi.
Que clima horrvel logo nas primeiras horas do dia D!
- Tipo assim, desculpe tambm, cara. Boa-noite - disse Manu, enquanto se cobria novamente e se ajeitava com o travesseiro.
- Boa-noite? Agora que vocs me acordaram com essa falao, acham que eu vou conseguir dormir? Vou ver se eu como alguma coisa l com a Gabi - chiou Ritinha, j 
se levantando para escovar os dentes.
- E vai me deixar aqui sozinha?
- U, no toma caf da manh quem no quer.
- Eu no quero acordar agora. E como voc fica estpida de manh, coitado do seu futuro marido!
- Estpida? Tenho a maior dificuldade para dormir e, pior, vocs sabem! Mas mesmo assim ficaram tagarelando futilidades praticamente do meu lado. Me acordaram, bvio! 
Agora vou tomar caf, depois volto para botar meu biquni.
- Ah, Ritinha, voc tambm?! No! A gente prometeu que no ia sair!
-Mas a praia  praticamente a continuao do ap, Manu, S descer e atravessar a rua.
- Acho que eu sou a nica responsvel de ns trs, viu? Eu fico mal de no cumprir a promessa que fiz para a Babete.
- Eu no prometi nada.
- Mas eu prometi! E por ns trs!
- Ento. t. Beleza. No precisamos brigar por isso. Daqui a pouco a gente vem aqui ver se voc quer ir  praia tambm - contemporizou Ritinha, antes de se dirigir 
 cozinha.                            
Tudo em paz novamente. Amizade das boas  assim. As amigas brigam e dois segundos depois fazem as pazes sem nem lembrar o motivo da briga.
Manu achava uma irresponsabilidade, mas entendeu a vontade das amigas de ir  praia. Sabia que era a primeira vez das duas no Rio e sabia, principalmente, que um 
mar assim, to pertinho,  praticamente irresistvel, ainda mais para meninas de Resende. Depois de muito pensar, concluiu que no seria o fim do mundo. Difcil 
imaginar que Babete ficaria zangada ou se sentiria trada se soubesse que elas foram dar um mergulho. Uma amante da natureza como a Babete? ", claro que ela vai 
entender" bater o martelo, antes de tentar dar uma segunda chance ao sono.
Rolava de um lado para o outro na cama enorme do Davi. Ritinha, por sua vez, voltou para o quarto meio sonolenta depois do caf, com vontade de fazer mais uma naninha 
gostosa. Deitou-se, fechou os olhos e nada. Tentaram por algum tempo, mas no conseguiram dormir de novo.
Manu e Ritinha sabiam que Gabi se divertia naquele momento na praia, sozinha, e no gostavam nada de se sentirem excludas da diverso. No final das contas, ela 
seria a que aproveitou o Rio por mais horas, j estaria com uma imensa vantagem sobre as duas. Sem contar que sabiam que a "amante do sol" se gabaria disso para 
todo o sempre, enchendo seus ouvidos.
Enquanto isso, Gabi - em xtase naquela praia de mar mansinho, enfeitado por redes e pequenos barcos de pesca - aproveitava sua prpria companhia. Gostava de ficar 
sozinha, meditando. Era cedo, a orla estava pouco movimentada. Grande parte de Copa ainda dormia. Mas ela nunca estivera to acordada. No queria nem piscar para 
no perder nenhum segundo daquele momento incrvel.                                                                             
Sentada na areia, bem pertinho do mar, pensava longe. Imaginou como seria o dia do Slavabody, se eles ainda estavam dormindo, o que eles tomariam de caf da manh, 
se eles planejavam um bis para o show. Aquela manh parecia mgica. Cenogrfica. E a menina do Par com alma resendense era parte daquele cenrio.
Sonhou de olhos abertos com Michael Lazdakson. Ele vinha na sua direo, com uma cala de pijama bem larga e nada por cima, cabelos longos e loiros ao vento e brilho 
no olhar fascinante. O artista queria sentir a temperatura do mar e olhar Copacabana com calma, sem ser reconhecido. No demorou para avistar Gabi, sentadinha bem 
na beira.
Olhou para ele, que sorriu. Ela sorriu de volta e ele se aproximou, prendendo os longos e brilhantes cabelos loiros para fazer charme. Ele estendeu o brao para 
tocar seu rosto, disse que sua pele era linda, abaixou-se para sentar ao lado dela, perguntou seu nome, tocou levemente seu brao e...
- No acredito que voc est aqui fazendo xixi! Acha que sentar perto do mar disfara? Sua sorte  que no tem ningum vendo.
No, no era Michael. A mo em seu ombro era feminina e a voz, bem familiar. No precisou nem olhar.
- Que susto, Ritinha! Claro que no! Que horrvel o que voc acabou de dizer! Que nojento! Que troglodita! Que chata!
 lih... as coisas no corriam s mil maravilhas, como devia ser. Ser que elas estavam nervosas por conta da ansiedade para chegar logo a hora do show?
- No vou ficar aqui se vocs forem continuar se espetando. No lembram o que a Babete falou? No pode ter clima ruim entre a gente, seno a viagem vai ser um coc! 
- observou, Manu
- Uouououou! Eieieeeeeiii! Alooouuu! Eu estou tentando meditar, me transportar para outro lugar, ir ao encontro do azul e vocs, em menos de dois minutos que esto 
aqui, taparam o meu sol e disseram palavras de energia pssima, com "coc" e "xixi"! Assim no d! Como  que quer que eu no fique nervosa, hein?
- Acho que voc est andando muito com a Babete - implicou Ritinha.
- E qual ? Voc no estava meditando coisa nenhuma, eu conheo voc de outros carnavais. Aposto que estava pensando em encontrar, assim, por acaso, os meninos do 
Slavabody. Confesse. Sua fisionomia parecia muito alegrinha para quem apenas tentava "encontrar o azul", seja l o que isso signifique - debochou Manu.
Gabi ficou meio sem graa. Como Manuela sabia? Isso que d crescer junto, estudar na mesma escola, morar perto e conviver diariamente h dez anos. Ficou vermelha 
e com isso admitiu que a Manu estava certa. As trs pediram desculpas uma para a outra e foram para longe do mar, para que pudessem "se concentrar  melhor". Precisavam 
de um plano. Na noite passada preferiram ficar de barriga para cima, fazendo baguna, ensaiando as coreografias e as msicas e mais o que dava na telha, a bolar 
os tais planos de que Babete tanto falava.         
- Vamos parar de nos separar! Vamos fazer tudo juntas, isso  que  bom! - sugeriu Ritinha.
- T bem, gente, j me desculpei. S no queria forar vocs a fazer uma coisa que s eu queria. E vocs sabem que eu gosto de ficar sozinha. Nunca pensei que isso 
fosse causar um problema entre a gente.                                                                                     
- Meninas, viajar junto  muito difcil,  o que os meus pais vivem dizendo - alertou Manu.                                    
- Quando meus pais comearam a falar isso, no demorou um ano para eles se separarem - comentou Gabi.       
- Mas no  o caso dos meus pais, que falam isso desde que eu tenho dois anos. O que eu quis dizer  que a gente no pode ficar brigando. Todo mundo tem defeito, 
mas a maioria das pessoas disfara esses defeitos e, muitas vezes, eles s so descobertos durante uma viagem. E est fora dos meus planos descobrir que  chato 
viajar com vocs. Eu penso em viajar com as minhas melhores amigas at ficar bem velhinha. Vamos botar uma coisa na cabea:  normal dar umas patadas de vez em quando 
uma na outra, mas no podemos exagerar.
O que Manu acabara de dizer era a mais pura verdade.  claro que estresses aconteceriam, mas climas e brigonas estavam totalmente fora de questo. No podiam mais 
acontecer e pronto.
- Claro, mas agora voc me deixou culpada por ter criado o primeiro estresse da viagem hoje de manh - choramingou Gabi.
- Nada disso, o primeiro estresse foi meu, que acordei mais de mau humor do que nunca - admitiu Ritinha.
- Pirou? E eu, ento? Nunca fui to chata quanto ontem, cruz credo! Quis ouvir Almost Brothers umas 30 vezes seguidas e vocs loucas para treinar as letras das outras 
msicas. Mas eu aaaaamo essa, vocs sabem - desabafou Manu.
- , tinha me esquecido disso. Foi horrvel mesmo - implicou
Ritinha.
- Foi in-su-por-t-vel. Voc ganhou, Manu! Foi a responsvel pela coisa mais chata da viagem at agora! - disse Gabi, rindo.
As trs acabaram gargalhando. Afinal, no era todo dia que competiam para ver quem era a mais inconveniente, mimada e estressada do grupo.                       
- Bem, agora que a poeira baixou, vamos por partes. Pense no seguinte: a gente fica um pouco na praia, depois sobe, toma banho, se arruma e fica esperado a dona 
Eullia. J que ela  to legal, podamos pensar numa estratgia de aproximao do Slavabody que inclusse ela.                               
O papo continuou, mas em pouco tempo pensar em "estratgias de aproximao" ficou chato, chato, chato. Afinal, estavam na praia de Copacabana, loucas para aproveitar 
o sal, o sol e o azul do cu. No resistiram e correram para o mar, que parecia uma piscina, de to manso. Fizeram a maior baguna, nadaram, correram, danaram, 
cantaram, gritaram, rolaram na areia, jogaram bolas de areia molhada umas nas outras... tudo bem, no tinha ningum vendo aquele mico mesmo.                     
Quando cansaram, foram para as cangas. Pra ficar mais confortvel, fizeram suas bolsas de travesseiro, Manu olhou no relgio e viu que dava tempo para descansar 
mais um pouco. Ainda eram oito e meia da manh. Olharam para o hotel, viram que tudo continuava calmo como antes. Reforaram o protetor solar recostaram a cabea, 
fecharam os olhos e relaxaram sob a luz do sol.
Acabaram pegando no sono. Tiraram um cochilo gostoso daqueles cheio de preguia. At babaram. Dormiram felizes, com o mar pertinho, o barulho das ondas, aquela praia 
linda praticamente inteira para elas. Perderam a noo do tempo. 
Gabi acordou com uma algazarra esquisita.
- Gente, olhe ll
Ritinha e Manu se levantaram num sobressalto. Direcionaram o olhar para o hotel e viram o que no queriam: dezenas de fs do Slavabody haviam se aboletado de mala, 
cuia, mochila e cantil na porta do SofiteL Enquanto elas dormiam na praia, uma horda de tietes esperneava e dava chilique para chamar a ateno dos hospedes famosos. 
Arrumaram tudo e voaram em direo ao hotel. Ainda era cedo, faltavam algumas horas para a chegada de dona Eullia.
Quando chegaram perto  que deu para ver que a coisa era grande. Uma enorme grade em formato de ziguezague separava Slack Tom Tompson, Alexander Ray Boff, Michael 
Lazdakson e o fanatismo das meninas. S hspedes e profissionais credenciados da imprensa eram autorizados a passar pelo cerco. 
Precisavam urgentemente botar um plano em ao.
Mas o que fazer? Ainda no tinham conseguido pensar com calma? A grande dvida era como, em pouco mais de uma hora, a porta principal do hotel passara do vazio absoluto 
para ponto de encontro de fs histricas de todas as idades com faixas, cartazes, flores, presentes, cartas quilomtricas, mquinas fotogrficas, bloquinhos de autgrafos. 
Todas tinham exatamente o mesmo sonho de Manu, Gabi e Ritinha.
S que haviam chegado primeiro.
O trio de amigas tinha de pensar rpido, a cada minuto que passava mais gente chegava e se instalava na porta do hotel.           
- Por que uma de ns no finge um desmaio? Lembra que a Babete falou que  tiro e queda? - sugeriu Manu.
- Eu fao! Eu fao! Eu, eu, eu, eu, eu! - disparou Gabi, pulando com o brao direito erguido.
- Ai, graas a Deus voc quer fazer isso, eu no pagaria esse mico por dinheiro nenhum! - comentou Ritinha.
Manu e Gabi no entenderam aquele ataque sbito de sinceridade. Como assim "mico"? Estavam ali com o nico objetivo de tentar conhecer de perto o Slavabody, os meninos 
mais lindos e disco-disco do planeta. E para conseguir isso nada era mico.
- Ops! No acredito que pensei em voz alta de novo. Droga! Vive acontecendo isso comigo ultimamente, no sei por qu - explicou Ritinha, com um sorriso amarelo, 
ao perceber a cara de bunda das duas amigas. 
 - Mico?  mico, sim, e da? Eu e a Gabi no temos vergonha de nada e queremos muito ver de perto os nossos cantores preferidos. O que h de mal nisso?          
- Eu sei, mas  que eu nunca ia conseguir fingir um desmaio. Nunca fiz teatro na vida...                                     
- Pois eu fao teatro no colgio e sei fingir muito bem, t? Vamos? - desafiou Gabi.
As duas fizeram que sim com a cabea e seguiram a corajosa do grupo. Desviaram da pequena multido que se formava e foram em direo  porta da frente, caminhando 
ao lado da grade. Gabi j fazendo caras e bocas de quem est prestes a desmaiar. No sem antes dar as ltimas dicas para as amigas:    
- Vocs podem falar que esto desconfiadas de uma insolao, j que o sol est forte e eu, burramente, no trouxe protetor solar.
- Mas voc trouxe! - corrigiu Ritinha.
- Claro que sim, mas  para falar que eu no trouxe! Digam tambm que ontem passamos o dia inteiro na praia e hoje fomos de novo, talvez por isso eu esteja to mal.
- Nem sei o que  insolao, fique voc sabendo - confessou Ritinha.
- Shhh! E voc quer que a gente diga isso para quem? - perguntou Manu.
- Far o segurana que vai socorrer a gente, u! E insolao acontece quando a gente fica muito tempo sob o sol e acaba passando mal, com enjo, essas coisas. Pelo 
menos foi o que eu li numa revista - esclareceu Gabi.
Tudo entendido, seguiram em frente, com a cara e um naco de coragem. Foram meio que amparando a amiga, que fazia de tudo para parecer tonta, enjoada e com sol demais 
no rosto.
Chegaram prximo  porta principal do hotel. Gabi se jogou no cho. Manu e Ritinha gritaram, pedindo ajuda. Imediatamente um bando de pessoas estava  volta da "desmaiada", 
que se contorcia nas pedras portuguesas da calada.                   
- Menos, menos, por favor. Isso  um desmaio, no um ataque epilptico - sussurrou Manu ao p do ouvido da exagerada. 
Gabi atendeu a amiga. Ficou apenas imvel enquanto era alvo de olhares curiosos. Tanta gente  volta dificultou que o "teatro" fosse visto pelas nicas pessoas que 
realmente importavam: os seguranas. Ritinha percebeu e tratou logo de dispersar a multido.
- Olha l, gente, aquele pelado na janela no  o SlackTompson?                                            
Enquanto o povo dava gritinhos histricos e corria para tentar avisar o sarado, elas arrastaram Gabi pelos braos para mais perto dos seguranas. Arrastaram, isso 
mesmo, voc leu certo. Discretinhas, n?
Quando chegaram perto de suas "vtimas" continuaram a encenao. Voltaram a despertar a ateno de algumas tietes ao redor e, enfim, de um segurana bem parrudo, 
que se aproximou e foi logo perguntando:
- S quero saber uma coisa: onde esto os pais de vocs?           
- Em casa.
- Em casa? Sei... ento vamos tomar o pulso e tirar o tnis dela para ver a gravidade do problema.
Nenhuma das trs entendeu nada. Tirar o tnis?
- Ser que acham que ela desmaiou por causa do prprio chul? - sussurrou Ritinha no ouvido de Manu.
- Shhh!             
Curiosa como ela s, Gabi estava louca para abrir os olhos, para se mexer, para saber o que acontecia  sua volta naquele momento, mas no podia.
- O pulso est ok, agora vamos tirar o tnis. Ser que a nossa dodi sente isso? - perguntou ele, enquanto comeava a fazer ccegas no p de Gabi.
Nesse momento caiu a ficha: Gabi teria de se controlar muito para no mexer o p e nenhuma outra parte do corpo.
- Acho que ela no est sentindo nada... e se eu fizer mais rpido?
Gabi estava enlouquecida, morrendo de ccegas, mas no podia ceder. Permaneceu imvel por mais alguns segundos, mas o segurana deu um golpe baixo.  
- E se eu fizer com uma pena, bem de leve? - perguntou, enquanto retirava do bolso uma pequena e delicada peninha branca, pronto para faz-la deslizar pelo p nmero 
trina e quatro de Gabi.                                                                
Comeou. De baixo para cima, bem devagar.
-Ai, a, no, pra, pra, pra, pra, pra, pra, pra, por favor! - implorou Gabi, s gargalhadas.                                   
A risada cosquenta logo se fechou para dar lugar a uma de tacho, muito sem graa, assim que ela constatou o inevitvel: o segurana no tinha gostado nada do teatrinho. 
- Meus parabns, mocinha. A ltima se entregou assim que eu tirei o sapato dela. Voc resistiu bravamente. 
-A ltima? - sucumbiu Gabi  curiosidade.
- , s hoje, voc  a quinta que finge desmaio. Tem sido assim desde que esses meninos chegaram. Sem contar com os inmeros trotes que recebemos de meninas que 
pedem para amigos mais velhos ligarem e falarem ingls. A eles se fazem de empresrios interessados numa conversa de trabalho com a banda.  mole? Essas jovens 
no tm mais o que inventar...
- E a? D certo? Vocs transferem para o quarto deles?
- As primeiras ligaes os recepcionistas at passaram, mas depois do dcimo "empresrio" telefonar em uma hora, ns comeamos a achar estranho. Ento fomos conferir 
com os msicos, que so muito simpticos. Nem reclamaram com o hotel. Pelo contrrio, pediram desculpas pelos trotes, acredita? Os gringos so todos muito humildes, 
sabe? Tudo gente boa.
- Ai, meu Deus! Qual deles  o mais legal? O Michael  o mais simptico, n? Manu, Ritinha, vocs ouviram?                     
O segurana sorriu, mas deu meia-volta e afastou-se a passos largos e sem mais conversa, tinha muito trabalho a fazer.
As amigas no estavam exatamente felizes com o desempenho de Gabi, mas coitada da menina! No tinha condio de continuar com o fingimento. Ela nunca sentira tanta 
vontade de gargalhar na vida. O cara era muito, muito bom de ccegas. Praticamente um profissional, verdade seja dita. Ccegas deviam fazer parte do seu treinamento. 
Ele tinha at uma peninha para isso!
 Saram sob os olhares recriminadores dos adultos e de admirao das adolescentes. Manu chegou a ouvir, enquanto Gabi se levantava, uma senhora dizer "Ainda bem 
que as mes dessas pequenas no esto com elas, para no ver essa vergonha, esse vexame". Que lstima. Sentiram vontade de enforcar a Babete naquele momento. Que 
conselho furado!
Uma menina que devia ter seus quinze, dezesseis anos soltou algo do tipo:
- No acredito que vocs tentaram o ultrapassado golpe do desmaio. Que mico! De onde vocs so, hein? De que planeta?
- De Resende - respondeu baixinho Manu.
- Ah, bom! Agora entendi! A minha me usou essa ttica pela ltima vez num show do Jerry Adriani, dcadas atrs. Vocs esto desatualizadas, no?
- Quem deu essa dica para gente foi a Babete Labareda, a maior f fantica de todos os tempos, fique voc sabendo! - estilou Gabi.
- Uau! E vocs realmente confiam numa pessoa com esse nome? Ela  de Resende tambm? - desdenhou a menina.
- Vamos embora, gente. Essa garota est  com inveja por no ter tido coragem de tentar! - ordenou Manu.
- Ai, que meda, que meda! Como estou magoada! Ai, au, ai! - ironizou a garota.
A "atriz" do grupo era a menos chateada. Estava triste por no ter convencido o segurana, mas feliz por ter convencido algumas pessoas, pelo menos. Manu e Ritinha, 
por outro lado, eram o retrato da desiluso. Sua primeira tentativa de chegar perto dos Slavabody Disco-Disco Boys tinha dado totalmente errado e isso no era nada 
animador. Resolveram voltar para o ap do Davi e esperar a dona Eullia. 
A praia agora j estava cheia de vida, com ambulantes gritando seus preges engraados, cabecinhas brancas se divertindo com peteca, rapazes musculosos jogando futevlei, 
mulheres com biqunis mais comportados do que elas imaginavam, crianas fofas em suas piscinas inflveis, gente de todas as cores, tipos e etnias. Aquela praia, 
alm de linda e famosa, era para l de democrtica. Ricos e pobres formavam uma deliciosa mistura naquela imensido de areia, naquela cidade pela qual elas estavam 
caidinhas de paixo.
Ao pisarem no apartamento, ouviram o telefone tocar. Ritinha correu para atender.
- Oi, me. Tudo certo aqui, e por a? A Babete? Foi comprar po, leite, tudo fresquinho para o nosso caf da manh. Acordamos tarde. Dona Eullia? Ah, ela ainda 
no chegou, mas deve estar chegando. Ento t, me, te amo. Est tudo timo. Pode deixar que quando eu voltar do show ligo pra voc. Beijo! Ritinha ficou apreensiva. 
Ser que sua me percebera que Babete no estava l?  
- Claro que no! Voc fez o que tinha de fazer, seno ela ia ficar preocupada  toa. Alm do mais, a culpa no  sua. A Babete que quis ir para Angra e deixou a 
gente sozinha. Vou aproveitar e ar logo para a minha me - resolveu Manu.  Ela e Gabi telefonaram para casa e tambm omitiram dos pais fato de estarem sozinhas. 
O combinado era s contar em Resende. Juraram que ligariam de novo depois do show, quando chegassem ao apartamento do Davi. As mes queriam saber detalhes e dormir 
tranqilas. Depois de conversarem com as famlias, Gabi observou:
- Vem c, essa luzinha vermelha aqui na secretria j estava piscando quando a gente saiu?
- Acho que no. deve ser recado novo. Vamos ouvir, pode ser a Babete ou a dona Eullia - sugeriu Manu.
- E se for para o Davi? No vai ser falta de educao?
- Esta secretria  igual  da minha casa, a mensagem no vai ser apagada se a gente ouvir. Deixe comigo que eu entendo disso - disse Ritinha, j apertando o play.
- Oi, Manuela, oi, Rita de Cssia, oi, Gabriela. Aqui  Eullia, vocs ainda devem estar dormindo. No vejo a hora de conhecer vocs, mas prestem ateno: meu carro 
teve um pequeno problema e eu estou na estrada esperando o conserto. Vou me atrasar um pouco, mas nosso show est de p, no se preocupem. Assim que consertarem 
o carro, eu parto para o Rio. Um beijinho para vocs todas, t?
As meninas ficaram cheias de duvidas. Que tipo de problema houve na estrada? Em que lugar, perto de Minas ou j perto do Rio? Quando tempo levaria o conserto?
Olharam no relgio e viram que j passava das onze. Voaram para o banheiro para tomar banho e perderam a hora embaixo do chuveiro. Lava, esfrega, enxgua, ensaboa, 
lava de novo, brinca com a espuma, joga gua. Uma hora e meia depois, de cabeas molhados e cheirosssimas, estavam prontas para o show que mais esperavam.      
.
E nada de dona Eullia. Comearam a ficar preocupadas.
- Calma, gente, se tivesse acontecido alguma coisa, ela ligaria.  meio-dia e meia ainda - argumentou Manu.
- Mas e se o celular dela estiver sem bateria? - questionou Gabi.
- Ela liga de um telefone pblico,  s parar num posto.
Simples. Mas nada de dona Eullia ligar. Nada de dona Eullia chegar. Nada! O relgio comeou a andar mais rpido. No demorou muito para dar uma hora, uma e dez, 
uma e vinte, uma e meia da tarde. Aquela altura, as trs mordiam-se de preocupao. Cad a mulher, meu Deus? Manu, como sempre, tentou acalmar os nimos.
-Vamos esperar mais um pouco, gente; j, j ela aparece.
As testas se franziam mas a cada segundo, a cada minuto. Mas, se a situao no fosse inquietante ao extremo, as trs certamente j teriam gritado: "O, dona Eullia, 
cad voc? Eu vim aqui s para te ver!"
Mais duas horas se passaram. E nada. A barriga agora roncava, sonhava com comida. Precisavam almoar. Dona Eullia que as desculpasse, mas decidiram por unanimidade 
descer e procurar ali por perto um restaurante B.B.B.L (bom, bonito, barato e limpinho) para traar um P.F (prato feito).
Enquanto caminhavam, simplesmente no conseguiam relaxar. Onde estava dona Eullia? O show era s nove da noite e das planejavam sair de casa s cinco da tarde, 
no mximo.
Mesmo tensas com a demora da me de Davi, no deixaram de perceber que estavam no corao da Cidade Maravilhosa, sem pai, sem me, sem Babete, s com elas mesmas. 
Andando sozinhas pela orla, saindo para almoar. Que chique! Tarde bacana, que ficaria na memria por um bom tempo, qui para sempre, Olhavam para cima, para os 
prdios, hotis, nibus, vans, procuravam famosos; deram a maior bandeira de que eram turistas. E da? O Rio continua lindo, continua sendo...
Dois quarteires depois, acharam um B.B.B.L e traaram feijo, arroz, peixe grelhado e batata frita. Devoraram a comida. Afinal, precisavam ser rpidas, queriam 
voltar logo para o ap para saber se dona Eullia j se encontrava l ou se, pelo menos havia telefonado para dizer que estava chegando. No restaurante, um carinha 
de mais ou menos dezesseis anos comeou a lanar uns olhares sedutores para Manu. Ela gostou e olhou de volta. Ficou nisso, um fazendo charme para o outro. O menino 
sequer chegou perto dela para puxar conversa. No era daquela vez que Manuela sairia da A.M.E.M. (Associao das Meninas Encalhadas Mesmo). Mas quem liga? Slack 
Tom Tompson estava a apenas alguns metros dali e, enquanto no aparecia nenhum menino menos tmido na rea, ele continuava firme no posto de dono do seu corao.
Depois do rango, antes de voltarem para a casa do Davi, deram uma nova espiada na porta do hotel. Lotado. A multido havia aumentado. Assim como a profuso de cartazes 
em ingls e tambm os sotaques. Tinha de tudo: gente que falava cantando, gente que falava acentuando as vogais, gente que puxava nos erres.
De repente, um momento mgico: a porta da garagem se abriu e uma van saiu de l cantando pneus. Dentro, o fenmeno da vez, o mais vendido, o mais tocado, o mais 
imitado, o mais idolatrado! Eles, eles mesmos: os Slavabody Disco-Disco Boys. Tchan!
Algumas sortudas bem posicionadas ganharam sorrisos e acenos dos integrantes do grupo famoso. Outras acabaram se machucando naquele empurra-empurra de tiete. Umas 
cinco ou seis meninas caram no cho na correria e se feriram levemente. No demorou muito para uns grandalhes afastarem a muvuca e levarem as machucadas para dentro 
do hotel. Depois que a van partiu, Gabi, Manu e Ritinha ficaram desoladas.
- Droga! No acredito que a gente no viu nossos lindinhos cara a cara - comentou Gabi, cabisbaixa.
Mas nem tudo estava perdido. Babete havia dado muitas outras dicas de aproximao e o trio queria pr pelo menos alguma em prtica.
No restava mais nada a fazer, a no ser ir para o apartamento encontrar dona Eullia. Manu tinha certeza de que ela j estaria esperando as trs, sentada no sof. 
Que nada. O que as esperava era uma nova mensagem na secretaria.
- Ol, queridos, Eullia novamente. Vou falar rpido porque bateria do meu celular est acabando. Infelizmente o problema do meu carro  bem mais srio do que eu 
pensava. Ele ter de ser rebocado de volta para Ub e o guincho ainda no chegou. Por isso meninas, precisamos combin...
No! Um sinal de ocupado interrompeu a mensagem. Ao que tudo indicava, a bateria do celular da me de Davi a deixara na mo. Mas o que ela ia dizer? Precisamos 
combinar o qu? 0 qu? Ela iria? No iria? Chegaria atrasada? Telefonaria de outro lugar? Que angstia!
- Vamos ligar para a dona Eullia! - sugeriu Ritinha.                     |
- No ouviu que a bateria dela estava acabando? - irritou-se Gabi.
- No interessa, vamos tentar! - revidou Manu, enquanto passava a mo no telefone para ligar. - No acredito, est dando "fora da rea de cobertura".
O relgio, que no tinha nada a ver com isso, era implacvel - tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque. O desespero tomava conta da sala de Davi - tiquetaque, tiquetaque, 
tiquetaque. De um lado para o outro, as trs comearam a andar - tiquetaque, tiquetaque -, pensando o que fazer - tiquetaque, tiquetaque -, para quem ligar, para 
onde ir - tiquetaque. Precisavam chegar cedo ao Maracan. E j eram quatro da tarde. Quatro e dez, quatro e vinte, quatro e meia.
Tentaram Babete, mas seu celular tambm estava fora de rea de cobertura. Tiquetaque, tiquetaque -, quatro e quarenta - tiquetaque, tiquetaque - quinze para as cinco 
- tiquetaque, tiquetaque - cinco para as cinco. E o tempo fechou no apartamento com vista para o mar.
- Temos de fazer alguma coisa. E rpido, porque j so... cinco da tarde! Gente, so cinco horas! - espantou-se Manu.
- No acredito! - desesperou-se Ritinha.
- Vamos perder o show! - gritou Gabi.
De repente, o atraso de dona Eullia comeou a botar todo o sonho por gua abaixo. E estava tudo combinado, no podia dar errado depois de tanto esforo para convencer 
os pais! O plano era sair s cinco em ponto, parar o carro na garagem de uma amiga da me do Davi, que morava ao lado do Maracan, e correr pelo gramado assim que 
os portes fossem abertos, para tentar ficar na fila do gargarejo  espera do show.
Tiquetaque, tiquetaque - cinco e dez, cinco e vinte, cinco e meia. Caramba! Cad a dona Eullia?
- No d mais para esperar. Ou a gente vai neste minuto ou desiste. Eu, sinceramente, estou muito a fim de ir - advertiu Manu.
Oh-oh! Como  que se sai de uma situao dessas?
- Eu vou ligar para a minha me - avisou Ritinha.
- Voc perdeu a noo, Rita de Cssia! Sua me vai enlouquecer, ficar preocupadssima, e ainda vai dizer para as nossas mes o que est acontecendo - repreendeu 
Gabi.
- E vai obrigar a gente a ficar aqui at decidirem o que fazer - complementou Manu.
- Eles podem se reunir e escolher algum para vir pegar a gente e levar para o show - disse Ritinha.
- Se voc tivesse pensado nisso antes, seria timo. Mas agora no d mais tempo. At eles chegarem aqui, j vai estar na hora do show e ns no vamos ver nada, no 
vamos ficar no gargarejo. Isso na melhor das hipteses, porque com trnsito, estrada e tudo o mais, correramos um srio risco de eles no chegarem a tempo e de 
perdermos a chance de ver o show - rebateu Manu.
- Alm do mais, nossos pais deixaram a gente ir, lembra? - argumentou Gabi.
- D! Com a dona Eullia, n, sua cabea-de-vento? Desculpe, mas no gosto disso.
Ritinha estava cada vez mais tensa com a situao, mais do que as outras duas, que tinham uma relao melhor com os pais, mais aberta, com mais dilogo. Mas, que 
fique claro, todas ali odiavam a idia de omitir dos pais o detalhe de que pretendiam ir ao show sozinhas. Alis...
- Ser que ns conseguimos ir sozinhas at o Maracan? - questionou Ritinha.
- Claro que sim! O que de ruim pode acontecer? Olhei l para baixo ainda h pouco e vi que tinha um monte de gente indo para o show, fazendo o mesmo trajeto que 
vamos fazer. Vai ser moleza - disse Manu, tranqilizando a amiga.
- Vamos ao show, vai dar tudo certo e, quando a gente chegar em Resende, contamos para os nossos pais o que aconteceu - sugeriu Gabi.
- Ou no. Pode ser um segredo nosso para sempre - instigou Manu.
 - Claro que no! E a dona Eullia? Voc acha que ela ia concordar em enganar nossos pais? Eu voto por contar, se bobear, eles vo ficar orgulhosos com a nossa atitude, 
com a nossa maturidade - ponderou Gabi, querendo convencer Ritinha.
- Meu pai, com orgulho de mim? E por uma coisa dessas? Ta uma coisa difcil. Ele no deixa eu ficar sozinha nem em casa, imagina no Rio de Janeiro. Ele vai achar 
muito lindo realmente.
- Ritinha, amada, ns vamos dizer para eles o que aconteceu;
"Pai, me, vocs sabem, era a nossa nica chance de ver o show.
Por isso, ns fomos obrigadas a mentir que a Babete estava l com
a gente e a omitir de vocs o incidente com o carro da dona Eullia." Eles vo entender! Ns tambm odiamos fazer isso, sabemos que  errado, meu corao est do 
tamanho de uma noz, mas se no fizermos, no vamos ver o Slack, no vamos ouvir nossos dolos ao vivo! E estamos com os ingressos na mo!
Ritinha ficou pensativa. As amigas esforavam-se para convenc-la de que o melhor a fazer era descer e ir para o Maracan. E tinha de ser rpido, porque o tempo 
passava. Ritinha estava indecisa, encucada, confusa.
- E a dona Eullia? - perguntou a caula do grupo.
Era inevitvel, mais uma vez as circunstncias as levariam para um caminho que abominavam. Mas, quela altura, no tinham outra alternativa a no ser:
- J sei! Vamos deixar um bilhete para tranqiliz-la. Eu escrevo.

"Dona Eullia, como a senhora no havia chegado at as cinco e meia, fomos ao show com os pais de umas meninas que conhecemos aqui na frente do hotel e ofereceram 
carona. Por favor, no ligue para os nossos pais, no queremos preocup-los. Conversamos mais tarde.
Assinado: Manu, Ritinha e Gabi."


- No acredito! Vamos mentir para uma senhora gente boa que topou ajudar a gente e que ns nem conhecemos! - manifestou-se Ritinha.
-  pegar ou largar. Eu estou muito a fim de ir a esse show - afirmou Manu.  
- Eu tambm. No vim para o Rio para ficar trancada num apartamento - concordou Gabi, antes de levar as mos  cabea e continuar: - Rita de Cssia, ns no temos 
culpa, no estamos fazendo isso porque queremos, mas porque precisamos. A culpa  do carro da dona Eullia e da festa-surpresa da Babete! 
- J entendi, j entendi, pare de repetir isso! 
- E a? Vamos? Ou quer ficar sozinha aqui? Voc decide - desafiou Manu, enquanto estendia o brao junto com Gabi, com as mos sobrepostas. Faltava a de Ritinha, 
para fechar o tringulo. Ela pensou, pensou. E decidiu.
- Vamos logo, ento, a gente est perdendo tempo - declarou, pondo suas mos em cima das de suas amigas.  
Contaram at trs, deram um "u-hu" bsico e jogaram os braos para cima, soltando as mos com um grito, como time de vlei antes de uma partida. Prontas para viver 
uma aventura, sentiam-se a verso feminina dos Trs Mosqueteiros e levariam a srio o lema "uma por todas, todas por uma".
Fizeram um pipi rpido, pegaram as mochilas com artigos de primeira necessidade e conferiram se estava tudo l. Pes e biscoitos, canga, para no botar o bumbum 
em lugares sujos e melequentos, gloss, glitter, escova de cabelo, hidratante, repelente, piranhas, casacos, um par de sapatos extra, balas e chicletes variados, 
bloquinhos para autgrafos, canetas coloridas, revistas de palavras cruzadas, gibis da Mnica e do Chico Bento, purpurinas coloridas e sacos de confete; sim, estava 
tudo l. 
- Pronto. Agora podemos ir - decretou Manu. 
Respiraram fundo, abriram a porta e chamaram o elevador. Quando ele chegou, entreolharam-se. Era a ltima chance para desistir. Mas pensaram, exatamente nesta ordem: 
Slavabody ao vivo, dentro de apenas trs horas, ingresso de graa na mo, Maracan.
Entraram e apertaram o trreo.
Decididas a cuidar uma da outra e a no se preocupar com a ausncia de dona Eullia (afinal, tinham certeza absoluta de que
tudo daria certo), deixaram as dvidas para trs e partiram rumo
ao maior estdio do mundo para realizar o sonho de cantar junto com os dolos, num megashow j visto nas principais capitais do mundo.
Os coraes batiam forte. Eram meninas de Resende, nunca tinham vindo ao Rio (exceto Manu, que mal conhecia a cidade) e estavam sem adultos por perto, preparando-se 
para embarcar numa aventura. Uma inesperada aventura. A trs. Sozinhas sabe-se l por mais quantas horas.
Desceram, deram boa-tarde ao porteiro, atravessaram a rua e seguiram.
A quantidade de fs indo para o show era enorme. No trajeto, uma alegria infindvel. Meninas de todas as idades davam gritinhos, carregavam cartolinas com dizeres 
apaixonados, choravam e cantavam as msicas dos meninos mais famosos e disco-disco do planeta.
Quando chegaram ao Maraca, ficaram boquiabertas. Com a multido, com o bando de camels que vendia gua, cerveja, sucos e espetinhos de carne suspeita, com os cambistas 
anunciando ingressos que custavam os olhos da cara, com os adolescentes perdidos que procuravam os pais, com as namoradas de olho no relgio  espera dos namorados, 
com os nibus de vrios lugares do pas abarrotados de tietes histricas...
Claro que o trio de amigas sabia que o Maracan  o maior estdio do globo, quem no sabe? O que no imaginavam era que fosse assim, to gigante. Ali, bem de pertinho, 
olhando pra cima, s conseguiam ver um pequeno pedao daquele imenso disco voador e sentiram-se trs formiguinhas.
Trocaram olhares cmplices, sorriram, tomaram coragem e se meteram no meio da galera de mos dadas. Apertaram bem, para no se soltarem. Depois de um empurra-empurra 
danado, finalmente conseguiram entrar. Ritinha queria comprar um refrigerante e s depois ir para o gramado, sugesto imediatamente negada por suas amigas.
Correram o quanto puderam e, de repente, perceberam que, enfim, estavam l, bem perto do palco, prestes a assistir ao show dos meninos mais adorados do universo 
teen. Mais duas horas e eles estariam cantando, danando, pulando e rebolando at embaixo, numa superproduo de milhes de dlares, criada com o nico objetivo 
de levar ao deleite as milhares de adolescentes que lotam os shows do Slavabody mundo afora.
Em p, de mos dadas, olhando para tudo e para todos e meio atordoadas com o gigantismo do estdio e a gritaria em volta (e tambm com os ltimos e inesperados acontecimentos), 
descobriram em pleno gramado do Maracan, que sonhos podem mesmo se tomar realidade.   

O show 
Agora aboletadas no cho e com as mochilas em volta demarcando o espao conquistado, as trs passaram o tempo cantando as msicas que ouviriam muito em breve. S 
vinte minutos haviam se passado, mas parecia uma eternidade. Compreensvel. Afinal, elas no viam a hora de gritar no Maraca "Islquiii, eu te aaaamoooo! Islquiii, 
eu te aaaamoooo!
Brincaram de forca, adedanha, adoleta, "o trem maluco quando sai de Pernambuco vai fazendo chique-chique at chegar no Cear", jogaram pacincia, buraco, completaram 
palavras cruzadas, contaram as estrelas que comeavam a despontar no cu e... nada! O tempo simplesmente no passava.
Prepararam sanduches com os frios e pes que levaram e lamberam os dedos. At que no quesito "Guloseimas" no fizeram feio. 
Quando faltava menos de uma hora para comear o show...    
- Gente, estou com vontade de fazer xixi. Vamos ao banheiro? - pediu Ritinha. 
- Banheiro? Isso l  hora de ficar com vontade de ir ao banheiro, Rita de Cssia? - perguntou Gabi.      
- O qu?! Voc quer que a gente largue este lugar maravilhoso para fazer xixi com voc? T maluca! No sabe fazer sozinha, no ? - acrescentou Manu. 
- Falem mais alto. Acho que o senhor surdo sentado no ltimo degrau da arquibancada no ouviu - alfinetou Ritinha, irritadssima.
- Eu sinceramente, nunca achei que voc fosse querer nossa companhia para ir ao banheiro num dia como hoje. Fazer isso na escola, normal, beleza; toda menina vai 
ao banheiro com uma amiga. Mas aqui? - reclamou Gabi.
- . Aqui. Qual o problema? Vocs acham que s porque a gente est aqui eu no ia ficar com vontade de fazer xixi? Vocs querem que eu controle o meu xixi,  isso? 
Xixi  coisa muito sria, a gente no pode prender xixi, minha me vive dizendo que faz muito mal prender xixi - retrucou Ritinha, indignada. - Vocs no vo comigo, 
 isso? E se eu me perder?
- Que se perder, o qu? Vai logo, boba, daqui a pouco comea. Aproveita e compra um cachorro-quente para mim? - implicou Gabi.
- No sou boba! E no acredito que vocs no vo comigo! Eu sou a mais nova e a mais medrosa, como assim eu no posso contar com a companhia das minhas melhores 
amigas para ir ao banheiro?! Que  que est havendo? Vocs no gostam mais de mim? - insistiu Ritinha, j com os olhos marejados.
Manu e Gabi entreolharam-se. No queriam sair dali e perder aquele lugar fantstico. Ao mesmo tempo achavam injusto no acompanhar a caula do trio ao toalete. Que 
dilema! O problema que a deciso tinha de ser tomada rapidamente j que agora o relgio parecia andar cada vez mais rpido e a excitao crescia a olhos vistos no 
estdio. Quanto mais o tempo passava, mais escandalosas e histricas as fs ficavam. Decidiram no par-ou-mpar quem iria. Manu acabou perdendo e levantou-se de cara 
emburrada. Pediu mil vezes para Gabi tomar conta direito do lugar, que as pessoas podiam achar que ela estava sozinha e invadir o espao delas, essas coisas.
Depois de soltar um "Yes!" bem baixinho, em comemorao ao fato de no ter sido sorteada para ir com Ritinha, Gabi pegou seu walkman e deitou com a cabea apoiada 
na mochila de Manu. Fechou os olhos e comeou a viajar, a imaginar como seria sua reao ao ver os dolos de pertinho. Ser que eles conseguiriam not-la no meio 
da multido? Ser que ela conseguiria comunicar-se com os meninos? Ela j se imaginava dando aquele assobio altssimo e agudo que todo mundo em Resende adorava. 
Sua marca registrada. Agora chegara a vez de o Maraca ouvi-lo e consagr-lo. Para Gabi, a melhor hora para soltar o seu superassobio era no intervalo entre uma msica 
e outra. Quem sabe conseguiria chamar a ateno dos gringos? Ai, ai... cabea de tiete s tiete entende, n no?
Enquanto isso, Manu e Ritinha andavam em silncio, emburradas,  procura do banheiro mais prximo. Deixar o gramado no foi tarefa fcil, o caminho at a parte em 
que ficavam os banheiros era longo, cheio de empurra-empurra, espreme-espreme, um tal de "com licena" para c, "desculpe" para l. Assim, aos trancos e barrancos, 
as duas iam avanando, esbarrando em vrias pessoas e tropeando em tantas outras. Ritinha chegou a tomar um banho de guaran de uma menina estabanada.
Manu demonstrava irritao e no conseguia parar de pensar que na volta teriam de fazer o mesmo trajeto mala. Que programa de ndio ir fazer xixi com a Ritinha! 
Depois do perrengue, saram, enfim, do gramado e logo avistaram um banheiro. Na verdade, avistaram uma fila comprida, bem comprida, que parecia no ter fim nem hora 
para acabar. Como rir  o melhor remdio, deram uma trgua ao mau humor para tecer comentrios sobre como deve ser maravilhoso ser homem numa hora dessas, fazer 
xixi em qualquer lugar, em p, sem aperto, na rua, na estrada, na praia. Tudo bem que  simplesmente um nojo homem que faz em qualquer lugar, em p, sem aperto, 
na rua, na estrada, na praia.  prtico, mas  to irc!
A inteno de relaxar foi tima, mas como a fila andava a passo de cagado, o bom humor foi acabando aos poucos (favor no pensar bobagem, caro leitor. Cagado  uma 
designao comum a diversas espcies de rpteis de gua doce, da ordem dos quelnios. Rpteis beeem vagarosos, da a expresso).
- No acredito que o mundo resolveu fazer xixi na mesma hora que voc! Ningum merece! Porque voc no veio antes hein?
- Por que eu no sei controlar o xixi. E, para o seu governo ningum sabe segurar xixi. O xixi  independente, o xixi vem quando quer, quando bem entende, at parece 
que voc no sabe! Eu se fosse voc aproveitava para fazer tambm, s para garantir.
Deu para perceber que animadas elas no estavam. Para completar, no eram poucas as meninas que saam reclamando da falta de papel e de higiene do lugar.
- Eu odeio banheiro sujo. Vamos tentar outro? - sugeriu Ritinha.
- Endoidou? Nem pensar. Pura perda de tempo. Fica aqui que vou pegar papel na lanchonete. L deve ter algum. E v se no faz cara feia. 
Manu foi e voltou. A fila at que tinha andado bem, pelo menos. Ritinha estava mais prxima  porta do banheiro. Apertadssima, enquanto esperava sua vez, se contorcia 
toda. 
- Vai se preparando. Ouvi a mulherada dizer que l dentro tem ainda mais fila, na porta dos sanitrios e at para lavar as mos! - cutucou Manu.
 O clima ruim entre as duas foi quebrado com a chegada de um grupo de meninas que carregava, com pressa, muita pressa, uma loirinha com cara de doente,  beira de 
um desmaio. 
- Com licena, gente! Saiam da frente! Minha amiga est passando mal, muito mal mesmo. Acho que botaram um negcio na bebida dela, ela precisa vomitar! - gritou 
uma das garotas, que deviam ter uns dezesseis, dezessete anos, no mais que isso.            
Com pena da loira e de suas amigas aflitas, a mulherada recuou e deu passagem. Logo depois a fila andou mais um pouquinho. Mais um pouco. E Manu e Ritinha finalmente 
conseguiram entrar. Correram para um sanitrio sem porta, o nico sem fila na frente.  que a situao de Ritinha era to preta que ela nem ligou de fazer xixi de 
porta aberta, ou melhor, num lugar que nem tinha porta para fechar.
A descarga no funcionava e um cheiro nada agradvel vinha da privada, do ralo, sabe-se l de onde. Precisou se concentrar para xixar, tampou o nariz e fez um loooongo 
e duradouro pipi. Que alvio! Tem coisa melhor do que fazer pipi quando se est apertado? Depois foi a vez de Manu que, ao terminar, escutou vozes ao lado.
Parecia que muitas pessoas ocupavam aquele mnimo espao
vizinho. Xereta que s ela, no hesitou e subiu na privada para
bisbilhotar o que estava acontecendo. Ritinha, que tentava fazer
paredinha para que ningum visse a amiga xixando, no entendeu nada. S disse:
- Manu, sua maluca, desce da!                                                                   
E percebeu que a fisionomia da amiga mudara. Muito. Agora o rosto de Manu expressava nojo, repugnncia, raiva, decepo.
As cinco meninas que tinham entrado s pressas no banheiro eram, na verdade, umas tratantes. Rolavam de rir e faziam comentrios horrveis, do tipo:     
- Como aquelas antas acreditaram na gente?                                             
- Enganamos todas e nem estvamos to apertadas. 
- Fernanda Montenegro que se cuide! Nasce uma atriz: eu!    
- At parece! Fui eu que convenci as otrias da fila.
Indignada, Manu ficou sem ao e sem palavras num primeiro momento. As tais meninas gabavam-se por ter mentido. E vamos combinar que era uma mentirona. Daquelas 
de ruborizar qualquer me, qualquer irm, qualquer um. Enquanto olhava o quinteto mentiroso estupefata, de olhos arregalados. Manu, que j estava irritada mesmo, 
sentiu seu pavio curto terminar de
queimar. Resolveu arregaar as mangas e tirar satisfaes.
Aos poucos, a ateno naquele corre-corre do banheiro se voltou para ela, que, equilibrando-se na privada, na ponta dos ps, botou o dedo em riste e disparou, em 
altssimo tom:
- Vocs acham que mandaram bem fingindo que sua amiga estava passando mal? Uma mentira dessas s para usar o banheiro? Vocs brincaram com a solidariedade e com 
a boa vontade das pessoas, que gentilmente abriram passagem porque acharam que se tratava de um problema srio! S que nem apertadas vocs estavam! Por que no foram 
honestas e enfrentaram a fila como todo mundo? Eu estou com um nojo danado de vocs! Se eu fosse irm de alguma, estaria muito envergonhada!
Num pulo, Manu desceu de volta para o cho, sob o olhar ainda incrdulo de Ritinha e aplausos entusiasmados da mulherada presente. 
- Nunca vi voc assim! Adorei, mas por que voc falou daquele jeito? Ns mentimos tambm. No bilhete para a dona Eullia e para os nossos pais, dizendo que a Babete 
estava com a gente - observou Ritinha. 
- Shhhhhh! - rebateu Manu. -  diferente! Ns fomos obrigadas a mentir. Pela Babete e pelo carro da dona Eullia. Elas no, mentiram por opo, s para furar fila 
e se dar bem! Como diria Babete, com pose de filsofa; "uma coisa  uma coisa. Outra coisa  outra coisa." Manu saiu da discusso com ares de vitoriosa, aplaudida, 
admirada por sua coragem. Enquanto caminhava na direo da pia com o peito estufado, o nariz empinado e um sorrisinho orgulhoso no canto da boca, as cinco pinquias 
abriram a porta do sanitrio em que estavam com toda fora. O barulho calou o burburinho feminino que havia se formado.
- Vem c, garota! Quem voc pensa que  para falar com a gente assim? A rainha da Inglaterra? Fala srio, uma pirralha querendo cantar de galo! Voc no se enxerga, 
no? - espetou a que aparentava ser a mais velha do grupo.                  Gluuuup!
Todos os olhares no banheiro voltaram-se para Manu e
Ritinha.
- Quem VOC pensa que  mentindo desse jeito? O pior  que voc no est com a menor pinta de que est arrependida. S me diz uma coisa, valeu a pena? - rebateu 
Manu, para delrio da galera, que reagiu  pergunta com gritinhos de incentivo do tipo "u-huuu! A, lourinhaaa!".
E... dava para sentir que um "barraco" daqueles estava se armando.
- Obvio que valeu. Eu e as minhas amigas mijamos muito e estamos nos sentindo bem melhor. No , meninas? - disse a sarada do grupo.
- Mijaram? Eca! Voc  um daqueles homens mal-educados, por acaso, para dizer essa palavra chula? Que menina mais sem noo, mais sem linha! E quer saber? Acho que 
no foi s xixi, no. Algum a deve ter comido repolho podre no almoo, porque esse cheiro de esgoto entupido veio do pum de uma de vocs! - devolveu Manu, na lata.
Gargalhada geral. At a servente que retirava o lixo parou para ver o arranca-rabo que se formava. Parecia uma torcida de futebol: umas batiam palmas, outras davam 
gritinhos de incentivo. Olhavam as mentirosas com hostilidade. A maioria ali estava visivelmente do lado de Manu. Eram quase cinqenta versus cinco.
Seria moleza.                                            
- Nossa, que engraado, olhe como eu estou morrendo de rir - debochou a adversria. - Posso falar uma coisa? A gente est com uma galera l fora que no vai demorar 
um minuto para fazer um estrago nessa sua cara de patricinha - ameaou a mais velha.              
Dessa vez Manu sentiu medo. Medo de verdade. Poxa vida, logo a cara, que ela tanto prezava? Mas, ainda assim, conseguiu ironizar:
- Ai, que meda! Olha como eu estou tremendo, olha!               
Ritinha preparava-se para dizer para a amiga "No provoca,     
no provoca...", quando a sarada pulou com tudo para cima de Manu e comeou a puxar com fora seus cabelos louros, lisos, longos, cheirosos e cultivados h anos 
com muito carinho.
- Meu cabelo, no! Largue meu cabelo, sua oxigenada de quinta! - gritou Manu, enquanto revidava  altura nas madeixas da pinquia.
Nesse momento, uma mulher mais velha e meio fortinha tomou as dores de Manu e tambm resolveu voar para cima de outra do grupo metido a esperto. Pronto. Agora no 
tinha jeito. Uma briga danada estava s comeando. Como nos filmes, todas as pessoas em volta entraram na confuso e, em pouco tempo, o banheiro estava de ponta-cabea. 
Foi uma baixaria: cabelo para tudo quanto  canto, botes pelo cho, unhas quebradas, esmaltes descascados, roupas rasgadas. Enfim, uma peleja que o Maraca demoraria 
um bocado para esquecer.
Para Ritinha, que no era nada chegada numa briga, sobrou outra menina, a popozuda do grupo, que partiu para cima dela, de repente.                              
- E voc? Vai ficar a chupando dedo, sem fazer nada, dando uma de covarde? No  mulher para entrar em briga, hein? Hein? Que papelo... sua amiga se descabelando 
e voc a olhando tudo com essa cara de bunda.
Ela nem sabe muito bem como aconteceu, mas quando se deu conta estava se engalfinhando com a tanajura, ou bunda de mate, como Ritinha se referiu a ela vrias vezes 
durante a briga. Sim, porque briga de mulher precisa de falao, seno no  briga de mulher;  de homem, que luta calado, sem espetar o adversrio. Tsc, tsc, tsc, 
tolinhos.
O arranca-rabo durou mais um bom tempo, mas estava to generalizado que Manu e Ritinha conseguiram fugir do banheiro p ante p, ajeitando o cabelo e a roupa e conferindo 
os arranhes que ganharam na confuso. Depois de dez passos rumo ao gramado, foram surpreendidas por dois seguranas enormes.
- Vocs vm comigo! - ordenou o mais carrancudo deles. 
H? Oqu?                                                  
Ritinha bem que tentou apaziguar:
- Mas o que vocs querem com a gente? Acho que vocs esto nos confundindo com outras pessoas... 
-Vocs brigaram no banheiro, no venha de conversinha pra cima de mim.
- Ih, o senhor pegou as pessoas erradas. A gente nem sabe o que rolou l dentro! - defendeu-se Ritinha.
-  mesmo? E esse arranho no seu rosto? 
- Ah, seu moo, deixe disso. Tem uma amiga nossa sozinha, eu disse sozinha, esperando a gente no gramado. O senhor no pode dar um desconto? Agora, com licena - 
pediu Ritinha, tentando escapar do cerco dos dois trogloditas.
No teve conversa. Os grandalhes no deram a menor trela para ela e continuaram levando as duas para algum lugar que desconheciam, mas tambm no estavam nem um 
pouco a fim de conhecer. Saram sob o olhar de curiosos.
Distanciavam-se cada vez mais do barulho das fs que lotavam o estdio. Num certo momento, Manu olhou para trs e viu que outras meninas envolvidas no arranca-rabo 
tambm estavam sendo levadas para sabe-se l onde. Depois de muito gastar a sola dos sapatos, o grupo de garotas e seguranas chegou a uma enfermaria.
- Vocs s saem daqui com anuncia do mdico. Comportem-se! - avisou um dos grandalhes para a agora quieta trupe de tietes encrenqueiras.
Anuncia? Anuncia?! Ritinha ficou preocupada:
- Ser que  um tipo de exame? Ser que di, Manu? - sussurrou para a amiga.
- No tenho a minscula idia, Rita de Cssia - respondeu Manu, tensa. - Como  que a gente foi fazer uma besteira dessas?
- Se meu pai descobrir que eu fui pega numa briga, estou ferrada.
Quando as cerca de trinta meninas aportaram na enfermaria, umas outras setenta j esperavam, espremidas, por atendimento. A ansiedade estava no ar. Um enorme concerto 
internacional estava para comear do lado de fora e ningum ali queria perder.
Dez minutos se passaram e todas continuavam  espera de um enfermeiro. Quinze minutos, e Ritinha comeou a olhar no relgio. Trinta, e Manu j estava roendo as unhas, 
hbito que lutava para perder havia anos. Quarenta, e as duas e mais todos ali presentes perdiam as esperanas de ver a apresentao dos bofes norte-americanos do 
comeo ao fim. Uma hora, veio a inveja de Gabi, que devia estar l berrando como todas as milhares de fs
que lotavam o maior estdio do mundo.       
Uma hora e um minuto, dava para ouvir claramente: o show havia comeado. Ritinha e Manu se abraaram forte, sem saber o que pensar, o que dizer, meio abobadas por 
no estarem vendo os meninos que tanto amavam. A enfermaria se encheu de tristeza; outras meninas que tambm esperavam por atendimento desandaram a chorar, a chamar 
pela me, a implorar para serem liberadas.
Duas horas e meia depois, tentavam se esconder dos reprteres que se amontoavam na porta da enfermaria em busca de notcias sobre feridos, desmaiados etc. Manu seria 
a prxima a passar pelo crivo do mdico quando escutou uma voz familiar.
-Ah, moo, me deixe entrar! Por favor! Rodei esse Maracan todo, j me perdi, j me achei, mas ainda no encontrei minhas amigas! E no saio daqui sem elas.
Era Gabi, louca atrs de Ritinha e Manu, que no demoraram para gritar seu nome. Aliviada, correu ao encontro das duas.
- Conte tudo, tudo! Com riqueza de detalhinhos, pode comear - implorou Manu, depois do longo abrao triplo que trocaram.
- Contar o qu?
- Como foi o show, u! As msicas, as roupas, como eles falaram "obrigado", o que eles conversaram com a platia, as cores, os efeitos especiais... queremos detalhes, 
de-ta-lhes, s isso! - completou Ritinha. 
- ! Conte! Por favor! - concordou Manu, tambm ansiosa para saber as novidades.
As garotas em vote comearam a se esticar para tentar ouvir a descrio do show que haviam perdido. Saber em primeira mo como foi o concerto pop mais esperado do 
ano j sena um consolo.
- Que show? Que coreografias? Que roupas?! Vocs esto loucas? Acham que com vocs duas desaparecidas eu ia ficar sossegada vendo os meninos cantarem como se nada 
tivesse acontecido, como se vocs estivessem do meu lado? Fique, super preocupada, entrei em todos os banheiros, bati em todas as enfermarias e, agora, graas a 
Deus, finalmente encontrei minhas melhores amigas! Que bom que vocs esto bem.
 As trs se abraaram novamente. Dessa vez com os olhos cheios d'gua. Depois de se desgrudarem, Gabi quis saber tintim por tintim por que Manu e Ritinha tinham 
ido parar naquele lugar lotado de mdicos, enfermeiros e tietes machucadas/descabeladas/desoladas.                                                       
- Depois de sculos na fila enorme do banheiro, a gente viu uma coisa horrvel. Umas meninas ridculas entraram e...                 
Manu explicou tudo. Tudinho. Gabi ouvia atentamente, quase sem acreditar que suas amigas haviam se metido numa roubada dessas. No demorou para um mdico parar perto 
delas. Deu uma olhada rpida nos minsculos arranhes da dupla e... em um minuto estavam liberadas.
- Ei, ei, ei! Pera, seu doutor!  S ISSO? Isso  o que o senhor chama de examinar? E a tal da anuncia, cad? Agora eu quero a minha anuncia, no saio daqui sem 
ela! Pode at doer, que se dane! Eu perdi o show do ano s para o senhor dar uma olhadela, de longe, nos meus arranhes? No mesmo! Pode comear a me examinar direitinho! 
E com anuncia, faa o favor! - disparou Ritinha.                
- No, Ritinha! Deixe disso, no vamos brigar de novo! Vamos embora - argumentou Manu. Saram da enfermaria de cara amarrada. A nica coisa que confortava as duas 
era que as meninas que mentiram e comearam toda a briga no banheiro tambm no tinham visto o show. 
O trio de amigas deixou o estdio de braos dados, ainda sem entender como uma coleo de erros foi de repente acontecendo e estragando tudo. O estresse na hora 
de ir ao banheiro, a crena o fato de no terem marcado um ponto de encontro caso se perdessem... deram uma de amadoras. Babete ficaria decepcionada quando soubesse.
Enquanto caminhavam pelas ruas da Tijuca para o ponto de nibus mais prximo, ouviam ao lado um sem-nmero de pessoas tecendo comentrios sobre o show na maior empolgao. 
A, o corao no agentou. A tristeza bateu forte e Manu deixou escapar uma lgrima. Estava tudo acabado. Nada mais poderia ser feito. A nica coisa a fazer era 
ir para o ap do Davi, tomar um banho daqueles e se jogar na cama para esquecer para sempre aquela noite.
Cabisbaixas, tomaram o nibus e assim seguiram at Copacabana.
Sem uma palavra.

A falta de sorte
Quando chegaram ao prdio do melhor amigo de Babete. Gabi - que quis se responsabilizar pelo chaveiro com as chaves da portaria e do apartamento desde o comeo, 
por considerar as amigas avoadas - deu de procur-lo dentro da mochila e nada de achar.
Procura dali, procura daqui, mexe aqui fora e remexe l dentro. Nada. Num rompante, resolveu virar a mochila de cabea para baixo e derrubar tudo no cho. Manu e 
Ritinha ficaram meio sem ao, mas depois do choque inicial resolveram comear a procurar em suas prprias mochilas. E nada de achar.
- Calma, gente. Est aqui em algum lugar, tenho certeza, certeza absoluta! - disse Gabi, enlouquecida.
- Veja se o porteiro est a! No vamos ficar aqui fora, ao relento. Deve ser perigoso - pediu Manu.
- Que perigoso, o qu? Devem ter redobrado a segurana nesta rea por causa do Slavabody. Quanto a isso, pode ficar tranqila - apaziguou Gabi.
Elas nem sabiam se o prdio tinha porteiro  noite, mas mesmo assim tocaram o interfone insistentemente. Ningum apareceu.
- Vamos ligar para a Babete. O celular dela estava fora da rea de cobertura mais cedo, mas ela deixou os telefones da casa de
Angra com voc, no foi, Manu? - lembrou Gabi.
- ... acho que foi. Quer dizer, foi. Foi, sim. Mas... deixei l em cima, sobre a mesinha-de-cabeceira...
- Gente, gente, gente! Assim no  possvel! Vocs esto querendo dizer que esto sem os contatos da Babete e sem as chaves?! O que  que vai ser de mim, meu Deus?! 
No acredito que eu estou sozinha no Rio de Janeiro com essas irresponsveis! Ns agora somos praticamente umas sem-teto! - Ritinha deu ataque. - O que  que vamos 
fazer agora, alguma das duas pode me responder?
- Calma. Ritinha!  s ligar para o apartamento do Davi, eu decorei o nmero. A dona Eulla deve estar l. Ela desce e abre a porta para a gente. Vamos recolher 
as coisas e procurar logo um orelho - decretou Gabi, aliviada por achar a soluo para o problema que ela mesma criara.
O orelho ficava ali pertinho, na esquina. Fizeram cinco tentativas, todas atendidas pela secretria eletrnica.
- Ai, meu Deus, cad a dona Eullia? Ser que ela j est dormindo? Era s o que faltava! - desolou-se Manu.
As trs ficaram sem palavras. Parecia castigo! Tudo de errado acontecendo com elas.
 Voltaram para o prdio e tentaram o interfone novamente. Nada. No resistiram. Sentiram medo pela primeira vez. Muito medo. Medo pela insegurana, medo por no 
terem para onde ir, por estarem sozinhas num lugar que no conheciam, sem ningum para pedir colo, para proteg-las. Medo que fez o estmago virar e as mos suarem 
frio.
O que fazer numa situao dessas? O que Babete faria? O que seus pais fariam? Alis, que saudade deles! E que arrependimento. Queriam estar no quentinho de suas 
camas, embaixo do edredom comendo pipoca, com a me a poucos metros de distncia. 
Falando em mes... as trs tinham prometido ligar para elas assim que chegassem do show! E agora? O que fazer?
- Vamos ligar do orelho e falar que j chegamos no Davi e que estamos morrendo de sono. Assim a gente mente pouco e consegue desligar rpido - sugeriu Manu, angustiada.
- No, eles vo perceber na hora que estamos falando de um telefone pblico - desanimou Gabi.
- Ah, no! No acredito que vou ter de mentir para os meus pais de novo - desabafou Ritinha. - E se a gente no ligar, dizer que esqueceu? A no  mentira.
-  loucura! No podemos fazer isso de jeito nenhum. A gente precisa telefonar. Ou ligamos e mentimos ou eles vo ficar desesperados, preocupadssimos, sem saber 
onde estamos, se estamos bem, se estamos seguras. No vo nem dormir! -repreendeu Manu.
- Mas eu no estou bem. E nem segura! - choramingou Ritinha.
Por ironia do destino, mais uma vez as trs se viam obrigadas a mentir. Mas dizer o qu? Que estavam no apartamento do Davi com a dona Eullia? Pelo menos uma das 
mes iria querer falar com ela, agradecer por ter cuidado da filha. E ai? O que mais inventariam?
- Isso est virando uma bola de neve! - gritou Ritinha. 
-Eu sei, eu sei - concordou, triste, Manu.  
- Eu odeio a idia de mentir para a minha me - confessou Gabi.
-Eu tambm! - fizeram coro Ritinha e Manu.     
- Nunca fiz isso, me orgulho por ela ser minha me e minha melhor amiga - reclamou Gabi. - Mas... no d para contar a verdade. No agora.
- Por qu? - insistiu Ritinha, inconformada.
 Manu reagiu na hora:
- Porque no tem condio! Ao vivo a gente explica, olhando nos olhos deles, por que a gente mentiu. Vamos falar que sabemos que  errado, coisa e tal, mas que no 
tinha outro jeito. Se a gente contar por telefone, vo entrar em pnico s de pensar nas filhas sozinhas no Rio a essa hora da noite, sem ningum tomando conta. 
E, pior, no vo poder fazer nada! Vo ficar para l de angustiados e muito, muito mais bravos! Por isso, no  uma boa idia contar a verdade agora, entendeu?
- , Rita de Cssia! Amanh a Babete chega, voltamos para Resende e l contamos tudo. Aposto que eles vo ficar menos chateados vendo que ns estamos bem e que tudo 
acabou dando certo. O que me preocupa  o que vamos dizer para eles. Minha me me conhece, vai perceber que algo estranho est acontecendo... - preocupou-se Gabi.
- No vai, nada! Tive uma idia - cortou Manu.
Dividiu a tal idia com as amigas e elas, depois de muito debater e relutar, acabaram concordando. Foram para o orelho outra vez, respiraram fundo e ligaram. Manu 
foi a primeira.
- Oi, me! Tudo bem? Aqui tudo timo, acabamos de voltar do show. Foi, me... foi lindo, bem como eu esperava. Eu sei que voc est feliz por mim, mezinha, obrigada 
- disse, tentando disfarar a voz de choro. - Vou falar rpido porque a Gabi e a Ritinha tambm querem ligar para casa e estamos s com um carto, no orelho em 
frente ao prdio do Davi. Parece que o telefone dele pifou, quando atendemos, fica mudo. No conseguimos escutar nada, ento nem adianta ligar para l. A dona Eullia? 
E, me, ela  muito gente boa, mas estava superapertada depois do show, subiu correndo para fazer xixi. E ns estamos roxas de sono, loucas para subir tambm. Beijo, 
amanh a gente se v. Tambm amo voc.
Manu desligou com um n no peito, parecia que tinha uma melancia pendurada no seu pescoo puxando os ombros e a cabea para baixo. Que situao horrvel! Sua me 
na maior boa-f, na maior confiana, crente de que tudo esta saindo como o planejado, e ela mentindo descaradamente. As outras duas muito nervosas, tambm ligaram 
para as suas casas repetindo a histria inventada e, apesar de todos os pais terem acreditado, a tristeza entre elas s aumentava.
Pior, quando acabaram lembraram um detalhe: ainda precisavam decidir para onde ir. A rua estava escura e dava ainda mais vontade de chorar, berrar, se esgoelar, 
subir pelas paredes. Era muita falta de sorte..                                                               
- A gente no pode ficar aqui. No em ningum por perto - reclamou Manu.
- Vamos para onde? No  melhor insistir at acordar o porteiro? - sugeriu Gabi.
- Mais do que a gente j insistiu? No podemos ficar aqui de braos cruzados, simplesmente!
- E para onde voc quer ir? - quis saber Ritinha.
- Por que a gente no vai para praia? - props Manu.
- Viajou! Dormir na areia nem pensar! Deve ser gelado e esquisito. Alm disso, vou achar que de noite o mar vem me pegar. No, sem condio - reagiu Ritinha na lata.
- Vamos fazer uma coisa? O que vocs acham de a gente ir para a porta do hotel? Aposto que ainda tem um monte de tietes acampadas l. Se no, a gente pode dormir 
naqueles banquinhos logo em frente, perto daquele ponto de taxi e das mesinhas de pedra com tabuleiros de dama. Pelo menos vai ter mais luz e mais segurana. Que 
tal? Convenci? - props Gabi.
- Claro que no. Dois minutos atrs voc estava certa de que aqui, nesta esquina,  era seguro ficar por causa do Slavabody. E falou isso com uma certeza irritante. 
Agora tai, cheia de medinho - desabafou Manu.                         - Eu no tenho a menor vergonha de mudar de opinio, t? Pelo contrrio, me orgulho disso. 
Fiquei com medo agora mesmo, e da? Acho melhor a gente sair daqui e pronto! - rebateu Gabi.
Depois de um momento se estranhando, as trs decidiram ir para a porta do Sofitel. Parecia mesmo a melhor soluo. Foram andando de mos dadas. Manu, friorenta como 
sempre, botou a canga nas costas para se proteger do vento e da maresia.
Chegaram ao hotel, onde vrias fanticas estavam de tenda armada, dormindo, exaustas. Todas com um nico objetivo: estar perto dos dolos. J as trs amigas queriam 
apenas paz e tranqilidade, sentiam-se confortveis com o fato de dormir com seguranas em volta, velando seu sono, cuidando para que nada de errado acontecesse.
Ali, pensaram mais uma vez no cheiro delicioso de lenol-lavado-h-pouco-tempo que encontrariam quando chegassem em casa. O travesseiro. Hummm... o travesseiro. 
Ia bater um remorso daqueles quando chegassem em Resende. 
Devagar, caminharam em direo ao canto com a maior taxa de adolescentes por pedra portuguesa. Estenderam as cangas e se deitaram no cho mesmo, como as outras em 
volta, com a mochila fazendo as vezes de travesseiro. Estavam no Rio de Janeiro sozinhas na rua, sem uma cama para dormir. Perto do Slavabody, sim, mas e da? Estavam 
to desoladas que nem isso servia de consolo.                      
Ritinha, Gabi e Manu se esforavam para fazer pensamentos positivos, mas...
- Deu tudo errado! Tudo! Nem ver o show de longe a gente conseguiu! - Manu foi a primeira a resmungar.
No vimos o show por sua causa, senhora brigona! Precisava armar um escarcu no banheiro? Foi tudo culpa sua! - rebateu Gabi, sem papas na lngua.
Falou mesmo. A irritao e o cansao eram enormes e, nessas horas, a gente fala sem pensar.
- Sem contar que voc podia ter pedido para os seus pais darem dinheiro para voc se hospedar no hotel, como muitas riquinhas fazem - alfinetou Ritinha, entrando 
na discusso e deixando o choro de lado.
- No me chama de riquinha que eu odeio! E se eu tivesse pedido dinheiro para os meus pais, seria s pra mim e a gente no estaria vivendo tudo isso.
- Tudo isso qu, cara plida? Isso aqui virou a maior roubada em que eu j me meti. A roubada do sculo - devolveu Ritinha.
- Calma, gente. Vamos falar baixo! No vamos acordar as outras! - repreendeu Gabi.
- Calma nada! Voc se ofereceu para cuidar das chaves e olhe no que deu! Perdeu todas! - exasperou-se Ritinha, atacadssima.
- E pior, nem sabe onde - completou Manu, tambm com os nervos  flor da pele.
- Claro, se uma pessoa sabe onde perdeu, ento no perdeu, burralda! Para mim, vocs  que so as verdadeiras culpadas por esse sufoco que a gente est passando. 
Eu s perdi o show porque fui atrs de vocs, suas ingratas! - esperneou Gabi.
Pronto. Que clima timo criaram. De novo. Ficar sem discutir era impossvel para essas trs amigas. Algumas meninas que dormiam comeavam a se mexer. Afinal, descansar 
em volta do trio estava ficando difcil diante de tanta tagarelice emburrada. Manu sabia que no era hora de brigar e tentou mudar para um assunto mais pacifico.
- Acho que agora vamos ficar bem. Nada de pior pode acontecer.
- Pelo amor de Deus, vire essa boca pra l, Manu! - reagiu Ritinha.
- No vai acontecer nada! Acham que por acaso vai acontecer alguma coisa com a gente na frente desse hotel, onde est hospedado o grupo mais famoso do mundo? Sem 
chances! - discursou Gabi.
- A, a! A mesma frase que voc falou minutos atrs. Mesmssima! Vira o disco! - espetou Manu. - A gente vai voltar para casa amanh, ficou sozinha no Rio, andando 
com as nossas pernas. Foi maneiro, no fundo. Melhor do que passar mais um fim-de-semana em Resende, igualzinho a todos os outros que j passamos.
Com isso, o baixo-astral acabou dando trgua. Eram aventureiras, afinal de contas. Um pouco atrapalhadas, avoadas, esquecidas e brigonas, mas aventureiras. E naquele 
momento, com os nimos acalmados, comearam a considerar seriamente a possibilidade de tirar uma soneca. Era mesmo o melhor a fazer.
Menos de dez minutos haviam se passado, quando escutaram uma voz que dizia, bem baixinho, algo como "Ei meninas! Vocs esto acordadas?". A voz se aproximava aos 
poucos, mas ningum acordava. As tietes em volta pareciam estar no milsimo sono, nenhuma se manifestou para responder. As trs decidiram ficar de olhos fechados, 
esperando que o dono da voz fosse embora logo para que elas pudessem, enfim, descansar.
Um grupo de fs fanticas, instalado bem ao lado delas, comeou a conversar com o tal homem. Aos poucos, outros grupos de meninas esparramadas pelo cho comearam 
a despertar. Logo todas ao redor estavam acordadssimas, inclusive as resendenses. No demorou muito para que descobrissem do que se tratava.
- Parabns! Parabns por estarem acordadas! Ateno, tchananan! Vocs podem estar prestes a ganhar passagens para So Paulo, com direito a acompanhante, para 
ver o show do Slavabody Disco-Disco Boys com todas as mordomias pagas, inclusive um jantar com todos os integrantes da banda! Tudo patrocinado pela rdio Teen Pop 
Rock Sampa! S preciso de respostas corretssimas para duas perguntas sobre o Slavabody. Acertando, vocs tambm ganham na hora um kit com camisetas, bons, fotos 
e agendas autografadas pelos meninos. Vocs topam? - anunciou, num flego s, um lourinho espevitado, com um gravador na mo.
- Siiiim! - respondeu o grupo, eufrico.
Agora de olhos bem abertos, as trs permaneceram imveis, mas com os ouvidos atentos e curiosos.
- Pergunta nmero um, ateno: qual  a comida preferida do Slack? Pergunta nmero dois, qual o nome do porco de estimao que o Tiger tem em sua manso de Los Angeles? 
Vocs tm cinco segundos. Cinco, quatro, trs...
- Lasanha! Lasanha! E o nome do porquinho  Piggy Disco Boy - respondeu a mais desinibida do grupo.
-As respostas esto... ateno, um momento de suspense... cooorrrreeeetaaaas! Vocs ganharam, meus parabns! - comunicou o serelepe locutor, que vestia jeons e camiseta 
da rdio.
Enquanto as meninas ao lado se abraavam na maior choradeira, Manu gritou: 
- Estamos acordadas tambm! Aqui, moo. por favor! Pode fazer outra pergunta, vamos saber responder qualquer uma!
Gabi tambm tentou: 
- Alm do mais, aposto que se eu contar a nossa historia. voc vai querer nos levar para So Paulo tambm. Acredita que a gente perdeu o show por causa de...
-  gatinhas... mil desculpas, t? Mas agora j foi, t? Por pouco vocs no foram as vencedoras, t? No fiquem tristes, t? A gente achou que vocs estavam no 
maior sono t? Fica para prxima, t?
T! T! T! T! Cara mais chato! Claro que estavam triste. Tristssimas. Afinal, ganhar passagens para So Paulo seria maravilhoso, sem contar que melhoraria o clima 
daquele dia todo errado. O episdio acabou com o que restava das foras das foras das meninas. Sem nimo sequer para resmungar, resolveram se entregar aos braos 
de Morfeu, o deus do sono e dos sonhos.             
Encolhidas, as trs tentaram no pensar mais na coleo de erros que tinham cometido. Queriam que tudo no passasse de um pesadelo sem graa. O vento que vinha do 
mar no dava folga e, por mais que elas se encolhessem, o frio continuava maltratando. Apertaram-se para dormir grudadas umas nas outras, na tentativa de espantar 
a baixa temperatura e tambm o baixo-astral. De repente... 
- Boa-noite, boa-noite.       
As trs arregalaram os olhos com o corao na mo, na esperana de que o cara da tal rdio tivesse mudado de idia e estivesse l para dar a viagem a Sampa para 
elas tambm. Mas alegria de tiete dura pouco. Que equipe de rdio paulista, que nada! 
- Juizado de menores! Ateno! Juizado de menores! Todo mundo levantando, por favor! Todo mundo acordando! 
Juizado de menores? Essa no! 
- Gente, acorde! - ordenou Manu. 
- Acordar? Voc acha que algum consegue dormir com esse homem com voz de alto-falante berrando? S digo uma coisa: meu pai vai me matar se a gente for parar no 
xadrez! - enfezou-se a j emburrada por natureza, Ritinha. 
- Que  que  isso?! A gente precisa se benzer! - interveio Gabi. - Eles no vo nos levar para a priso s porque estamos aqui. Ou ser que vo?
- Ai, meu So Judas Tadeu, minha Santa Rita de Cssia, minha Santa Brbara, meu So Jorge, meu Santo Expedito. Minha Nossa Senhora Desatadora dos Ns, quem vir 
para o Rio tirar a gente da cadeia? A gente vai dormir ao lado dos bandidos? Ser que tem cela especial para criana? Deus meu, ser que vo levar a gente para um 
presdio de segurana mxima? Ser que minha me conhece algum advogado que no seja careiro? - apavorou-se Ritinha, aos berros.
- Era s o que faltava! - desabafou Manu. 
Olharam para os lados e notaram que suas vizinhas de porta de hotel j obedeciam  ordem do pessoal do Juizado de Menores. Muito a contragosto, comearam a se levantar 
e, quando deram conta, perceberam que cinco homens estavam ali e no dois, como haviam imaginado. Foram de grupinho em grupinho fazendo perguntas, pedindo carteira 
de identidade e sabe-se l o que mais.
- Eu quero minha me! - choramingou Ritinha.
- Cale a boca, chata! - ordenou Manu.  
- Pensamento positivo, gente. Pensamento positivo. Vamos pensar em coisas alegres. Vamos l: gangorra, jabuticaba suculenta, palhao, navio... - tentou Gabi, sem 
sucesso. - Vamos cantar, ento. Bem baixinho, todo mundo. "Il ll llarl ! ! ! Il ll Ilari ! ! !"
- Shhhh! - fizeram ao mesmo tempo as outras duas,  beira de um ataque de nervos com aquele "momento Xuxa" nada apropriado.
 Gabi. Ritinha e Manu no tinham a menor noo de como deveriam reagir, de qual seria a cena do prximo captulo. No conseguiam entender direito no que aquilo tudo 
podia dar. Um dos homens totalmente calvo, com barriguinha protuberante e terno e gravata de gosto duvidoso aproximou-se delas
tom solene:                                                                          
- Boa-noite, senhoritas. Como est a vida? Tudo certinho?
- Tudo, tudo certinho, sim senhor- responderam as trs educadamente, com cara de boas meninas e voz um tanto trmula.
- Eu sou o juiz da Vara da Infncia e Adolescncia, Miro Montalban, vocs naturalmente me conhecem da televiso. Hum... no? Como no? Bom, no precisam ficar com 
medo de mim. Qual a idade das mocinhas?
Silncio total. Juiz? Juiz?! Glup. No tiveram nem coragem de tentar mentir a idade. Em dois tempos, doutor Miro matou a charada.
- Menores, h? Hum... esto sem acompanhante adulto? Seus pais no tm idia de que vocs esto aqui, no relento, acertei? Hum... foi o que pensei. Peguem suas coisas 
e dirijam-se para aquele micronibus. Hum... ns vamos lev-las para casa. Hum.. agora - decretou, pouco antes de virar-se para o lado para interrogar um outro grupo 
que, como nossas trs amigas, o esperava com um sorriso amarelo no rosto.      
- Seu juiz! , seu juiz! Como assim? - Manu foi a primeira a manifestar-se.
- Poxa, seu juiz, muito obrigada pelo interesse em nos proteger, mas vossa excelncia no precisa se preocupar com a gente, ns moramos a alguns passos daqui. Naquele 
prdio, ,  s virar o pescoo um pouquinho que o senhor v. Logo ali na esquina. Est vendo? - complementou Ritinha.
- Ah, quer dizer que vocs moram naquele edifcio luxuoso na avenida Atlntica, mas preferiram passar a norte na porta, dormindo no cho, sem conforto nenhum? Hum... 
muito coerente isso, mas eu gostaria.de checar. Posso bater na casa das senhoritas para falar com um responsvel?
Estavam mais que fritas. Estavam torradas, esturricadas, queimadas. Quanto mais o tempo passava, mais aquele pesadelo parecia no ter hora para acabar. 
-  que...  que... preciso contar, meninas. Mas no brigue comigo. hein, , seu juiz? A gente perdeu o chaveiro com todas as chaves. Foi o que aconteceu. Pronto, 
falei. Ai, que alvio! - entregou Manu.
- Perderam a chave? Tsc, tsc, tsc, que coisa horrvel... hummm... o que vocs sugerem, ento? - retrucou o doutor Miro Montalban, enquanto coava o queixo.
- Que o senhor nos deixe ficar aqui - respondeu com naturalidade Ritinha, antes de se aproximar do juiz para um breve tte--tte. -  s fingir que no viu a gente. 
Pense comigo: aqui  seguro, tem vista para o mar e os caras do hotel so muito gente boa, mineirssimos, sabe? Eles tomam conta de todo mundo aqui. Pode ir tranqilinho 
para casa que ns vamos ficar bem. V descansar. Tem perigo no, precisa se preocupar no, seu Miro - disse Ritinha.
- Doutor, filhinha, doutor Miro, sim? Querida, voc acha mesmo que consegue enganar um juiz com 30 anos de magistrado? Muito ingnua, muito ingnua mesmo. Vou lev-las 
para casa. E j! Andem, para o nibus! Chega de conversa para boi dormir!
- Seu juiz, acho que o senhor no ia querer levar a gente depois que soubesse onde a gente realmente mora - reagiu Manu.
- H?
-  que esse apartamento aqui perto  de um amigo. A nossa casa, mesmo,  meio longe, sabe? - complementou Gabi.
- Onde, exatamente? - inquiriu o juiz, j impaciente. 
- Beeeeem longe acrescentou Ritinha. 
- Onde? - insistiu o juiz, mais seco ainda.
- Em Resende - respondeu Manu, baixinho.                                       
- Hum... iihh... hum... ... longe mesmo.
Ao ouvirem aquela resposta, chegaram a esboar um sorriso. Tiveram a sensao de que a noite no terminaria to mal como imaginavam. Afinal, Miro Montalban no estava 
com a menor cara de que toparia encarar uma estrada quela hora da madrugada.        
- Bem, ento esperarei at amanh para levar vocs em casa. Fao questo de conversar com seus pais ou responsveis pessoalmente. Onde j se viu... - decretou o 
juiz.
Pronto. Aquele, sim, era o ponto final de um dia inacreditavelmente desastrado, mal aproveitado. Um dia para ser deletado. Quando se preparavam para ir para o nibus, 
catando cangas e pertences no cho, uma luz forte, muito branca e insistente, surgiu bem em cima delas. No, infelizmente no eram os anjinhos e gnominhos da Babete 
vindo ajud-las numa nuvem iluminada.        
- Doutor Miro, doutor Miro, por favor, uma declarao para a imprensa sobre mais esta blitz do Juizado de Menores! As crianas no vo poder ficar aqui,  isso? 
Para onde sero levadas? Tem algum telefone para os pais obterem informaes sobre as filhas? - perguntou uma reprter, seguida de um mar de jornalistas, que apareceram 
no se sabe de onde, todos falando ao mesmo tempo, uma confuso.                                                                                
De repente, no mais que de repente, vrias luzes de equipes de teve foram acesas de uma s vez. E a noite virou dia na porta do hotel.
A torcida do trio, bvio, consistia em fazer pensamento positivo para o Juiz no aceitar dar entrevista naquele inicio de madrugada. Afinal, no queriam, ou melhor; 
no podiam, em hiptese alguma, ser vistas na televiso dormindo na rua, na frente de um hotel. Deram as mos e pensaram em coro: "Ele  tmido, est cansado e no 
vai falar com a imprensa! Ele  tmido, est cansado e no vai falar com a imprensa! Ele  tmido, est cansado e no vai falar com a imprensa!"
Mas de nada adiantou. Sua excelncia a-do-ra-va uma cmara e estava cheio de amor para dar.
- Pode filmar, claro. Mas pea para o cinegrafista me pegar desse lado, meu perfil direito  um horror, nada fotognico. E, j sabem, ningum pode mostrar o rosto 
das meninas, elas so menores - ordenou ele, com a desenvoltura de quem d entrevista pelo menos duas vezes por semana.
Um alvio para as resendenses, que imediatamente comemoraram com um "Yes!" bem baixinho.
Doutor Miro Montalban caprichou para aparecer. Ajeitou a roupa, endireitou a gravata, abriu e fechou a boca vrias vezes, pigarreou, inflou o peito e comeou:
- E um absurdo meninas menores de idade dormindo na calada a essa hora da noite, por causa de um bando de artistas estrangeiros que no sabe, nem nunca vai saber 
que elas existem. Pois o Juizado de Menores sabe! Essas crianas so muito importantes para ns!
Enquanto isso, o trio continuou na onda de pensamentos positivos. Desta vez Gabi, a mais mstica do grupo e a que comeou com essa histria de "pensamentos alegres", 
disse a frase que viraria mantra na cabea das meninas logo em seguida: "No fale da gente! No fale da gente! No fale da gente! No fale da gente!"
- E para onde as crianas sero levadas? - quis saber um outro reprter.                                                           - Lugar de criana  na escola 
e na casa dos responsveis, brincando e estudando, estudando e brincando. As que moram por perto ns deixaremos em suas casas. As demais, como esse trio aqui, que 
so de outros municpios, vo comigo para o Juizado de Menores. De l eu entrarei em contato com os pais e pedirei que venham busc-las amanh.
Nao! No podia ser! Aquele juiz tinha de calar a boca rpido! Recomearam com os pensamentos positivos, dessa vez numa velocidade maior do que de carro de Frmula 
I. Manu repetia mentalmente, sem parar: "No fale que a gente  de Resende! No fale que a gente  de Resende! No fale que a gente  de Resende!" e Ritinha, por 
sua vez, dizia baixinho "No fale mais da gente! Quero minha me! No fale mais da gente! Quero minha me!".
- E como o senhor se sente ao ver crianas que nem moram na cidade dormindo na rua, jogadas ao relento? Onde esto os pais dessas crianas, doutor Miro? - questionou 
uma reprter enxerida.
- Isso eu j no sei responder, querida. O fato  que elas esto aqui e eu vim tir-las da rua. Basta por hoje, est tarde e essas meninas precisam dormir dignamente.
- Obrigada, excelncia, j, j entra no ar. 
Um segundo de silncio e... 
- Yesssl Escapamos! Acabou a entrevista! - comemoraram as trs, baixinho.
Ritinha no segurou a curiosidade e perguntou para a reprter:     
- Vai passar em que jornal?
- Ah, em todos, se duvidar. S se fala nesse show! 
- Caraa! - exclamou. - Ento, dona reprter, no se esquea do que o juiz falou. As nossas caras no podem aparecer! 
A Preocupao era totalmente cabvel. Os pais descobrirem pelo juiz que elas dormiram na rua j seria uma lstima, se Resende inteira ficasse sabendo pela tev seria 
o mico da dcada, do sculo, do milnio.
- No precisa se preocupar, temos aquele recurso de compor que deixa tudo nublado. Tchau e boa sorte - despediu-se a jornalista.
Era o que bastava para elas sarem de l certas de que, pelo menos na tev, no apareceriam. Foram para o micronibus.
Assim que ele partiu, Ritinha perguntou para as amigas:            
- Mas, afinal, o que  que  Juizado de Menores, hein?
- Priso de crianas, ora - brincou Manu, apesar do nervosismo.
- Meu Deus do Cu! E isso mesmo, ento? No falei? Estamos perdidas! Como assim?! Vamos ficar presas por quantos anos?
- Calma, Ritinha! Eu estou brincando! Voc achou que eles iam fazer mingau com a gente? Pare de viajar! No ouviu o juiz falar? Ele vai ligar para os nossos pais.
Aquela ltima frase ecoou solitria na mente das amigas. S ento caiu a ficha e as trs concluram: estava tudo acabado. Os pais saberiam de tudo, elas tomariam 
a maior bronca de suas vidas, ficariam de castigo, seriam privadas de um monte de coisas. Onde estava Babete naquela hora, para dizer como se escapa de uma roubada 
tamanho famlia?
O nibus lotou com garotas vindas de vrios bairros do Rio e de outros municpios. Tinha gente de Queimados, So Conrado, Vilar dos Teles, Botafogo, Tijuca, Pedra 
de Guaratiba, Xerm e outros lugares de que elas nunca tinham ouvido falar.
A cada parada do micronibus, novo sermo do doutor Miro Montalban. Ele no era fcil. No s acordava os pais ou responsveis como os obrigava a aparecer na porta. 
A falava, explicava, gesticulava at cansar. Das poltronas, as meninas assistiam  cena do lado de fora em silncio. Os olhos tristes agora ostentavam olheiras 
e o suor das mos misturava-se com as lgrimas que enxugavam do rosto.
Mesmo no tendo de encarar as mes naquela noite sabia que mais cedo ou mais tarde passaria pelo (pavoroso) momento de ver os pais levarem um pito tamanho famlia 
de um Juiz.
E como gostava de dar bronca o doutor Montalban! 
Com os olhos vermelhos, de choro e de sono, Ritinha deixou escapar em voz alta o que passava por sua cabea:
- Esse juiz vai brigar com o meu pai. E por minha causa! Imagine o que vai sobrar para mim depois. Papai  turro, pavio curto. Quando est com raiva, vocs sabem, 
 um trator. Que medo est me dando!
- Calma, Ritinha, no fique assim - consolou a amiga Gabi. Na quinta parada, a maioria das meninas j havia cado no sono, inclusive o trio mais azarado de Resende. 
Devem ter levado, por baixo, umas trs horas sentadas naquelas poltronas. Suas bundas j estavam quadradas.
No fim da excurso forada, sobraram no nibus Ritinha, Manu, Gabi e mais umas seis gurias que tambm moravam bem longe. Chegando ao Juizado, onde doutor Miro j 
havia avisado que passariam o resto da madrugada, acordaram com flashes de cmaras fotogrficas.
Alguns fotgrafos, cinegrafistas e reprteres com seus microfones, celulares e gravadores brigavam para chamar a ateno do juiz, que, por incrvel que parea, no 
deu a menor pelota, para alvio das meninas. Afinal, alm de no quererem pagar mico em rede nacional, no suportariam a idia de aparecerem na televiso descabeladas, 
amassadas, desajeitadas e sem gloss.
De repente, quando os seguranas do juizado tentavam controlar os jornalistas para que o juiz e as meninas pudessem descer, uma mulher berrou:
- Eu quero a minha filha! Cad a minha filha?
No mesmo instante, cmaras, microfones e afins voltaram-se para a direo da voz, vinda de uma me que corria esbaforida. Ningum entendeu nada. Mas, da janela, 
Ritinha avistou o inesperado e congelou.Era a me de Gabi.
Logo atrs, vinha o pai de Gabi. Mais atrs, a me de Manu. E sua prpria me. A confuso estava armada. E elas no tinham sada.
- Ah, no pode ser! Nossos pais esto a fora! E agora? O que a gente faz? Estamos encurraladas, no temos nem para onde fugir! - desesperou-se Ritinha.
- Qu? Como? No pode ser verdade! Como eles vieram parar aqui? - estrilou Manu.
- Nossos Pais?! No acredito! Minha me vai me esfolar viva, vai tirar minha mquina de costura e me proibir de ir ao cinema. Querem apostar quanto?
- Duvido que ela faa isso com voc, Gabi. Mas a minha me... acho que vai me entregar para o meu pai para ele me dar unas palmadas de chinelo no meio da rua. Nem 
me machucam, mas, se for em praa pblica, vou ficar trancada em casa de vergonha pelo resto da vida! - Ritinha entrou em pnico. 
- Ai, gente, calma! O que est me intrigando  como eles nos descobriram. O juiz nem perguntou o telefone das nossas casas... 
Com os olhos arregalados, as trs aguardavam a prxima cena daquele filme inacreditvel. O que aconteceria a seguir? O que seus pais fariam? Eram tantas as questes 
a serem esclarecidas... a resposta da ltima veio logo. As mes, alucinadas, histricas, irritadas, j haviam avistado as filhas e comearam a bater no nibus e 
a gritar o nome delas.
- Abaixe esse microfone. Tire essa luz da! - Ritinha tentava se comunicar com os reprteres, esquecendo que de nada adiantaria, j que uma janela que no se abria 
a separava deles.
Encurraladas, Manu, Gabi e Ritinha afundavam-se cada vez mais nas poltronas. No conseguiam encarar os pais de jeito nenhum. O juiz decidiu saltar. Sua inteno, 
como ele mesmo anunciou para as meninas, era conduzir os pais  garagem do Juizado e controlar a algazarra.
No foi possvel. Quando a porta do veculo se abriu, 0 magistrado foi empurrado sem d nem piedade pelas mes das meninas, que invadiram o nibus aos berros, seguidas 
imediata-mente pelos reprteres que faziam planto na porta do Juizado, j que as ltimas atitudes do doutor Miro andavam repercutindo bastante.
Os jornalistas empurravam uns aos outros em prol da melhor imagem. Teve at cinegrafista escalando o micronibus para filmar a ao do teto. Aquilo ia sair em todos 
os jornais, em todas as revistas, em todos os canais de televiso. A pergunta que no queria calar ainda era "Como nossos pais descobriram?", e partiu de Manu assim 
que sua me se aproximou.
- Primeiro, foi a dona Eullia, que telefonou uns dez minutos depois de voc. Queria pedir desculpas por no ter conseguido chegar ao Rio, disse que o problema com 
o carro foi to grave que ela teve de voltar para Ub. Havia tentado falar conosco antes, mas no tinha conseguido. Tambm estava muito preocupada porque no conseguia 
falar com vocs no apartamento. E no telefonema voc tinha me dito que ela no podia falar comigo porque estava apertada! Francamente, Manuela! Liguei na mesma hora 
para a Iara e para a Ceclia. Depois liguei para o celular da Babete, que, na minha iludida imaginao, era quem tinha ficado tomando conta de vocs. Pois atendeu 
algum que eu nem conheo e me disse que ela estava em Angra! Em Angra! 
Maria clara parecia muito, muito, muito brava. Manu nunca tinha visto a me assim.
Fiquei chocada por vocs terem ido ao show sozinhas, numa cidade que no conhecem e que anda to perigosa. Quanta irresponsabilidade! Voc ia se ver comigo quando 
chegasse em casa, mas pelo menos eu achava que vocs estavam seguras, dormindo no apartamento do Davi. Nunca, nunca esperava que filha estivesse dormindo na rua 
que nem mendiga, sem a menor segurana.  
- E tem mais uma coisa - intrometeu-se Iara, a me de Gabi, tambm irada -, vocs apareceram no planto da Globo. Quer dizer, vocs no. Suas roupas. Eu percebi 
logo que era a Gabi por conta do casaco "Eu Amo Resende", que ela mesma bordou. Londres, minha filha, pode esquecer. S quando voc puder pagar. E com o seu trabalho, 
no  com mesada, no. 
Gabi arregalou os olhos e suplicou: 
- No, me! Eu, voc e o papai estamos economizando h tanto tempo! Meu sonho  ir para Europa quando fizer quinze anos! Meu maior sonho...
- Sonho adiado, filha. Sinto muito. A culpa  sua, voc cavou isso. Por que voc no se mobiliza para costurar para fora? No gosta tanto de inventar moda? Assim, 
quem sabe, voc ocupa a cabea decentemente em vez de correr atrs de celebridades fabricadas.
A bela baixou os olhos e ps-se a chorar baixinho. Sentia-se humilhada, maltratada, injustiada.
J a me de Manu, Maria Clara, 42 anos, bronzeada artificialmente, duas lipoaspiraes e trs horas dirias de malhao, para l de sarada, emendou:
- E eu reconheci voc pelo relgio que lhe demos no Natal passado. Era um de edio limitada da Nike, que compramos na viagem aos Estados Unidos. Que vergonha Manuela! 
Que vergonha!
Ceclia, por sua vez, soube que Ritinha estava na sua frente, na tev, quando observou o par de meias lils com um rombo imenso nos dois ps, um pouco acima do tornozelo. 
- S a minha filha seria capaz de guardar - e usar! - uma meia nesse estado de calamidade, com vrios outros pares na gaveta. Esta  a Ritinha, senhoras e senhores! 
Ela escolheu, por livre e espontnea vontade, trazer para uma viagem uma meia furada h anos. Onde foi que eu errei, meu Deus? - lamentou-se, enquanto puxava a orelha 
de Ritinha para todo o Brasil assistir. 
- Ai, me! Menos, por favor, menos! Vamos conversar isso sem um monte de pessoas em volta? E voc no sabe que esta  a minha meia da sorte? Eu s uso em ocasies 
especiais, por isso quis ver o show com ela.                                                                  
- Sabe o que seu pai quer? Confiscar seu skate por tempo indeterminado e tirar o som do seu quarto para voc nunca mais ouvir msica em casa. E ainda disse que vai 
destruir todos os seus CDs e tudo o que for desse grupo idiota, inclusive os psteres, as fotos e os recortes que voc coleciona.  fanatismo besta!
Ritinha ficou passada. Aquilo era mais do que castigo. Era tortura, humilhao, pior do que o pior pesadelo. Ficar sem skate j seria duro. E ficar sem ouvir msica 
em casa? Msica era sua maior paixo. Ouvia quando estava alegre, quando estava triste. Ritinha se debulhou em lgrimas, no maior berreiro. E sua me l, impassvel.
As trs no conseguiam acreditar que foram capazes de dar tanta bandeira. Tambm, quando iriam imaginar que seriam filmadas e apareceriam no Planto da Globo com 
roupas e acessrios que entregariam o ouro aos bandidos, quer dizer, aos pais?
Os fotgrafos e cinegrafistas pareciam cada vez mais animados. Tanto que a luz na cara e o calor comearam a beirar o insuportvel micronibus. Os jornalistas queriam 
saber tudo, tu-di-nho, desde se elas tinham namorado at qual era a mdia de cada uma na escola.
- Como surgiu a idia de vocs dormirem na rua? - perguntou uma reprter.
- E por que algum usaria meia furada tendo outras na gaveta? - quis saber um careca espremido pela muvuca.
- Isso no  da sua conta, seus enxeridos! - respondeu Ritinha, com o nariz igual a um pimento de tanto chorar.
- Por que fizeram isso com a gente? Por qu? Como podem ser to mal-agradecidas? Ns damos a vocs tanto amor, tanto carinho e  isso que vocs nos do em troca? 
No adianta, filhos s do valor para os pais depois que eles morrerem. Fazem questo de tratar a gente como um pano de cho sujo - fez dramalho mexicano a me 
de Gabi.
- Calma mezinha. A gente vai explicar tudo em casa, prometo. Mas a culpa no foi nossa! Juro! Estamos muito arrependidas!
E estavam mesmo.
Mas sabiam que alm de arrependidas estavam em apuros. E, pior, comearam a colocar a culpa umas nas outras. Tudo muito sussurado, claro. No queriam chamar ainda 
mais a ateno. 
- No acredito que voc trouxe para o Rio um par de meias furado. Que pateta voc , Ritinha! - implicou Gabi.                             
- E voc, que  toda metida a fashion e trouxe um casaco breguinha, bordado? Quem  a pateta aqui? - rebateu Ritinha, muito enfezada.
- Calem a boca! No vamos brigar, n?- apaziguou Manu. - Me, reprteres, seu motorista, seu juiz... acho que a gente no tem nada a declarar agora.
- ! Ns no temos nada a declarar! Nadinha! - berraram Gabi e Ritinha em coro.
Em vo. Na mesma hora, a me de Manu aproveitou a presena das cmaras e soltou o verbo:   
- Pois eu tenho, sim, senhoras! - reclamou Maria Clara, enquanto ajeitava o cabelo e caprichava na pose e no bico.
Manu apavorou-se com o que estava por vir. O clima no podia ser mais tenso. Maria Clara continuou? 
- O que vocs fizeram foi imperdovel, muito feio mesmo. Traram nossa confiana e, j vou avisando, vai ser praticamente impossvel recuper-la! Ns estamos decepcionados 
com vocs. Podamos esperar qualquer coisa, menos uma traio dessas. E para ver um show! Que absurdo! - discursou, cheia de desgosto no olhar. - E a senhora, dona 
Manuela, vai ter de se explicar muito direitinho para mim e para o seu pai. Mas desde j est cortada a mesada! E roupas de grife, querida, nunca mais! Nunca mais, 
ouviu bem? Outros castigos viro, mas a gente pensa neles na estrada. Agora ande, levante. Vamos para casa, ande! Elas j podem ir, no , doutor Miro?
Manu no conseguiu sequer reagir. Estava to triste que no tinha foras para falar. Mal conseguia respirar, essa  a verdade. Parecia que ia explodir de tanta vergonha. 
J seria duro passar por tudo isso no anonimato, imagina em rede nacional! Por mais que se esforasse para no deix-las cair, as lgrimas venceram a batalha e comearam 
a rolar pelo seu rosto, uma atrs da outra.              
Acabou assim o maior sonho das meninas de Resende. Tinham pago um mico enorme na tev, o maior mico de suas vidas. Parecia um desses programas em que roupa suja 
se lava no estdio de televiso. Vergonha era pouco. Estavam humilhadas. Sentiam-se como a mosca que pousou no coc fedorento do cavalo do bandido condenado.
Foi difcil driblar a multido de jornalistas para sair do nibus. Todos queriam tirar mais fotos, fazer mais perguntas, um horror.
Quando finalmente conseguiram saltar - devidamente por doutor Miro Montalban, exausto e quase dormindo em p quela altura - caminharam sob o espocar dos flashes 
rumo  caminhonete do pai de Manu e ao carro da me de Gabi.
No longo trajeto, o silncio reinou por muito tempo. At Ritinha tentou se justificar. Explicou que s contaram as mentiras para no deixar as mes nervosas, para 
no preocup-las Sua me ignorou seus argumentos.
- A primeira coisa que vou fazer  ligar para essa Babete irresponsvel. Se no fosse ela, nada disso teria acontecido. Como ela deixou vocs sozinhas no apartamento 
desse tal Davi? Por qu? - repreendeu Ceclia.
- A Babete  maluquinha, sim, mas no teve culpa. Ela tinha uma festa-surpresa para ir em Angra - Ritinha tentou defender a amiga maluquete.
- Calada, Rita de Cssia! Eu no admito que voc me responda para defender essa inconseqente! Coisas horrveis podiam ter acontecido!
Toda vez que mes e filhas trocavam algumas palavras era a mesma coisa. Patada atrs de patada. Bronca atrs de bronca. Sermo atrs de sermo. Pito atrs de pito. 
Ao que tudo indicava, demorariam bastante tempo para esquecer o episdio.
Chegaram a Resende na manh de domingo, o cu comeando a clarear. Foi cada uma para sua casa, direto para o quarto. Os pais ficaram de pensar em mais castigos. 
Estavam to, mas to zangados, que queriam dar para as filhas uma lio inesquecvel.
Trancadas no quarto permaneceram at a noite, com os olhos e o nariz inchados depois de tanto choro. s oito, as mes suspenderam momentaneamente o castigo para 
que as filhas assistissem  televiso, o que pareceu a todas muito, muito estranho mesmo.
Ritinha que desde a chegada no trocara um olhar sequer com o pai, sentou-se no cho de sua sala, bem em frente ao aparelho de teve. Gabi, que durante as horas em 
que permaneceu trancada pegou sua caixinha de costura e bordou numa camiseta rasgada a frase "Eu vou ser independente um dia", obedeceu, mas no olhou para os pais. 
Achava um exagero aquele castigo. Sentou-se de nariz empinado na sua poltrona de sempre, curiosa, louca para saber o que a me tanto queria que ela visse na telinha.
Manu, por sua vez, ficou no quarto revendo os recortes, que guardava sobre o grupo havia anos e chorou ao pensar que Babete tambm no seria poupada dos gritos do 
trio de mes enlouquecidas de raiva. Foi para a sala sem dar um pio.
Em pouqussimo tempo, o silncio deu lugar ao espanto. No era todo dia que a manchete do Fantstico tinha um contedo to familiar.
- Voc faria qualquer coisa por um dolo? Trs meninas de Resende, no estado do Rio, estavam dispostas a fazer de tudo pela banda mais famosa do momento, os Slavabody 
Disco-Disco Boys. Mas nada deu certo para elas. Alm de serem flagradas pelo juizado de menores, dormindo na porta do hotel onde o grupo estava hospedado, levaram 
uma bronca dos pais em rede nacional. Conversamos com psiclogos, professores, autoridades, dolos da garotada e com os pais das fs para saber que amor  esse que 
leva adolescentes do mundo inteiro a cometerem as maiores loucuras. E descubra tambm o que a gente famosa j fez para chamar a ateno de um dolo. J, j, na nossa 
matria de capa "Tudo por um pop star" - anunciou o apresentador do programa.
Glup!
As trs ficaram sem palavras diante da televiso. Estupefatas, estatuas. Elas seriam assunto do Fantstico e, pior, seus pais sabiam de tudo e no contaram nada!
Agora, sim, o pior estava para acontecer. Resende, o Brasil, e, principalmente, as crianas do Educandrio Professor Jos Fernandes de Oliveira Raposo Barros Matthias, 
colgio e, que estudavam (e chamavam carinhosamente de Z), saberiam de tudo.
- Pode bufar o quanto quiser, mas, antes de vocs chegarem ao Juizado, uma equipe da Globo nos chamou num canto e pediu para nos entrevistar primeiro, antes dos 
outros reprteres que se acotovelavam perto da entrada. Queriam fazer uma reportagem sobre essas loucuras de tiete. Topamos na hora. E no me olhe com essa cara, 
achamos que vocs mereciam essa fico - explicou a me de Manu.
A reportagem foi enorme. No enorme, mas enorrrrme. Ganhou chamadas e mais chamadas no decorrer do programa e, antes de cada intervalo, annimos de vrias cidades 
brasileiras respondiam se realmente seriam capazes de tudo por um pop star. Alm de entrevistas, a matria apresentou, para total desespero das meninas, trechos 
do barraco que aconteceu dentro do nibus, quando levaram uma baita bronca e puxes de orelha sob o foco de vrias cmaras.
Quando o dominical acabou, Manu. Ritinha e Gabi passaram, finalmente, a ter noo da dimenso do que acabara de acontecer. Sabiam que seriam motivo de chacota por 
muitos e muitos anos. Com essa constatao, veio a certeza: colgio, no dia seguinte, de jeito nenhum!
As mes, obviamente, sequer cogitaram a possibilidade de suas meninas no irem  escola. Fora de questo. E fim de papo. 
- Voc s pode estar brincando. A maresia deve ter deixado voc tonta desse jeito, a ponto de me pedir para no ir  escola. Imagine! Ajoelhou tem que rezar - reagiu 
a me de Manu.
- Mas...
- No tem mas, nem meio mas, Manuela! Voc vai  escola e ponto final. Eu sou sua me e voc me obedece,  assim que funciona! E ser assim enquanto eu pagar as 
suas contas. Ande, se mexa, no quero que voc fique parada na minha frente me olhando com essa cara de peixe morto. V para o seu quarto, v!
J na casa de Ritinha, o clima era mais ou menos o mesmo, s que um tiquinho pior:
- V para o quarto, Rita de Cssia! Est bom por hoje! J me fez passar muita vergonha, vai ao colgio, sim, senhora! - decretou Ceclia. - Eu espero que voc esteja 
feliz com o resultado da sua mentira. Se o que voc queria era deixar seu pai triste e decepcionado, parabns. Ele demorou tanto para deixar voc ir a esse show, 
no merecia essas mentiras, essas atitudes irresponsveis... est to chateado que no consegue se sentir bem na sua presena. Desculpe, filha, mas foi voc quem 
procurou isso.
Ritinha saiu da sala e foi correndo para o quarto, derramando rios e rios de lgrimas pelo corredor.
Em sua casa, Gabi bem que tentou, mas no convenceu os pais com seus argumentos de que "errar  humano" e coisa e tal: 
- Vocs sempre foram to maneiros, so os pais mais legais que eu conheo! Vocs no erraram quando eram mais jovens? Vocs no podem fazer disso uma tempestade 
num copo d'gua. Erramos, sim! Mas j pedimos desculpas. E voc j foi f fantica, me... do Roberto e do Erasmo, do Tom, do Vinicius, da Elis, do Chico... Vai 
dizer que no foi?
Os pais ouviam atentamente. Sem demonstrar um pingo de pena.
-  hora de conversarmos sobre o castigo, a punio, sobre o esforo de vocs para nos convencer de que fizemos a coisa mais horrvel e abominvel do mundo. At 
parece! A gente no estava se drogando, a gente no estava pichando muro, a gente no estava roubando, Deus me livrei A gente no fez quase nada de errado! A culpa 
no foi nossa, ns fomos obrigadas a mentir e a omitir alguns fatos para no perder a chance de ver os nossos dolos de perto! No tinha jeito, ns estvamos com 
os ingressos na mo! Quem j foi f como voc, me, sabe que amor  esse... - discursou Gabi.
Estava inspirada a danadinha. Mas a resposta de sua me foi um balde de gua fria e comeou com aquela frase intimidadora e um tanto irritante que todo mundo j 
ouviu muuuuito na vida.
- J para o quarto! Muito bonito, mas no nos convenceu! Chega de nhenhenhm! Voc tinha a obrigao de ligar para dizer o que estava acontecendo, Gabriela - irritou-se 
Iara. -- Amanh acordo voc s seis horas, como sempre. Mas sem chocolate gelado na cama. A partir de agora, nada de mordomia! E no perca mais tempo tentando nos 
convencer de que voc e suas amigas no fizeram nada de errado. D um beijo no seu pai, ele vai embora daqui a pouco.
Gabi obedeceu com um beijo murcho e foi para o quarto cabisbaixa, assim como Ritinha e Manu, achando os pais as pessoas mais duras, injustas, cruis, insensveis 
e desumanas da face da terra.
No dia seguinte, para certificarem-se de que o trio no as enganaria mais uma vez, as supermes decidiram levar suas filhas de carro, j que at as bicicletas estavam 
confiscadas. L em Resende, ningum ia de carro para a escola, s de bicicleta. Portanto, foi um certo mico chegar no colgio com a me. E naquele momento, elas 
fugiam de mico como gato foge de banho.
No porto, algumas dezenas de crianas esperavam as agora famosas alunas. Queriam fazer perguntas e, pior, tirar um sarro da cara delas, falar frases de mau gosto 
e implicar, apontar e cochichar at dizer chega. Tambm riam muito, como se nada no mundo fosse mais engraado do que o trio. Era humilhante.
Ritinha chegou primeiro e atravessou correndo, de cabea baixa, o tnel de mos e gritos que se formara do lado de fora do colgio. Gabi preferiu implorar para a 
coordenadora deix-la entrar pela porta dos fundos. Pedido atendido. Afinal, era totalmente compreensvel a menina no querer passar ainda mais vergonha.
Manu, por sua vez, passou pela pequena multido de cabea erguida e com a certeza de que ela e as amigas eram, de longe, as pessoas mais corajosas da cidade. Portanto, 
no tinham nada do que se envergonhar. Tudo bem, no deu certo. E da? Pelo menos tentaram.
Na hora do recreio, as trs se encontraram na cantina e foram para baixo de uma rvore lanchar. A todo momento parava gente chata para perguntar como tinha sido, 
para fazer piadinhas sobre o assunto, para falar que os meninos do Slavabody no cantam nada, e por a vai. Manu tentou fazer Gabi e Ritinha pararem de baixar a 
cabea.
- Ns no fizemos nada de to grave, meninas! No demos sorte, s isso. E nossos pais j foram crianas um dia, tambm mentiram para os nossos avs, aposto. Ns 
provamos que conseguimos sobreviver sozinhas, passar a noite no escuro e no sereno, num cho frio. Aprendemos que devemos tomar mais cuidado com as coisas importantes, 
para no perd-las e para no passar por perrengues.
- Ah, t. T bem. Manu. Agora a piada do portugus, por favor, porque essa no teve graa - debochou Ritinha.
-  srio! Posso contar um segredo para vocs? Eu me sinto uma pessoa bem melhor depois desse fim de semana. E queria muito que vocs tambm se sentissem assim. 
Vocs so as amigas que eu mais amo nessa vida e odeio ver vocs tristes. Quero que vocs percebam, como eu, que essa viagem serviu para mostrar que nossa amizade 
 mais importante do que qualquer dolo. Dormimos e acordamos juntas, nos divertimos juntas, sofremos juntas, choramos juntas, sentimos medo juntas e nem conseguimos 
ver os Slack e companhia. Mas, em compensao, ficamos ainda mais amigas. No acham?
- Muito bonito isso que voc falou, mas eu no queria que as pessoas soubessem quem eu sou por causa de um mico! Um gorila, isso sim! - resmungou Ritinha. - Desculpe, 
gente. Estou nervosa, meu pai no est nem olhando na minha cara. Est com muita raiva de mim. Anda emburrado o dia inteiro e no fica no mesmo ambiente comigo de 
jeito nenhum. Se eu chego na sala, ele vai para o quarto; se eu entro na cozinha ele vai para o quintal, e assim por diante. Ele no quer nem jantar na mesa comigo 
e com a mame, que  uma coisa que de sempre prezou. Agora pede para levar a comida dele na cama. Parece at que assaltei um banco e estou fugindo da polcia.
-Ai, ai! Estou to cansada... Vamos dormir na porta do hotel? Assim aumenta a chance de os Slavobregas saberem que nos existimos! - provocou um menino boboca que 
passou por elas.
- Manu! Voc sabia que fica feia na televiso? - gargalhou outro menino, com o aval de outros trs, antes de sair correndo.
Pouco depois, Danielle, a aluna mais sebosa e mais insuportvel do colgio, chegou com seu squito perto do trio e deu uma olhada esnobe de cima a baixo em cada 
uma delas para depois abrir a boca:
- Tsc, tsc, tsc. No sei como conseguiram vir  escola depois que aconteceu. Eu estou com vergonha de estudar com vocs. Todo mundo est. Ningum quer chegar perto 
das trs otrias, j repararam? Vai que uma equipe de televiso est gravando? Alis, eu ainda no entendi, o mico do sculo aconteceu por azar ou burrice, hein?
- Acho que foi burrice, Dani. Meia roxa furada? Camisa bordada com 'Eu Amo Resende'? Burrice total, Se isso no  burrice  o qu? Elas mesmas se entregaram para 
os pais! - completou Natasha, a melhor amiga de Danielle, e to insuportvel quanto.
- Minha me disse que quem corre atrs de dolo  otrio - concluiu Danielle.
- Escute aqui,  sua...
Em vo. As sebosas j tinham dado meia-volta e lhes virado as costas. Elas estavam mal. Sentiam-se acuadas, acanhadas, amedrontadas com a crueldade dos colegas. 
No era para menos. Parecia que as coitadas tinham uma doena contagiosa, gravssima. Ningum queria se aproximar delas, s mesmo para debochar. Situao constrangedora. 
O sinal anunciou o fim do recreio antes mesmo que elas respondessem as afrontas. De volta  sala de aula, professores no paravam de aplicar sermes nos alunos por 
causa da "armao" de Ritinha, Manu e Gabi. Na sada, os alunos seguiam cruis, atacando as amigas com mais agresses verbais.  
Em casa, os pais continuavam os mesmos: distantes, frios, indiferentes. Cada uma foi para o quarto tentar dormir um sono no mnimo calmo, sem pesadelos. Gostariam 
de conseguir dormir por cinco, dez, quinze dias, anos, talvez. S para as pessoas esquecerem que elas existiam. Precisavam dormir bem, sabiam que o dia seguinte 
seria to ou mais duro do que aquele. Sentiram na pele o quanto crianas e adolescentes podem ser cruis. Tinham de repor as energias para enfrentar com dignidade 
e cabea erguida as provocaes da maioria dos alunos.
Acordaram, tomaram caf e seguiram para a escola. As piadinhas e hostilidade foram as mesmas e os professores ainda discursavam em prol da obedincia e da lealdade 
aos pais.
Ao chegar do colgio. Manu, como de praxe, espalhou tnis e meias por todos os cantos, e trancou-se no quarto para ouvir msica. No comecinho da tarde, o inusitado 
aconteceu.
O pai no trabalho e a me acabara de chegar da academia. O interfone tocou. Com Maria Clara no banho e Manu com o volume do som nas alturas. Ondina, a faz-tudo da 
famlia, atendeu. Foi correndo avisar  dona da casa quem estava do lado de fora, pedindo insistentemente para Manu descer.
- Dona Maria Clara!  a Babete querendo falar com a Manuela!
- Qu? - gritou a me de Manu do chuveiro.
- A Babete est ai fora! Quer porque quer falar com a Manu! - gritou novamente Ondina.
Manu no conseguiu entender tudo o que a empregada disse para sua me, mas ouviu o nome Babete. At ento ela no havia conseguido falar com a prima, a me a proibira 
de usar o telefone.
Levantou-se num pulo e correu para saber o que estava acontecendo. Sentia-se na obrigao de explicar para a prima os detalhes do desastre em que a viagem se transformara. 
Queria abra-la, pedir desculpas por ter perdido a chave do ap do Davi, tantas coisas...
Quando se aproximou da cozinha, a surpresa. Pingando, de roupo e toalha na cabea, Maria Clara j passava um pito via interfone em Babete.
- No insista, garota! Eu no quero mais saber de voc conversando com a Manuela. Achei que tinha sido bem clara quando falei com voc ontem. Esquea a minha filha! 
E me deixe em paz! Por favor!
Ao ouvir a me, Manu ficou indcil. Pensou em furar o castigo e sair correndo rumo ao porto, ignorando as conseqncias de um ato como esse, mas pensou tambm em 
contar at dez para esquecer que sua prima queria v-la. A segunda opo talvez fosse a mais acertada, j que Maria Clara no estava com a menos pinta de que permitiria 
uma nova aproximao entre Manu e a filha de sua irm to cedo. Mas no custava tentar.
- Me, eu preciso falar com ela, eu imploro!
- Nem pensar, Manuela! Tchau, Babete, tenho muitos afazeres.
- Me, por favor! Prometo que nem saio de casa. A gente fica conversando no porto. Eu devo uma explicao para ela!
- Que explicao, o qu? Para essa doida que deixou vocs sozinhas? No senhora! Crianas no saem de casa quando esto de castigo!
- Mas foi voc que me ensinou a dizer "obrigada" para as pessoas que me ajudam. Ela nos levou para o Rio, deu para todas ns de presente os ingressos do show e arrumou 
o apartamento do Davi para a gente se hospedar. Isso pode no dizer nada pra voc, mas ela foi muito bacana, me ensinou a me virar naquela cidade enorme. Se no 
fosse a Babete, coisas muito piores poderiam ter acontecido e, alm disso...
- Ai, t bom, Manuela. Chega! Odeio drama! Voc desce. Mas eu tambm! Espere que eu vou botar uma roupa.
As duas desceram em silncio a pequena rampa que separava a casa do porto. Manu, sem conseguir encarar a me e com o olhar fixo para o cho, no via a hora de pedir 
desculpas para Babete.
Quando abriram o porto, Manu deu de cara com a prima, que estranhamente ria de orelha a orelha, ao lado de duas vans com vidros indevassveis. Manu e a me ficaram 
cabreiras. E o Maneco, onde estava?
- Oi, tia Macl. Oi Manu! Antes de voc falar qualquer coisa, prima querida, tenho uma surpresa maravilhosa para voc! Est preparada? Ih, acho que no. tenho certeza 
que voc vai querer chorar ou fazer uma daquelas coreografias sem graas - brincou Babete, enigmtica, pouco antes de dar um assobio alto e gritar, na direo da 
van:
- Chegou a hora de deixar a Manu de boca aberta, galera! Come on, boys! Hurry up!

O desfecho 
Imediatamente depois do chamado para l de entusiasmado, a porta da van se abriu como mgica. Primeiro saiu o Slack (o Slack! o dolo dos dolos, o melhor dos melhores, 
o papa do pop, o pop em pessoa!), vestindo um jeans rasgado com uma camiseta e um casaco preto bem largado. Depois, o Julius, barbinha por fazer (liiiiiiindo!), 
envergando uma cala cargo caqui e uma blusa de turista, com o calado de Copacabana e muitos coqueiros. J Michael deu o ar da graa com camiseta verde-musgo, 
jeans largo desbotado e uma bandana roxa que cobria parte da vasta cabeleira, seguido de perto por Alexander (a quem Babete j se referia, muito ntima, como Alex), 
todo de preto, com um tnis vermelho e caramelo.
No eram ssias, no era pegadinha e muito menos piada da mais adorvel doidinha de todos os tempos. Os Slavabody Disco-Disco Boys estavam em Resende, na porta da 
casa da Manu, em carne, osso, bandanas, culos escuros e pose de celebridade. Ao alcance da mo. 
Como a prima previu, Manu levou um choque. Ficou boquiaberta, os olhos arregalados, absolutamente imvel. Claro que queria se jogar no colo deles, mas parecia ter 
criado razes no porto de casa. No conseguia expressar nenhum tipo de reao. Aos poucos, comeou a chorar de emoo. Bem diferente da filha (e muito mais desinibida 
que ela), Maria Clara imediatamente abriu o porto, ajeitou o cabelo, subiu a saia, empinou o peito siliconado, caprichou no biquinho, pegou Manu pelo brao e foi 
na direo de Babete.
Mil perguntas passavam pela cabea de Manu. Por que eles tinham ido  sua casa? Como chegaram l? O que queriam com ela? E o que Babete tinha a ver com essa histria 
inacreditvel?
Quando chegou mais perto dos olhos azuis e de todo o resto de Slack Tom Tompson, ganhou dele um sorriso aberto, sincero finalmente desprendeu-se da me, deu um gritinho 
de f e correu para tascar no cantor um beijo e um upa apertado daqueles. Chorou de soluar abraada ao astro dos astros e comeou a soltar as perguntas para a prima, 
que respondeu assim:
- Calma, eu vou explicar. Eu estava voltando para casa quando parei para dar comida para o Maneco, j aqui em Resende - comeou Babete que, diante do semblante confuso 
de Maria Clara, explicou: - Para botar gasolina no carro, tia! Vi as vans estacionadas, mas nem dei bola - Enquanto o moo abastecia, fui comprar um sorvete na lojinha 
do posto e, na volta, um cara da produo do Fantstico se aproximou para perguntar se eu sabia onde moravam as meninas que apareceram no programa do ltimo domingo, 
se eu tinha alguma referncia, coisa e tal. Alis, que mico, hein Manu? Mas depois a gente fala sobre isso.
Manu ruborizou com o comentrio da prima. Mas o mico era passado e o presente estava to mais interessante... Babete continuou:
- Bom, quando disse que era prima de uma delas, eles ficaram contentssimos. Deixei o Maneco no posto e entrei numa van. Fomos at o heliporto buscar o Slack e os 
outros, que tinham acabado de pousar. So uns amores, viu? Viemos batendo papo, jogando conversa fora, falando da vida...                                        
- Sua sortuda! Depois quero saber detalhinhos desse papo "vida" que vocs levaram, viu? Mas o que eles vieram fazer aqui? Quis saber Manu, quicando de ansiedade.
- Ah, eles so muito bonitinhos. A matria do Fantstico foi luxuosa e deu tanto ibope, que a produo resolveu preparar um repeteco para a prxima semana. Por isso, 
trouxeram o Slavabody at voc e suas amigas. Como eles esto de frias at o show de Sampa, no s toparam fazer a reportagem, como vo pedir para os seus pais 
perdoarem vocs em rede nacional, olha
que coisa mais linda de me, que toisa mais totosa!
- Que coisa linda, que nada! Isso se chama marketing, querida. Bom para o programa, que ter ainda mais audincia no prximo domingo, e bom para eles, que, por conta 
desse episdio com as meninas, vo vender mais alguns milhares de discos no Brasil, que  um mercado para a indstria fonogrfica. So espertos esses meninos, isso 
sim. Mas tudo bem - disse Maria Clara. - O que importa  o seguinte: estou abatida, Babete? Com rugas? Ser que meu botox ainda est na validade? No minta para 
a sua tia - completou, ao perceber que dois cinegrafistas da emissora carioca registravam tudo o que se passava.
Nesse momento, Slack pediu para Babete dar uma de intrprete. Ela pigarreou, fez cara de metida e comeou:
- Slack diz que est honrado por ter trs fs especiais como voc, Gabi e Ritinha. Para ele, ser amado desta forma  a coisa mais importante para um artista. Ele 
nunca achou que aqui no Brasil, to longe dos Estados Unidos, poderia existir um grupo de meninas que at dormiria na rua pelo Slavabody, s para ficar mais perto 
deles. Agradece de corao o carinho e pede para a tia Macl reconsiderar o castigo porque tem certeza de que voc e suas amigas nunca mais vo mentir. No , Manu?
"Manu", Slack Tom Tompson disse "Manu"! O que quer dizer que sabia seu nome, melhor!, seu apelido. Se aquilo fosse sonho que ningum a acordasse. Mas no era. Agora 
agarrada com Julius e de novo aos prantos, prestes a assoar o nariz na camiseta do coitado do gringo, rebateu na hora:
- Nunca mais vou mentir para os meus pais, nem para ningum. Aprendi a lio, juro!
- E fala para ele que eu j perdoei! Pode dizer que o castigo no era srio, era s para ela no errar novamente. Ah. fala que eu sou f da banda tambm? - gritou 
Maria Clara, com os olhos brilhando, doida para ser notada e mostrar mais uma vez na telinha o corpo sarado, malhado e lipoesculturado.
Babete ignorou o comentrio da tia e continuou a traduzir o pop star.
- Ele est dizendo que o Brasil  um pas sensacional e que eles tm algumas surpresas para o trio de tietes. Mas s vo contar o que  quando estiverem com voc, 
Gabi e Ritinha juntas. Vamos passar na casa delas?
-Ai, meu Deus! Tem mais surpresa? Assim esses meninos me matam do corao. O que , hein?
- No sei, mas vamos logo pegar as duas!
- T! Vamboral Nossa, elas no vo acreditar! - empolgou-se Manu.
- Eu tambm vou! - decretou Maria Clara.
- Claro! Vamos! - disse Manu, estendendo a mo para a me.
Maria Clara s ficou tiririca da vida quando percebeu que deixara o celular no quarto e, portanto, no poderia ligar para todo mundo que conhecia para falar o que 
estava acontecendo. Deu um berro para Ondina e comunicou que daria uma voltinha com a filha e j voltava.
Partiram rumo  casa de Gabi, onde rolou o mesmssimo choror. A me tambm se emocionou, mesmo no tendo muita noo do que aqueles branquelos esquisitos representavam 
para o universo teen. A adolescente abraou e beijou demoradamente a bochecha de cada um dos integrantes, agarrou Manu, pulou e gritou de alegria, parecia uma perereca. 
Iara tambm entrou na van com a filha e sentou-se ao lado de Maria Clara para papear.
Ainda meio atordoadas com o turbilho de novidades e emoes, Manu e Gabi comemoravam, histricas. Gabi aproveitou a ausncia da mais nova do grupo e perguntou:
- Babete, Babete, voc no beijou nenhum deles na boca, n? 
- Nenhum? ... hum... assim ... quer dizer... bem... t. Beijei dois - revelou, com cara de sapeca, falando baixinho para as mes no ouvirem.
- Dois?! Precisava ser dois? Quem? Quem? Ai, caramba, quem?! - quis saber Manu.
- O Slack
- Pausa! Pausa! Paaaausa! Quem?!
As duas no resistiram ao baque da notcia e soltaram um gritinho agudo, estridente, longo. O motorista da van chegou a dar uma freada, quis saber o que tinha acontecido 
l atrs. A dupla pediu desculpas pelo transtorno e continuou o dilogo interessantssimo. Os astros, bvio, no entendiam lhufas do que elas conversavam, mas no 
paravam de sorrir, simpticos.
- Ai, qual foi o outro? Qual foi o outro? Qual foi o outro? - Gabi estava curiosssima, como se v.
- Xi, carambolal A voc me pegou! Gente, como  que  o nome do bofe? Esqueo direto... Ai, oba, lembrei, lembrei! Eu chamo de Alex para abreviar e porque  mais 
fcil, mas eu acho, veja bem, eu ACHO que  Alexandre. 
- O qu? Voc beijou os dois mais gatosl E no  Alexandre, doida!  Alexanderrrrrr! - disse Manu rindo. 
- Como voc no sabe direito o nome dele? Sabe l quantas meninas no mundo gostariam de estar no seu lugar? A, que inveja. Daqui por diante quando me perguntarem 
se tenho um dolo vou responder na lata: Babete, a sortuda! - empolgou-se Gabi.
 vido! E pensar que a dupla, ainda por cima, estava de mos dadas com os caras mais idolatrados e incensados do planeta. Fala srio! Mas as meninas queriam tanto 
saber mais da histria da Babete que, sem querer, deram uma ligeira esnobada no grupo-sensao, deixando-os em segundo plano por alguns minutos.
- Posso falar uma coisa? Sinceramente eu at entendo que para vocs, eles sejam algo do outro mundo, mas, acreditem eles so s garotos. Tpicos garotos americanos. 
Nos Estados Unidos d para encontrar vrios iguais a eles, na rua, nas faculdades, nas boates - discursou Labareda, sob o olhar incrdulo das amigas que, como tarimbadas 
fs fanticas, acharam aquela declarao insana, estapafrdia. Mas a maluquete tinha mais para contar: - E querem saber? O beijo deles  bem assim, assim. Beeeem 
decepcionante. Resumindo: uma lstima.
Uma lstima? O beijo do Slack e o beijo do Alexander? Menos, Babete menos!
Acostumada a dar bitocas em boquinhas famosas, a prima de Manu tratava a situao com uma naturalidade espantosa. E emendou:
- Mas eu no quero nada com nenhum deles, fiquem tranqilas. Foi s um beijinho de boas-vindas a Resende. 
- S um beijinho? Como assim "s um beijinho"? Deixa desdenhar, sua metida! - debochou Manu. - Agora vem c, preciso perguntar uma coisa, o Davi ficou muito chateado 
com a gente pelo sumio da chave? 
Babete respondeu, irritadssima:
- No sei nem se quero saber nada que diga respeito a esse tal de Davi, briguei feio com ele.
- No acredito! Por qu? Ele  to legal! E vocs so to amigos! - surpreendeu-se Gabi.
- Por qu? Porque em Angra ele aproveitou para perguntar o que eu achava da caa submarina. Eu disse caa submarina? Matar peixinhos por esportes! - descontrolou-se 
Babete. - Imagina se eu teria coragem de fazer uma coisa dessas? Fiquei uma fera. No consegui nem falar com ele depois disso.
Aquela era Babete, vegetariana convicta, confirmando a fama de doidinha e de beijoqueira de famosos e fazendo suas amigas mais novas voltarem a rir escancaradamente.
Chegando  casa da Ritinha, as meninas, juntamente com Babete, fizeram a maior baguna e os pais vieram imediatamente a porta. Seu Onofre, forte candidato ao posto 
de Pai Mais Turro do Mundo, transformou-se na frente dos astros - e das cmaras de tev. O que a vaidade no faz? Na frente de quatro celebridades internacionais 
e sabendo que apareceria na tela da Globo, no  que o duro amoleceu?           
Em poucos segundos e com um sorriso forado que deixava  mostra todos os dentes, ele se deixou convencer pelos Disco-Disco Boys e declarou, num discurso inflamado 
e emocionado, que queimar CDs e tirar o som da filha seria uma punio absurda, que ele j havia mudado de idia.
- O skate est liberado. Queimar os discos eu no vou. Mas sem ouvir msica em casa ela vai ficar, sim. Por pelo menos um ano decretou, tentando manter a pinta de 
pai bravo.                    
- Um ano  muito. Ser que no d para baixar? - pediu Slack, sempre traduzido pela beijoqueira.
 - Baixa! Tanani Baixa! Tanan! Baixa. Tanan! - berraram em coro Manu e Gabi
- Ai, ai, ai, ai... esses rapazes so muito bons de corao, no so, minha filhinha queria? - disse, olhando mais para a cmara do que para Ritinha. - Ento, pronto. 
Est decidido. Vou deix-la sem som por apenas seis meses e no se fala mais nisso.
Tudo bem, v l. Aquela deciso j era uma vitria e tanta para a caula do trio de fs. Ela e os pais foram convidados a entrar em uma das vans e seguiram para 
uma fazenda linda, cercada de flores coloridas e muito verdes, a vinte minutos de Resende.
Ao descerem da van, sol a pino e cu azul, as tietes foram presenteadas pelo Slavabody com CDs e DVDs, camisetas, pins, fotos e agendas autografadas. A produo 
do programa televisivo caprichou, levando o quarteto do Tio Sam para aquele local especial com um nico objetivo: gravar cenas de tietagem explicita para mostrar 
para todo o Brasil. Desnecessrio dizer que elas a-do-ra-ram. S faltou gritarem: " o Fantstico, oba!  o Fantstico, oba!"
As meninas agarraram a oportunidade Tiraram fotos com os dolos, correram com os cabelos ao vento, rolaram na grama. No podia ser mais... cafona. Parecia comercial 
de desodorante ou pasta de dentes, s faltava aquele efeito de cmara lenta.
Para surpresa, Julius Tiger, o preferido de Ritinha, pegou o violo e tocou uma msica que acabara de aprender: Garota de Ipanema, dos geniais, imortais e inesquecveis 
Tom Jobim e Vincius de Moraes. Foi liiindo! Ele entoou a prola com um sotaque bem esquisito, mas muito fofinho. As meninas, bvio, se derreteram.
Os cinegrafistas focalizavam  exausto cada gesto, cada lgrima. E o melhor de tudo: jogada de marketing ou no, os meninos mais famosos do pop internacional pareciam 
em estado de graa. De verdade. Gostaram genuinamente do trio resendense. Sentiam-se nobres por receberem amor to sincero e incondicional. Mas o que  bom dura 
pouco. Para fs, ento, pouqussimo.
Ao sinal de um barbudo que comandava tudo, os profissionais rapidamente guardaram cmaras, fios, cabos e luzes. Pouco menos de uma hora depois da apario triunfal, 
era chegado o momento de o Slavabody partir.
Logo soube-se que um helicptero os aguardava num heliporto a poucos minutos dali para lev-los a Bzios. Que chique! Os gringos, com  de praxe, apaixonaram-se 
pelo Rio e, como filhos de Deus, queriam aproveitar ao mximo as minifrias que tirariam em solo fluminense. Gente famosa  assim. Vive de helicptero para cima 
e para baixo.
A despedida, no  difcil de imaginar, foi um dramalho mexicano, com direito a abraos e beijos interminveis e juras de amor eterno aos astros. Ritinha tremia 
de emoo e Manu chorava de soluar. Gabi aproveitou o ensejo para se jogar mais uma vez nos braos de Michael e companhia. Precisava agradecer a visita dos dolos 
 altura. E eram seus minutos finais com eles, no podia ficar horrenda, com cara de choro, na frente dos caras mais disco-disco do planeta. Alm do mais, aquela 
provavelmente seria a primeira e ltima vez que ela veria a banda assim, to de perto. 
Em vez de tchau e at logo, o grupo de fs despediu-se dos gringos famosrrimos de forma peculiar. Soltaram um nada tmido e, vamos combinar, nada criativo "Ah, 
ah! Uh, uh! O Slavabody  nosso! Ah, ah! Uh, uh! O Slavabody  nosso!".
A cara delas, n no? 
- Quantas vezes vou ter de pedir para, por favor, pararem com essa mania de corinho?  insuportvel! E eu no vejo nenhum motivo especial para corinho hoje - implicou 
Babete, - com uma piscadela, devidamente ignorada pelo trio de fanticas mais empolgado do mundo.
Enquanto as vans se distanciavam - e era um tal de aceno para l e aceno para c - , Gabi. Manu e Ritinha orgulhavam-se por gostarem de astros to comuns, to dceis, 
to carinhosos, to simpticos, nada estrelas, nada esnobes, mesmo com as cmaras desligadas.
No taxi pago pela produo para lev-las de volta para casa, as trs pulavam, falavam rpido, todas ao mesmo tempo. Choravam, riam, gritavam, urravam, comentavam. 
S ento Onofre e as mes presentes comearam a compreender o tamanho do amor que as filhas sentiam pelo grupo.
- As meninas podem dormir l em casa, me? Por favor?! -. implorou Manu, agitadssima.
Maria Clara consentiu na hora. Iara e Cedia encrencaram de incio, mas acabaram cedendo  presso e permitiram que Gabi e Ritinha fossem direto para a casa de Manu.
- Vocs merecem comemorar essa vitria - comentou Mana Clara.
- Oba, vamos dormir na Manu! Faz aquele brigadeiro com biscoito que s voc sabe fazer, tia? - pediu Gabi.
- Claro, querida - respondeu a me de Manu.

Depois de encherem a pana com um jantar especial - estrogonofe com arroz e batata frita - as trs ficaram finalmente sozinhas na ampla sala da casa de Manu. Devorando 
uma tigela de brigadeiro, no paravam de sorrir.
- Vocs acham que tudo isso  sonho ou realidade? - brincou Ritinha.
-  realidade. E muito melhor do que a gente sonhou - filosofou Gabi.
Ainda era difcil para elas acreditar em tudo o que tinha acontecido. Afinal, c entre ns, a visita do Slavabody, se no estivesse devidamente registrada, pareceria 
uma mentirona daquelas, e ou no ?
- E o que vocs acham que ns aprendemos? Minha me insiste nessa pergunta, preciso arrumar uma resposta boa para me livrar logo - indagou Ritinha.
- Eu aprendi que mentira e omisso tm perna curta mesmo, no  s papo chato de me, no; agora, o mais legal foi ver que a nossa amizade  eterna. A gente se adora 
de verdade. Vamos ser amigas at ficarmos velhinhas, tenho certeza - retrucou Manu com a voz trmula.
- Pois eu aprendi que sonhos nascem para fazer a gente feliz e que  preciso ter garra e fora de vontade para lutar por eles e realiz-los - concluiu Gabi.
A lembrana de tudo o que haviam passado deixou as trs para l de felizes. Alm de terem conhecido os dois lados dessa coisa de fama e estrelato - que andam to 
na moda ultimamente - era muito gostoso olhar para trs, saber que passaram por tantos medos, problemas e lies de moral e saram dessa aventura melhores do que 
antes. Melhores, mais espertas, mais atentas, mais desinibidas.
O trio se abraou forte, muito forte. Sorriso que no saa do rosto, furaco no peito e estmago mexido, as fanticas de Resende continuaram abraadas por longos 
minutos. Um upa apertado, esmagado, com sabor de vitria. No dava para resistir, aquela atuao berrava por um upa. E ele foi to apertado que chegou a espremer 
algumas lgrimas para fora dos olhos das meninas.
Era uma vitria da sorte, que as abandonou por um tempo, mas resolveu se redimir. E vitria dos pensamentos positivos, que finalmente surtiam efeito. 
- Perall Ser que essa confuso toda fez a gente crescer? Ser que  isso que chamam de amadurecer? - indagou Gabi. 
- Acho que no, minha me vive dizendo que crescer di. E eu no estou nada doda - respondeu Ritinha, apertando os msculo do corpo e virando o pescoo de um lado 
para o outro. 
Sorriram de novo e, nesse breve instante, as mulheres que comearam a nascer dentro delas se entreolharam com cumplicidade, com ternura. Mas logo as crianas que 
ainda eram falaram mais alto e elas voltaram a pensar, agir e comemorar como tpicas adolescentes, ou seja, pulando, se abraando, cantando...
Mais calmas, continuaram:
- E agora, o que vocs querem fazer? - perguntou Manu.
- Eu quero dar uma de estilista e criar umas camisetas maneiras para mandar para eles pelo correio. J pensou se eles usam num show! - respondeu de bate-pronto Gabi,
- E eu quero revelar os filmes que tiramos com a banda! Vou botar todas as fotos ampliadas na minha cortia. E voc, Manu? - quis saber Ritinha.
- O que eu mais desejo? Ir  escola amanh para poder contar para todo mundo o que aconteceu. Quero s ver quem vai tirar sarro da nossa cara!
Voltaram a comentar os autgrafos que ganharam, os beijos que haviam dado nos dolos, as histrias que ouviram deles e tambm o fato de aparecerem, pela segunda 
vez consecutiva, num programa to visto como o Fantstico. No  pouca coisa, no, hein? Parecia que elas eram as grandes estrelas dessa histria, no o Slavabody.
- Gente, vocs repararam que vamos ficar ainda mais conhecidas? E tudo isso s porque dormimos na rua! - observou Manu.
- U, no tem gente que fica famosa pelo simples fato de ter uma bunda dura e exibi-la para quem quiser ver? No  muito pior? - refletiu Gabi.
Nem mesmo Manu, que sonhava com as passarelas, cogitava a fama apenas pela fama. Ela queria se tornar uma modelo famosa, claro, mas pelo seu trabalho, pelo seu talento, 
pelo seu esforo. Seria uma injustia danada se a notoriedade chegasse dessa forma esdrxula. Afinal, ela achava um mico essas pessoas que vivem dizendo que seu 
prximo "projeto"  apresentar um programa-supercriativo-recheado-com-cultura-esportes-moda-lazer-culinria-curiosidades-jornalismo-ginstica-horscopo-e-entrevistas 
- como nove entre dez celebridades instantneas, que fazem qualquer coisa para se manter na mdia.
- Ah, mas ns no vamos ficar famosas, famosas. Em um ms ou menos, todo mundo j esqueceu o que aconteceu com a gente. Menos o meu pai. Agora ele est todo exibido, 
pode? - disse Ritinha.
- E a minha me? Pirou completamente. Ela no comenta nada, mas d para ver os olhos dela brilhando s porque vai aparecer na televiso de novo semana que vem - 
divertiu-se Manu.
Seguiram nesse bate-papo por mais meia hora, aproveitando a companhia uma das outras. Mas a voz de Maria Clara quebrou o encanto:
- Meninas, vocs no vm dormir?
Manu olhou para a me como se ela fosse a maior desmancha-prazeres do mundo. Maria Clara entendeu o recado.
- Tudo bem, vocs venceram. Mas no fiquem acordadas at muito tarde que amanh tem aula, hein, senhoritas?
- Est bem, me! Ns j vamos, s mais um pouquinho... - pediu Manu.
Relembraram por mais algum tempo pequenos detalhinhos o encontro histrico e depois, enfim, de mos dadas, subiram para dormir. Mal bateram na cama e desmaiaram 
de cansao, depois de um dia to repleto de momentos emocionantes.
No colcho macio e debaixo de lenis cheirosssimos, perceberam que no havia nada melhor do que dormir ao lado das melhores amigas, no conforto e na segurana 
de casa, pertinho dos pais. Felizes at o fundo da alma, sonharam com os anjos.
Os nomes dos anjos? Slack, Julius, Alexander e Michael, ora!
Mas voc entende, n? Coisa de tiete...

Teste


Como Manu. Gabi e Ritinha, voc tambm faria tudo por um pop star? Responda o teste abaixo e descubra que tipo de f voc .                                     

1) Voc est na praia e v o vocalista de sua banda preferida. O que voc faz?

A - Comenta com a sua amiga, de forma blas, "Ih! Olha l o fulano".
B - Fica com vontade de pedir autografo, mas a vergonha fala mais alto.
C - Levanta e corre feito uma desesperada, espalhando areia para tudo quanto  iodo, pagando o maior mico s para pedir um autgrafo e dizer para ele que  sua f 
nmero um.

2) Voc est num restaurante e v seu dolo cercado de amigos numa mesa grande e animada. Voc:

A - No faz nada, imagina se voc vai atrapalhar o cara num momento de lazer.
B - Por timidez, pede para um garom com cara de gente boa pedir o autgrafo no seu lugar.
C - Vai at a mesa do dolo, sorri para ele, manda beijos e pede um autgrafo. Se ele ou algum reclamar, voc diz, na lata: "Alou! Esse  o preo da fama, Darling!

3) Voc no tem idia de quem  o moreno sarado, mas ele est rodeado por meninas histricas e chorosas que clamam por fotos e autgrafos. Voc:

A - Pensa "que mico!" e reage como se o visse todos os dias.
B - Registra mentalmente o rosto e vai para a internet descobrir quem  para ver se te interessa um autgrafo dele.
C - Vai pedir mesmo sem saber quem , s para ter na sua coleo.

4) Voc est nojenta, suada, descabelada, sem gloss, acabou de voltar da academia e d de cara com seu cantor preferido, arrumadinho, lindinho e cheiroso, com cara 
de banho. Voc:

A - Nem cogita a idia de se aproximar do cara, afinal, independentemente de ser famoso, ele  um gato. Esse encontro bem que podia ter acontecido num dia em que 
voc estivesse mais bonitinha.
B - A alguns metros de distncia, toma coragem e grita para ele: "amei seu ltimo CD! Voc est um espetculo na capa!"
C - Ignora seu estado de calamidade pblica, vai at ele e pede que ele assine "Eu te amo" na sua camisa encharcada, amassada e (sim senhora!) fedorenta. E da? 
Todo mundo sua, u!

5) Voc est toda linda, maquiada, de salto alto, vestido chiqurrimo, indo para um casamento. No caminho, avista seu maior dolo voltando de uma pelada, todo suado, 
com uma bola de futebol na mo, a camisa suja de terra e o corpo cheio de machucados e contuses. Voc:

A - Nem pensa em se aproximar dele. Irc! Irc, irc, irc!
B - Pensa em pedir um autgrafo mas no tem coragem, voc est muito, muito linda, mesmo. Alm disso, vai que o sangue que escorre do joelho dele mancha seu vestido?
C - Corre para cima do coitado e d nele vrios beijos e abraos. Vai para o casamento prometendo a si mesma nunca lavar aquele vestido e, eufrica, conta para a 
festa inteira que a mancha em sua roupa  do suor dele. Afinal, eta suor famoso!

6) Perto do Natal, voc v o vocalista de sua banda predileta saindo de um shopping carregado de sacolas, esbarrando em tudo, sem enxergar nada a sua frente. Voc:

A - Passa, ri da falta de jeito do cara e ainda pensa: "est fazendo pose de rico, aposto que no pagou nada por essas roupas todas. Artistas  sortudo, ganha coisa 
pra caramba."

B - Se oferece para ajud-lo com as sacolas. E uma maneira discreta e gentil de se aproximar sem ser chata.

C - Esbarra nele "sem querer", s para derrubar suas sacolas, ajud-lo a peg-las e tentar fazer com que ele, enfim, descubra que VOC  a menina especial que ele 
tanto diz que procura nas entrevistas.

7) Voc est no aeroporto esperando sua melhor amiga, de volta ao Brasil depois de um ano de intercambio no exterior. Voc est roxa de saudade dela e levou sua 
mquina fotogrfica mesmo com uma nica foto, s para registrar o reencontro de vocs. Mas eis que surge um pop star internacional na sua frente, que passou despercebido 
e ir embora dentro de segundos. Voc:

A - Guarda a foto, amizade  muito mais importante do que qualquer dolo.

B - Tira a foto de longe, para no incomod-lo, mas depois se arrepende e pede desculpas aos prantos para sua amiga.

C - Ignora a sua amiga, corre at o pop star em questo e pede para tirarem uma foto sua com ele. Ah!, sua amiga tambm  f e vai entender!

8) Depois do almoo, saindo de um restaurante, voc encontra seu dolo e vai falar com ele. Assim que ele abre a boca voc percebe que ele tem um pedao enorme de 
alface no dente da frente lhe sujando o sorriso. Voc:
A - No diz nada a ele, pega um autgrafo, sai rindo e ainda conta para todo mundo.
B - Avisa para ele discretamente.
C - No faz nada, quanto mais feio ele aparecer em pblico melhor, menos fs vo se interessar, menor a concorrncia. Alm do qu, para voc, ele  lindo de qualquer 
jeito.
9) Voc est numa festa ficando com um cara metido a roqueiro que voc azara h sculos, e todos os seus amigos esto l. De repente, entra seu dolo cafona, o cantor 
brega pagodeiro romntico que abala suas estruturas, aquele de quem ningum sabe que voc  f, s sua melhor amiga. Voc:
A - Diz para o gatinho ao seu lado: "Que mico! Estamos na mesma festa que o fulano. E ele  bem mais feio pessoalmente."
B - Vai para perto do cara s pra ouvir o que ele pensa e conversa na intimidade, arrisca puxar um assunto bsico, mas no demonstra que  sua f;
C - Fica histrica, com o corao nas alturas, no resiste e vai falar com ele. Que se dane o gatinho e todo mundo. Sabe l quando ter uma outra chance dessas?

10) Voc comeou a tocar violo por causa de um msico desconhecido. Saindo da aula, encontra com ele na fila de um supermercado. Voc:
A - No faz nada, afinal, vrias pessoas devem dizer para ele todos os dias que comearam a tocar violo por causa dele.
B - Apenas comenta com ele, meio sem graa, que comeou a tocar violo por causa dele. Logo fica vermelha e vai embora correndo.
C - Diz que s estuda violo por causa dele, tira seu instrumento da capa, toca os maiores sucessos dele e s para quando os seguranas confiscam a viola e te convidam 
a retirar-se do recinto. 

Pontuao
Some cada ponto para cada resposta. A, dois para cada resposta B e trs para cada alternativa C assinalada.


De 10 a 15 pontos
F discreta: voc at tem seus dolos, mas acha que a privacidade deles deve ser respeitada acima de tudo.

De 16 a 24 pontos
F contida: sua timidez segura sua euforia quando voc encontra um dolo. Voc at fala com ele, d um tchauzinho de longe, mas escndalo, definitivamente, no  
com voc.  mico.

De 25 a 30 pontos
F fantica: puxa! Voc  f mesmo! Do tipo que faria tudo por um pop star. Manu, Gabi e Ritinha certamente se orgulhariam de ser suas amigas.



Thalita Rebouas  carioca e tem 29 anos. Tudo por um pop star  seu terceiro romance voltado para o pblico jovem. 
Jornalista, h dois anos deixou as redaes para se dedicar  literatura. Atravs de seu site, WWW.thalitha.com, a autora mantm contato dirio com adolescentes 
de todo o pas, permanecendo, assim, sempre sintonizada com o que pensam e sonham os jovens brasileiros.
